A Guerra

Quase de enfiada, vi finalmente os primeiros 9 episódios d'A Guerra. Não precisamos de avançar muito na série para percebermos que o documentário realizado por Joaquim Furtado para a RTP constitui uma rara ode ao serviço público de televisão. Tanto a morosidade como o elevado investimento que este tipo de documento implica colidem com o imediatismo e com os imperativos comerciais que habitualmente presidem ao alinhamento de futures das operadoras.

Neste particular, o facto de as audiências terem registado uma adesão significativa vem tirar crédito à ideia feita de que à frente da televisão já só resta um público televisivo irreversivelmente estupidificado, um público supostamente incapaz de dar retorno senão com concursos, novelas, futebol, debates de actualidade ou reality shows (incluo aqui os telejornais).

É óbvio que o tema -- a guerra colonial -- bastaria para agregar um vasto interesse. Desde logo porque há toda uma geração de portugueses que partiu (ou viu partir os seus ) para combater no ultramar; desde logo porque a guerra foi um factor incontornável na mudança de regime político e na saga dos retornados.

Mas o interesse social sobre o tema também exponencia a responsabilidade de Joaquim Furtado, tanto mais que a sociedade portuguesa se tem relacionado com a guerra através de uma compromisso tácito de silêncio. O conflito que se estendeu de 1961 a 1974 representa uma experiência traumática que participou nas condições de passagem para a democracia. No fundo, a realidade democrática portuguesa parte de um trauma que tem medo de tematizar (prefere-se, naturalmente, a revolução sem tiros).

A dimensão traumática dessa passagem está tanto nas duras marcas que a guerra deixou (nas memórias, nos corpos dos combatentes, no corpo social) , como nas contradições que a estruturaram e estruturam ainda o seu legado: a contradição entre a obrigatoriedade de combater pela vida e a falta de convicção para lutar aquela guerra; a contradição entre um regime político que a justificou a guerra e louvou os seus heróis e, por outro lado, um regime político -- o democrático -- que nos leva a olhar para o esforço de guerra como um delírio insano em cuja realidade histórica quase custa a acreditar.

Joaquim Furtado fez uma admirável recolha de testemunhos, 200 cuidadas entrevistas que interpelam desde os notáveis protagonistas vivos da guerra até aos anónimos que, cirurgicamente achados, compõem, a várias escalas, o retrato cruzado das histórias que vão sendo contadas. O dispositivo pelo qual a imagem do entrevistado no presente é colocada, durante segundos, lado a lado com as suas imagens do tempo da guerra, constitui sem dúvida um dos expedientes mais felizes com que somos brindados ao longo da série. Algo que, naturalmente, só seria possível com um exaustivo trabalho de recolha de arquivos. A constante recursividade entre os testemunhos dos intervenientes e a pletora do arquivo (imagens de televisão, vídeos amadores, fotografias pessoais, recortes de jornais, registos áudio) diz bem do laborioso trabalho de pesquisa com que pacientemente se foram tecendo as narrativas recuperadas ao longo dos 9 episódios.

Reconhecido o precioso valor social e histórico deste documentário, obviamente que não posso anuir entusiasticamente a tudo. Entre as discordâncias que fui anotando mentalmente, assinalaria um aspecto que me parece merecedor de reparo.

O retrato dos dois lados é equilibrado e beneficia muito da sinceridade com que, de modo geral, os intervenientes vão recontando sem peias os enredos da guerra. No entanto, há vários momentos em que os testemunhos são deixados sem contraditório quando ele se justificaria; creio que essa omissão -- quando acontece -- resulta sobretudo do viés de gratidão para com os entrevistados. Ou seja, nota-se em Joaquim Furtado uma inibição, porventura inconsciente, em "castigar" com contra-factos algumas das declarações feitas pelos seus entrevistados. Nesta primeira temporada de episódios, isso foi mais notório em relação a Holden Roberto, que airosamente de demarcou do 15 de Março, e em relação a Adriano Moreira, cuja elegância discursiva na trivialização dos desmandos do colonialismo foi sistematicamente deixada sem réplica. De notar também que ao conferir ênfase à acção reformadora que Adriano Moreira nas colónias (que a teve, por isso foi demitido por Salazar), o documentário entrou numa lógica laudatória que a certa altura pareceu algo desproporcionada.

Mas a questão mais sensível parece-me ser, definitivamente, a do alinhamento. O documentário começa in media res com os ataques da UPA no norte de Angola: o 15 de Março de 1961. A opção narrativa é interessante e percebe-se bem a intenção: trata-se de mostrar a situação a partir da qual a acção armada anti-colonial já não poderá ser ignorada; nalgum sentido, os ataques da UPA constituem para Joaquim Furtado o momento de não retorno que conduziria à guerra colonial. No entanto, ao iniciar a narrativa pelo dia em que foram cometidos os terríveis massacres pela UPA nas fazendas do Norte Angola, Joaquim Furtado entroniza esse momento como uma espécie de violência fundadora. Essa violência desabrida e cruel é tão mais chocante para o espectador porque não se percebe de onde vem. Embora o documentário regresse atrás no tempo, convidando à fidelidade do espectador, a fim de recuperar o fio à meada, esse alinhamento, parece-me, não deixa de produzir um insanável desequilíbrio narrativo.

Só muito depois (episódio 7) ouviremos dos eventos da Baixa do Cassange -- ocorridos em Janeiro do mesmo ano (1961) -- nos quais as populações negras foram massacradas pelo exército português numa fúria aniquiladora ímpar (aqui faltariam também os registos visuais, existentes no 15 de Março, para repor algum equilíbrio).

Só muito depois (episódio 5) é que se descodifica ordem social que veio a ser perturbada pelos conflitos de 1961. Ou seja, nos primeiros episódios Joaquim Furtado explica como é que uma convivência social ordeira foi desestabilizada pelo conflito então deflagrado, explica como é que uma convivência pacífica deu lugar a inauditas relações de desconfiança, ressentimento e violência entre negros e brancos. Mas só no episódio 5, num passeio pela sociedade colonial, é que Joaquim Furtado aborda enfim a violência estrutural que "segurava" uma ordem social marcada pela subjugação e humilhação das populações negras.

Reparos à parte, não posso elogiar o suficiente o trabalho de Joaquim Furtado e aguardo com impaciência a segunda leva de 9 episódios. Parece que falta pouco.

P.S. Quem não viu (aqui e aqui)



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