Estereótipos

"(...) Judith Butler apenas perpetua estereótipos (as chamadas diferenças de género) e justifica a marginalidade de comportamentos sexuais anómalos, que visam imitar e repetir estes estereótipos, contra os quais Simone de Beauvoir lutou."
Caro Sérgio Lavos, das duas uma: ou estás a ler mal Judith Butler ou então estás a ler com muita má vontade. Este excerto não se segura, nem como caricatura do pensamento de Judith Butler (que era, aliás, a minha primeira hipótese de leitura). Judith Butler não perpetua coisa alguma, quando muito explica como é que a diferença sexual se perpetua nos processos de formação da identidade sexual; justamente, pelos tais processo de mimese e reiteração de que falas: a incessante performatividade da diferença sexual.

Sem Beauvoir não existia Butler. Facto. Mas se Butler discorda de Beauvoir em alguma coisa (e discorda), é, desde logo, na recusa do sexo como aquilo de natural que estaria antes do género. Recusa, no fundo, a dicotomia natureza/cultura enquanto algo estanque. Segundo Butler nós apreendemos a materialidade dos corpos através dos valores culturais que tornam essa materialidade inteligível. Sexo e género estão imbricados à nascença. Na perspectiva de Butler, homem e mulher são dois "constrangimentos constitutivos" que se vêm perpetuando na cultura sob os rigores norma heterossexual (e heterossexista), cujo poder hegemónico ela reconhece tanto quanto opõe. Butler pode ser acusada de muita coisa, mas (pelos deuses!) não de perpetuar estereótipos.
Quanto ao mais, gostei muito de conhecer essa bela faceta da Beauvoir.

P.s. Não sei se vos disse, mas eu já abri a porta para a Judith Butler passar (gesto que não deixa de ser irónico se visto como cavalheiro). Foi tudo. É uma das minhas glórias imerecidas.



<< Home