Do culto dos livros

Adaptação de um texto de Inês Pedrosa:

As mamas
são um amor pesado. Arrastam-se atrás de nós como fantasmas, mesmo antes de arrastarmos fisicamente com elas, de lugar para lugar. As mamas tornam-nos conservadores: naqueles momentos em que nos apetece mudar de casa, de país, de mundo, elas perfilam-se diante dos nossos olhos, solenes, um exército de carnes ternas desafiando o nosso desejo de mobilidade. Revoltamo-nos: decidimos deixá-las para trás, oferecê-las, esquecê-las - mas elas não deixam. Porque quando passamos as mãos nas memórias das mamas, medindo forças com elas, há-de calar-nos na boca um mamilo que, rosado, tem alguma coisa para nos dizer, alguma coisa que esquecêramos ou que agora subitamente descobrimos. Alguma coisa tão nossa que não reparámos nela. Um verso sublinhado, uma noite, um abraço que nos acelera o bater do coração e o galope do cérebro. Quantas vezes utilizámos soutiens como refúgios do cérebro contra as investidas da mama? Quantas vezes os usámos como trincheiras sentimentais contra as razões da vida? Quantas vidas vivemos dentro deles, por procuração? Quantos anos passámos escondidos nas esquinas daqueles decotes, à espera que deles saltasse a surpresa redentora que, de tanto esperarmos, se esfumou? As mamas são os guardiões das nossas culpas: da muda acusação inscrita nas mamas ancestrais e virgens das que nunca tocámos ao grito silencioso das que se desmoronam nas nossas mãos, glamorosas, cintilantes, cheias de areia, chantilly, marcas de lágrimas e até - nefando crime - sombras de chocolate belga. Por que gostamos tanto de algumas mamas discretas e nos negamos a conhecer tantas mamas frondosas? Por que insistimos em espreitar decotes que nunca serão nossos? Por que mergulhamos em mamas que sabemos que nos vão magoar? Quantas vezes nos enganámos nas mamas, quantas vezes nos enganámos por fugirmos das mamas?



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