Luís Freitas Lobo

É de longe o comentador que mais gosto no acompanhamento à narração televisiva dos jogos. É inteligente, enciclopédico e percebe muitíssimo do jogo. Ainda assim, o mais importante é o entusiasmo infantil com que Freitas Lobo segue o futebol -- parece que só por acaso lhe pagam para poder estar ali, como gosta, a falar de bola (sim, é um elogio).

Devo-lhe, no entanto, um reparo. O papel do comentador não se pode centrar tão obsessivamente na leitura táctica do jogo. Pessoalmente motiva-me acompanhar o jogo da óptica do treinador, apreciando o evoluir das disposições tácticas e das alternativas que se desenham (assim até soa bem). Creio que essa é uma mais-valia fundamental a ser trazida pelos intermezzos do comentador. Mas uma coisa é fazer a leitura do jogo e apresentar uma tese táctica sobre um aspecto particular. Outra coisa é cansar o espectador com a evidência de uma tese, usando cada jogada para ilustrar a bondade da sua interpretação táctica -- como é que ela está ou não a ser interpretada pelo treinador e pelos jogadores.

A partir de certa altura deixamos de ter um comentário táctico pertinente e passamos a ter uma campanha por uma tese táctica. Ontem Freitas Lobo quis frisar de modo obsessivo o erro da internalização de Tarik, na primeira parte, e o acerto alcançado quando, enfim, o Porto passou a usar os extremos abertos, na segunda parte. No primeiro reparo não tinha razão -- enquanto os alemães continuassem a deixar o lado direito da defesa à disposição de Bosingwa, seguindo Tarik, não havia porque ocupá-lo --, na segunda parte, ou melhor, após a saída de Bosingwa por lesão, aí sim, tinha inteira razão. Mas essa não é a questão, até porque Freitas Lobo acerta quase sempre. A questão é que, sobretudo num jogo emocional como o de ontem, o comentador deve ter a capacidade de negociar entre o racionalismo táctico e a atenção às contingências de cada jogada. Estar a 10 minutos do fim a lembrar que os extremos estão enfim no lugar, enquanto o comum adepto sofre a cada pontapé de baliza, constitui uma disjunção afectivo-cognitiva demasiado violenta. Sendo o meu favorito, creio que uns jogos na tasca da esquina serão suficientes para lhe subir o Q.E., aproximando-o, apenas um pouco, pelo requinte da empatia, dos comuns adeptos.

P.S. António Tadeia foi um senhor nos tempos das transmissões do Barcelona na TVI. Mas, sem que tenha perdido qualidades de maior, paulatinamente, foi-se tornando numa espécie de Humphrey Bogart da liga Bwin: embora cirúrgico e acertado, fala por favor com o desencanto dos cínicos, como se estivesse a fazer frete. Um herói literário, porventura. Mas no que à bola diz respeito completa falta ali um mínimo de disponibilidade para o arrebatamento-- algo que as duplas inglesas, exclamativas como são, interpretam magistralmente.



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