Estereótipos II

Caro Sérgio Lavos,

Lendo a tua resposta, só posso reputar de oportuno o texto que nos trouxe à conversa (curiosa perversidade nisto dos blogues: mais facilmente nos manifestamos em relação a algo de que discordamos do que em relação a algo que calou cá dentro - nesses casos, no duplo sentido).

Creio que a nossa divergência espelha uma ambivalência que em boa verdade é constitutiva da obra de Butler. Judith Butler (num movimento que notoriamente herdou de Foucault) devota-se a instigar à "insurreição das histórias subjugadas" através de um aparente paradoxo. Consiste este em declarar a quase omnipotência do poder (o modo como ele estrutura a nossa subjectividade e como é reproduzido mesmo nas tentativas de o depor).

A questão é que o reconhecimento do longo braço das estruturas dominantes não funda em Butler (como não funda em Foucault) qualquer cepticismo ou fatalismo, pelo contrário: exactamente por reconhecer a extensão dos constrangimentos postos é que Butler se obriga a ser mais radical no desenho dos "pontos de fuga". Assim, se Butler não é particular entusiasta de que os movimentos gay e lésbico tenham uma agenda dirigida à luta pelo direito ao casamento não é por achar esta demanda ilegítima ou desimportante, mas sim por julgar que nalguma medida essa luta cristaliza a norma em vez de a desafiar radicalmente.

Não é muito diferente o modo como ela analisa os termos em que a identidade é constrangida pelos modelos de masculinidade e feminilidade. O sexo e o género só estão imbricados à nascença porque essa operação cultural hegemónica é posta em andamento deste o nascimento de uma pessoa e, também, porque o sentido da corporalidade nasce para nós já com essa imbricação: não conseguimos olhar para um corpo sem as lentes culturais que destrinçam "homem" e "mulher". Mas embora a ambivalência que denotas esteja de facto lá, e embora essas estruturas tenham toda densidade histórica de que falas, Butler não olha para essa historicidade com fatalismo, ela aspira ao radical desejo de a trancender: "These regulatory schemas are not timeless structures, but historically revisable criteria of intelligibility which produce and vanquish bodies that matter" (Butler, 1993).

A preocupação de Butler é a falta de reconhecimento e de "encaixe" social para as pessoas cujos corpos não se articulam com as expectativas de género: mulheres com modos masculinos, homens como modos femininos, mulheres que desejam mulheres, homens que desejam homens, mulheres que querem ser homens, homens que querem ser mulheres, intersexuais, etc. E aqui, num certo sentido, estamos entrados na teoria queer.

Para Butler a estreiteza dos modelos aceites inevitavelmente impõe uma violência nestas "excentricidades": Here is not the question of how discourse injures bodies, but how certain injuries establish bodies at the limits of available ontologies, available schemes of intelligibility (Butler, 1993). Na verdade a "secreta" utopia de Butler era um mundo onde não existissem homens nem mulheres, não existissem heteros nem gays, no mundo utópico de Butler só existiriam por corpos e prazeres.

Aqui chegado para responder à tua pergunta, naturalmente concordo que é importante a aceitação do igual poder na feminidade , como concordo que um homem deve saber aceitar o poder de uma mulher tanto quanto a sua autonomia para viver as diferentes forma de ser mulher (em todas os suas cambiantes e matizes). Sem ver nisso contradição, a esta senda de inspiração beauvoiriana acrescento aquela que Butler advoga: a necessidade de reconhecimento e de igualdade para as diferentes formas como os sujeitos se relacionam com os papéis de género prescritos: se os adoptam, se os matizam, se os invertem, se os subvertem ou (caso fosse possível) se os ignoram.

P.s. Tens razão quando dizes que o heterossexual não implica sexista. O meu entre parênteses no post anterior apenas queria fazer notar que a hegemonia que vem dominando as nossas sociedades é representada por uma norma que é ao mesmo tempo heterossexual e sexista.
P.S.2. Partilho inteiramente da crítica ao feminismo puritano, moralista e dogmático. Mas há muito que outros.



<< Home