Pinto da Costa e Jonh le Carré

Que me perdoem os caroliníngios, mas nem seria necessária a recente entrevista de Pinto da Costa à SIC (vídeo) para se perceber o ridículo do desenho táctico gizado pelo ministério público; a dupla formada com Carolina Salgado é, objectivamente, um equívoco.

Na entrevista ficamos a saber, por exemplo, que a acusação releva passagens da biografia escrita por Felícia Cabrita com base no pressuposto, mirabolante, de que o manuscrito teria sido lido por Pinto da Costa antes da publicação e -- enormidade maior -- que os conteúdos mereceram o seu assentimento. Outro momento estonteante é quando ficamos a saber que a confissão de Carolina Salgado relativamente ao caso Bexiga -- na qual ela se assume como a mandante directa da agressão -- foi considerada inconsistente. Ou seja, a auto-incriminação de Carolina foi tida como falaciosa, razão porque o processo foi arquivado sem que Carolina tenha sido pronunciada arguida. Levanta-se pois a questão elementar: como é que Carolina Salgado é tida como testemunha crucial nos processos que acusam Pinto da Costa quando a sua própria confissão não é considerada credível? Neste particular, foi comovente assistir ao insólito abraço de gerações no momento em que Pinto da Costa cita Joana Amaral Dias.

A minha tese é muito simples: falta educação sentimental -- sensibilidade emocional, se quiserem -- à equipa do ministério público. Só assim se compreende que tenham apostado tão alto em Carolina sem por um momento tentarem compreender as armadilhas do quadro emocional em que ela estava imersa. Nem vale a pena lembrar que a versão publicada terá sido ligeiramente alterada de molde a satisfazer as amizades sulistas de Carolina -- assim o prova a versão original a que a defesa de Pinto da Costa terá conseguido aceder.

A minha questão é prévia. Na explicação da traição de Judas, Žižek socorre-se de uma ideia que vale a pena resgatar. Essa ideia fica sintetizada numa citação de John Le Carré: "o amor é tudo o que ainda podemos trair". Invertendo, só pode haver traição quando existe uma relação sentimental a sacrificar. Quando não, tudo o que existe e calculismo, logro, deslealdade porventura, mas sem os pináculos da traição, sem o agonismo de de alguém que violenta o que deveras sente. Carolina amava ainda Pinto da Costa quando percebeu que só se libertaria da dor desse amor quando ela própria fizesse o luto. Portanto, ao denunciar Pinto da Costa como corrupto, quis matar o que sentia: desembaraçou-se da esperança que sempre teima e transferiu o anelo passional para o campo da vingança.

O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford dá-nos disto uma perspectiva instrutiva. Numa leitura superficial do filme, diríamos que Robert Ford se pôde dispor a matar Jesse James quando a adulação que por ele sentia se transmutou em desilusão. Nessa perspectiva, é quando Robert Ford se apercebe da humana banalidade de Jesse James, da banalidade da sua marginalia, que se lhe torna possível negá-lo, assassinando-o. Mas o que o filme subtilmente descortina é o quanto esse gesto mortal deve ainda de uma relação de adulação. Ao matar Jesse James, Robert Ford experimenta o poder iconoclasta de quem mata aquilo que lhe dava sentido à vida. Robert Ford não matou por 30 dinheiros, matou por amor: o seu gesto é ainda da ordem da traição.

Carolina Salgado foi visivelmente movida por um amor que apesar de ferido ainda estava suficientemente vivo para deixar de doer. O ministério público viu em Carolina Salgado uma oportunidade de ouro. Nada contra. Mas deveria ter procurado perceber que, por definição, os gestos da ordem da traição não têm escrúpulos. Basta pensar que Carolina foi capaz de confessar um crime que não cometeu e estamos conversados. A questão é que, como o ministério público já deve ter percebido, a paixão que alimenta a traição pouco se comove com rigores da justiça. Gosto muito de Maria José Morgado, mas acho quando a laranja não tem sumo nenhum espremedor nos redime.



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