Pavlovic

O Rogério Casanova, blogger adorado aqui deste cantinho -- apesar de já haver muita gente a gostar dele, uma maçada --, cometeu uma imprudência metafísica cujo desfecho trágico logo adivinhei. Digamos que teve a veleidade de prometer que não voltaria a postar enquanto o Sporting não ganhasse. Ao fazê-lo, mais do que atentar contra a sobrevivência do blog (problema provisoriamente resolvido), agudizou uma relação já de si bastante problemática entre o Sporting e a justiça divina/teleologia (riscar o que não interessa). A missão civilizadora que os deuses, satã ou o destino têm vindo a aplicar no Sporting passa por uma exigente formação ética dos adeptos: é-lhes pedido que alternem a capacidade de exercer o estoicismo com o inglório dom da esperança. A relação do Sporting com o destino está relativamente estabilizada por uma presença de sentido trágico que, vista ao longe, até se recobre de alguma beleza, repare-se como o adepto sportinguista enfrenta o fracasso privilegiando sempre a melancolia à neurastenia. Face a este estado de coisas, as possibilidades de vitória do Sporting dependem inteiramente das distracções dos tutores do destino. Só assim se compreende que o insigne Inácio ganhe um campeonato muito graças a um italiano cujo nome ninguém recorda (Di Franceschi), enquanto que o vistoso futebol da era Peseiro (mesmo) é punido pelos mais inglórios expedientes: um golo de Luisão na penúltima jornada e uma derrota na final Taça Uefa em plena Alvalade. Para lá dos problemas directivos e de outras coisas prosaicas como a proletarização de Moutinho ou concepção de Farnerud em 1980, o sucesso do Sporting passa por jogar na clandestinidade das vontades divinas. Ora, quando o Rogério Casanova desafiou o destino este limitou-se a responder à chamada. Com Pavlovic. Aos 94 minutos.



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