Ariza Makukula e Vukcevic

1- Ariza Makukula*, além de um excelente jogador, apresenta elementos carismáticos que merecem o melhor da vossa atenção. Voz radiofónica, sorriso iterativo, presença amena, o luso-congolês espraia-se entre colegas, jornalistas e adeptos com a atitude declarada de alguém que está ali para fazer amigos. Coisa notável. Vivemos num tempo em que a poupança de energia social entre jogadores atinge limites ridículos de minimalismo. Alinho algumas razões para isso:

- a incorporação da ética do profissionalismo para além da dose (no fundo, a clássica separação entre trabalho e conhaque levada à estalinização da personalidade);
- o fantasma da luta pela titularidade (cada colega é também um contendente pelo lugar, acontece que emocionalmente nem sempre se resolve da melhor maneira a tensão evolutiva entre competição cooperação);
- o crescente nomadismo (não convém ao artista de circo criar laços com a cidade e as gentes que em breve terá de abandonar);
- o enfado dos estágios (o muito tempo passado em estágios contribui para que o espaço de sociabilidade do clube seja crescentemente associado a uma dimensão sacrificial).

Portanto, se é para acrescentar ao cinzentismo que impera na mediatização futebolística nativa, sou o primeiro a celebrar o facto de Ariza Makukula não ter rumado para a longínqua Espanha.

2- Vukcevic, não obstante a relação filistina que tem com o futebol (enquanto espectador, vá) e logo com a vida (meu silogismo), tem condições para devolver ao Sporting algo do Oriente luxuriante que o visitou nos tempos de Sousa Cintra (Ivkovic, Vujacik, Juskoviak, Balakov, Cherbakov, Yordanov). Joga muito, disso não haja dúvida.

*Lourenço, a compleição fonética das palavras "Ariza" e "Makukula" não é separável sob pena de clamoroso logocídio. O sentido retumbante de "Makukula" só pode existir com a suavização poética que decorre do jogo vogal aberta/sibililante em Ariza. Na TSF já perceberam isto e eu sei que és uma pessoa de bem.



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