Ronaldo II

Caro maradona, o livre do Ronaldo é, sem a mais pequena margem de dúvida, uma coisinha assombrosa. Mas acompanhando o comparativo que fazes com outros executantes, fico com a sensação de que vale a pena ponderar a margem de intencionalidade do "chutador". Ainda que a dimensão de casino esteja sempre lá (a carreira do Stepanov é a prova disso mesmo), homens como Roberto Carlos e Beckham (menos o Mijhalovic, apesar de mais genial nesse particular) sabem exactamente onde a bola deles vai entrar caso a coisa corra bem, ou seja, caso entre. E se a bola não entrar por aquele trajecto que eles planearam (muitos dos planos do Roberto Carlos incluem as previsíveis aberturas da barreira pelo medo) não entra de todo. Já o Ronaldo sabe apenas (e não é pouco) que chutando a bola daquela a maneira a consegue fazer passar pela barreira com boas probabilidades de chegar à baliza e, mais, cheia de potência e com efeitos que são sempre inteiramente imprevisíveis (até para ele próprio). A completa posse do plano de golo vale o que vale na avaliação da elevação artística de um golo, mas a verdade é que o Ronaldo sabe tanto do que se vai passar da barreira para a frente como o infeliz do guarda-redes (vale a pena ver esta entrevista onde, com tocante honestidade, ele assume isso mesmo). Contudo, não resta a dúvida que Ronaldo adoptou uma forma de remate que sendo amplamente imprevisível na sua coreografia tem uma assinalável propensão para dar golo. Muitos e bonitos.

P.s. Um dia gostava de o ver fazer aquele remate clássico: a partir da meia-esquerda em arco com a parte interior do pé ao poste mais distante. Seria como olhar para os primeiros quadros de Picasso e reter a certeza que ele sabia as formas elementares do virtuosismo antes de parodiar aquilo tudo (no caso do Ronaldo, as leis da física). Não é que isso importe muito, mas enfim.



<< Home