O Protegido: Luisão e Katsouranis

Acho injusta da decisão disciplinar do Benfica ao dar penas diferenciadas a Luisão e katsouranis. Facto: dentro de campo um jogador pode chamar à atenção dos colegas sobre o acerto de uma decisão no jogo. Nesse caso, sinalizam-se escolhas infelizes em relação às opções disponíveis em determinada jogada ou em relação às linhas de orientação emanadas do balneário. Para tal importa que quem reclama tenha autoridade, que a tenha dentro do jogo (não tenha cometido ele próprio erros de decisão) e que a tenha dentro do grupo. Luisão tinha autoridade no jogo e tinha-a no grupo (por ser capitão de equipa e patrão da defesa).

Aceita-se que tenha actuado em seu nome pessoal (ao cortar o lance sacrificou-se com um amarelo), aceita-se que tenha actuado em nome da defesa (é o sector que paga as favas quando se perdem bolas no meio campo), aceita-se que tenha actuado em nome da equipa (face a uma equipa rápida como o Setúbal as perdas de bola facilmente poderiam delinear os contornos uma derrota).

Mas Luisão peca a montante: no erro de análise sobre a natureza da falha de Katsouranis. Katsouranis não cometeu um erro da ordem da decisão ou sequer um erro táctico. Estando a ala esquerda minada, tentou reeducar o ataque endossando bola para Petit, o primeiro construtor de jogo do Benfica, jogador que até vinha jogando com alguma liberdade de movimentos nessas funções.

É verdade que o passe foi feito de uma forma demasiado lesta, tanto assim que Katsouranis não se apercebeu da presença de Edinho que entretanto subia no campo (Carvalhal tinha dado indicações para que Pitbull e Edinho, alternadamente, tentassem secar as liberdades de Petit). Mas se Katsouranis pecou por alguma coisa foi por ter jogado em função de automatismos tácticos informados quer pelo desenho ofensivo de Camacho quer pelos 65 minutos de jogo até ali decorridos. Nunca por os ter desprezado.

Assim sendo, o erro de Katsouranis é um erro de ordem técnica e não um erro de ordem da decisão. Não é preciso perceber muito de psicologia motivacional para saber que estes erros se tratam de forma diferente do que escolhas erradas: ralhar em cima de um erro técnico faz parte da mesma lógica que leva alguns pais a bater na criança que caiu.

Luisão tinha autoridade mas usou-a a despropósito e, o que é pior, fez da reprimenda ao erro de Katsouranis um facto público (num campo de futebol os gestos valem mais que os gritos como significantes públicos) . Posso até acreditar que existam atritos prévios no balneário (não esqueçamos que Katsouranis foi levado para o Benfica pela mão de Fernando Santos) assim como descompensações algo óbvias (depois da saída de José veiga o cargo de director desportivo espera por Rui Costa como se de Godot se tratasse). No entanto, Katsouranis, bem longe de ser um reincidente em erros levianos que prejudicam a equipa, é dos jogadores que mais se tem sacrificado em salvar o pescoço dos ingratos Camacho e Vieira -- basta contar o número de vezes em que já jogou a central esta época e as circunstância em que o fez (chegou a jogar ao lado de Míguel Vítor ensinando-lhe o pouco que sabia).

Ora, esta história sacrificial só agravou em Katsouranis o sentimento de injustiça, levando-o a um intempestivo pedido de explicações (com um pirete à mistura). Quem já viu o Luisão ser papado pelo Paíto, pelo Liedson, you name it, sabe o quanto aquela finta do Edinho lhe deve ter custado. Por questões estéticas, o capital de humilhação de um defesa com elevada estatura e com uma morfologia desengonçada é elevadíssimo: quando é fintado sobressai muitíssimo na fotografia. Que naquele momento Katsouranis tenha sido eleito como o bode expiatório de Luisão até é compreensível, mas, ao contrário da personagem de M. Night Shyamalan, a jusrisprudência do Benfica escolheu o herói errado. Katsouranis, este bogue está contigo

Comments:

Enviar um comentário

Comentários



<< Home