O Amante, Duras (continuação e fim)


É inevitável pensar que perdi tempo demais a ver aqueles jogos da segunda divisão alemã, então comentados pelo Jorge Perestrelo, para só agora, em 2008, me dar à fineza de tirar a limpo a adaptação para cinema d'O Amante de Duras. Não porque não houvesse coisas mais importantes em linha de espera. Não (Santo Agostinho me guarde) porque despreze completamente a comunidade de troca que esgrime a agenda cultural por princípio de actualidade. Não porque a obra de Duras ocupe lugar comparável ao de outros autores que têm lugar cativo no meu testamento. A questão é que há um raríssimo poder colonizador nos seus textos, algo que provavelmente muito deve aos lugares que visita. E por aí se impunha a dívida. Saigão, Sadec, Horoshima, Calcutá: são espaços que fatalmente colonizam a débil imaginação deste jovem imberbe (note-se que ainda o sou, senão jovem pelo menos imberbe).

O dispositivo de escrita d'O Amante é inteiramente confessional e autobiográfico, o que não quer dizer que os factos correspondam efectivamente às vivências pessoais de Duras. Aliás, seria a própria autora a afirmar a ficcionalidade do texto que finalmente lhe concedeu o Gongourt em 1984 (Uma Barragem Contra o Pacífico havia falhado por pouco em 1967). Sabemos, por exemplo, que o amante histórico não primava pela beleza -- ao contrário do que a descrição mais ou menos generosa do romance faria supor, ao contrário do entretanto mitificado Tony Leung --, sabemos que o elemento sexual chegaria relativamente tarde na relação. Mas, à parte algumas minudências aplanadas ou distorcidas pelas exigências romanescas da narrativa, O Amante não trai o sentido memorial de uma relação iniciática, aquela que se constituiu para Duras como o alvor da sexualidade, da auto-suficiência económica, mas, também, o marco de uma transgressão que irreversivelmente violentou o futuro de uma putativa senhora de bem.

Na verdade, dada como era a reciclar materiais, parece lícito pensar que Duras tentasse enfatizar a posteriori os elementos ficcionais d'O Amante como parte de uma estratégia: tratava-se de limpar caminho à recepção d'O Amante da China do Norte (1991), título que, contra as acusações de auto-plágio, defenderia como o relato fiel do que realmente se passou.
Em todo o caso, a adaptação fílmica d'O Amante será sempre recebida quer contra o livro quer contra a biografia. E, nessa perspectiva, é desde logo muito difícil não vermos em Jane March um retumbante erro de casting. Poder-se-ia dizer, como a certa altura disse Duras, que Jane March é excessivamente bonita (Duras dizia que ela mais parecia a miss França). O que, sendo um facto, deixa a descoberto algo bem mais crucial. A beleza extrema não é em si um problema. A questão é que, seja contra a personagem que se desenha no livro, seja contra a persona de Duras, a Jane March falta a perversidade quase mefistofélica dessas outras. March é demasiado angélica e incorpora uma inocência que em Duras sempre existiu já como ruína.

A "adolescente fatal" habitava na personagem, essencialmente, através do paradoxo entre a entrega sexual de uma rapariga de 15 anos (que foi também a entrega da sua virgindade e da virtude social) e a contenção romântica de quem se limita a recolher o prazer e o dinheiro de um homem que tenta não a amar :"não quero que me ames, quer que faças comigo o que fazes com as outras mulheres". Só no fim, já no barco, é que percebe que também fracassou no projecto de não o amar. -- No filme a diferença de idades ou o espectro da pedofilia não chegam a ser uma questão, depressa tudo se dilui numa relação procedente com a imaginada licenciosidade daqueles recantos tropicais. -- Mas a perversidade sedutora tinha também uma dimensão de pacto com o mal; se por um lado a jovem Duras foi capaz de controlar os termos emocionais da relação, por outro a relação vai ser apropriada pelas lógicas vagamente dementes da sua família.

A relação com o amante chinês representa uma transgressão pessoal que a expõe às humilhações físicas e injúrias (da parte mãe e do irmão mais velho), mas também representa uma oportunidade financeira que é adoptada pela família -- sem contradição -- como uma fonte de rendimento. Duras constitui-se algures entre a mulher que domina o desejo do amante e a criança violentada pela família; é nesse cruzar de caminhos que esboça um exílio pessoal feito entre o fogo da demência e o fogo do amor. No fundo, talvez esteja aí o célebre muito cedo que foi também o tarde demais.

O que é curioso é que o rosto juvenil de Duras de facto guarda a densidade draconiana desse exílio, sobretudo num olhar que manifestamente desafia os rigores da inocência. Temos ali também a jovem que à sua maneira amou o irmão mais novo, a jovem cuja boca o iniciou nos prazeres do amor.

Mas o cinema tende a forjar uma realidade mais do que real, a distância entre rosto e emoção, a "distância entre intenção e gesto", ainda que complexificada (toda uma arte, essa complexificação), exige-se mais curta no cinema do que nos mundos da vida, onde, sem a pressão da verosimilhança, as disjunções proliferam sem guarda-freio. É exactamente a noção da trivialidade desse descompasso que nos permite crescer no filme cada vez mais concertados com uma possível afinidade entre actriz e personagem. Nesse momento estamos prontos para dar crédito à perturbação mal escondida nos gestos refinados de Tony Leung, nesse momento estamos prontos para perceber a tanta angústia que pode se alojar na pose majestática da limousine. Estacionada. Sempre, pacientemente à espera. Ele, majestático, no banco de trás, à espera. Até ao dia em que clandestinamente se despede no porto de saigão. O barco abandona-o rumo a Marselha. Aí, no banco de trás, ele já nada espera.

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