Masturbação e formas elementares de acontecimento

Em Le Sens du Mal Marc Augé propõe o conceito de "formas elementares de acontecimento": manifestações físicas ou biológicas às quais é imputada uma causa social. Conceito bastante proveitoso para pensar como nalguns quadros culturais certos eventos como a morte ou a doença, ainda que com causas biológicas identificáveis, não dispensam as causas sociais que as explicam. Essas causas essas são consumadas por dispositivos como a feitiçaria. Uma "malária de feitiço" é a mesma malária que a ciência biomédica reconhece, apenas que a sua causalidade, atribuída à actuação de um familiar ou vizinho, é posta a montante dos factores biológicos. (Na cultura cristã, o castigo em resultado de pecado contra um semelhante representa uma interpretação análoga).

Numa tentativa de abastardamento da boas intenções do Augé, pensei em recolher as formas elementares de acontecimento para destrinçar a experiência masturbatória auto-imputada da experiência que resulta de uma relação entre dois corpos (vulgo: masturbação vs sexo). Na verdade, se seguirmos a genealogia da experiência adolescente, a relação sexual constitui a "socialização" de uma modalidade que a precede (ainda que nela se inspire) e não o contrário. Ou seja, a masturbação não é a privatização narcísica do sexo primordial mas o verdadeiro percursor.

Acontece -- que de acontecimentos falamos--, acontece que conceber a masturbação como o evento biológico sem causa social desacredita a importância que as fantasias e as memórias assumem enquanto narrativa mobilizadora da experiência orgástica de matriz masturbatória (recuso a palavra onanista, um aproveitamento equivocado de um coito interrompido do previdente Onã).

As fantasias e memórias são como espíritos que visitam a intimidade masturbatória. Colonizada pelas "causas sociais" que compõem o fantasista e o nostálgico, a masturbação é pois uma forma elementar a acontecimento segundo Augé. O impossível escape das causas sociais compõe a ideia de um prazer elementar inevitavelmente "assombrado" por complexas hipóteses sociais.



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