Žižek: a marioneta e o anão

Estou um tanto preocupado. Deitado sob o candeeiro, armado com um livro contra a insónia, não consegui conter uma espécie arrepio patriótico ao atravessar 70 páginas para dar com o bom do Žižek a citar Pessoa. A bem dizer, a citação é excedentária e o poema fraco. Tratou-se, muito claramente, de um momento do mais puro show off ; algo que, como sabemos, é muito habitual entre os eslovenos de extracção lacaniana.

Mas a verdade é que é difícil ficar de mal com uma lógica ostentatória que vinga em fazer tremer as nossas "província finitas de significado", ainda que tal se revele uma estratégia de persuasão emocionalmente desonesta.

Ao evocar a cada página referências culturais (filmes, literatura, momentos históricos) num refinado intertexto, é como se o manhoso do Žižek falasse ao mesmo tempo que passa slides com imagens da nossa infância no decote Monica Bellucci (data show, no duplo sentido). Ciente disso, não surpreende o despudor com que Žižek se permite a usar o melhor da nossa atenção para lacanizar sobre as maravilhas da banha da cobra. Raramente compro, mas não resisto inteiramente aos encantos de tão erótico vendilhão.



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