Feliz 2008

Aos do costume e aos ocasionais, os meus sinceros desejos de.

Gramática erótica

---"My wife [the actress Arielle Dombasle] and I don’t use the familiar ‘tu’ form of address when we talk to each other. We use the more formal ‘vous’. All theoreticians of eroticism know when there’s no distance, there’s no border; when there’s no border, there’s no taboo; when there’s no taboo, there’s no transgression; and when there’s no transgression, there’s no desire.”

Bernard-Henri Lévy, A Life in the Day, The Sunday Times


5 filmes

O JPT e o José Carlos Matias desafiam-me para uma corrente à boleia da qual era suposto eu revelar os meus 5 filmes de eleição. Acontece que não consigo. Juro que tentei, mas só de imaginar o desgosto que iria dar aos proscritos comecei a acordar em sobressalto a meio da noite. Achei por bem desistir.
Para que a cobardia não seja completa, revelo aqui ao JPT e ao José Carlos Matias, em primeira mão, o primeiro filme que vi numa sala de cinema (se gozam, amuo):


Jonathan Littell

O Ípslon desta semana serve amplo apetizer sobre As Benevolentes, "a primeira obra literária" de Jonathan Litell (podem ler aqui a recensão do Eduardo Pitta). Fica uma dúvida: porque carga de água é que se importa uma entrevista (do El País) que assalta o leitor pelas piores das razões. Trata-se de uma conversa faustosamente mal conduzida e terrivelmente constrangedora. Deixo-vos com o esclarecedor final da dita:

Não quer escrever outro romance?
Veremos. Passo a vida em coisas que me vêem deste maldito livro, estou farto.
Maldito livro, já o detesta?
Não, tê-lo escrito não. Mas tudo o resto. Repetir esta entrevistas 30 ou 40 vezes....
Não dá muitas.
Demasiadas para o que gostaria. Não lhes vejo sentido a menos que surjam coisas novas. Tem de as fazer, faz parte do seu trabalho e têm de vender jornais. É puro comercialismo, não tem nada a ver com outra coisa. Dei algumas entrevistas interessantes, em que surgiram alguns elementos novos e por isso valem.
E nesta disse alguma coisa de novo?
Não.
Então acrescente.
Não tenho mais nada a acrescentar.

Publicidade/Amo-te

Facto: no que a rentabilidade económica diz respeito, a maioria dos bloggers não aspira a qualquer lucro. Isto não quer dizer que o horizonte de retorno se esgote na vaidade fundadora de ter leitores. O que se passa é que os blogues -- como muitos outros projectos editoriais -- tendem a privilegiar a influência em detrimento do lucro. Tal como o lucro, a influência granjeada constitui uma forma de poder passível de ser "investida" num sem número de modalidades. E nessa leva devo dizer-vos que nenhum uso das prerrogativas da influência me comove mais do que o brandir de afectos a céu aberto. Embora eu não seja grande useiro da prática, considero que (na justa medida) o uso do blogue para declarações de amor, declarações de amizade, pedidos de perdão, dedicatórias públicas, são compensas nobilíssimas para quem dá o coiro no mister de teclar. Com inteira propriedade o Daniel Oliveira justificava a inclusão de publicidade no seu blogue com a ideia de que a médio prazo os blogues devem tornar-se auto-sustentáveis. Imagino que a semi-profissionalização dos bloggers acontecerá quando o Bruno Paixão puder viver da arbitragem. Entretanto, o que me encanta mesmo é ver os anúncios do google adiados, relegados por recados ao patrão e cortejos à filha do homem do talho. O sustento motivacional da escrita tem uma extracção tão vasta que para sermos precisos talvez seja abusivo falar em amadores na bloga. O doce fruito colhe-se das mais variadas maneiras. Graças ao blogue e à filha do homem do talho há muito boa gente que nesta hora dorme com a cama aquecida e a arca cheia de entrecosto.

Avulsos

---"(...) Infelizmente ainda não possuímos um sistema democrático suficientemente maduro, que esteja preparado para patrocinar a aquisição do sistema de mísseis Hellfire por forma a equipar convenientemente os veículos e helicópteros da BT. Os condutores portugueses, todos eles arraçados ou de chita ou de alforreca, precisam de sentir, na pele e no bolso, que há alguém na estrada mais imprevisível e discricionário que eles." maradona

1953-2007


"Now all those hopes are gone"

Das memórias de Lolita















Marguerite Duras, 15 anos

Adler, Laure, 1999 (1998), Marguerite Duras: uma biografia, trad. por Carlos Silva, Lisboa: Queztal Editores

Sons do solstício

Justamente assinalado aqui, todo o esplendor da invernia.


broken harp/ p.j. harvey



Festa da Família II

Caro Tiago, tudo por boas razões, é-me sempre muito complicado debater contigo. Sobretudo porque a distância de opiniões (discordamos em relação a quase tudo) concerta-se em mim com uma admiração que transvasa a tua escrita e mete ao barulho a tua pessoa. És uma espécie de pimentos grelhados temperados com molho de manga (não um tempero no sentido de que algum sabor seja amenizado por outro, apenas que combinam e dão, ainda, o gosto extra de nos sentirmos a saborear o exótico -- não da manga, mas da mistura). O curioso é que na componente pessoal disto participa um interessante subtexto: apesar de tranquilamente distanciado, tenho gosto em invejar a tua dedicação duradoura à comunidade de fé de que fazes parte e onde um dia nos "cruzámos". Ou seja, pelas mais laudatórias das razões, ainda que falássemos do tempo, debater contigo seria sempre algo ad hominem.

Em segundo lugar, há uma questão de estilo: o teu ratio de ideias por linha, a que se soma o sábio uso da ironia, cria a ilusão de que há voluntarismo e gravidade a mais em quem te replica. Por isso sempre que me atiro a ti ou te respondo fico logo em cuidados; no entanto estou certo que, malgrado estas provações, no longo curso te converterei. Estas linhas não foram um preâmbulo para o que aí vem -- não haveria necessidade --, lê-as como floreado de um admirador.

Falemos então do meu post sobre o Natal. De facto, como bem referes, sou obrigado a reconhecer que tenho extrema razão. Não só na leitura que faço sobre uma disjunção radical entre o relato histórico do evento e o ritual que o celebra, mas também porque, ao contrário do que possa parecer, o culto da família tem resistido grandemente incólume aos "movimentos anti-natal". Ainda que atentar contra a festa da família seja um gesto previsível de arregimentação negativa (e é), ele tem sido obscurecido pelo protagonismo da crítica à mercadorização dos afectos por alturas do Natal.

Como a imagem que referes (da Maria-mãe-solteira) bem o ilustra, é no mínimo irónico que o relato bíblico do nascimento de Jesus seja resgatado das garras do consumismo natalício pelo retorno à pureza da família, como se a celebração da família (tradicional, entenda-se) estivesse mais inscrita no "texto original" sobre o nascimento de Jesus do que, por exemplo, a bondade/hospitalidade de estranhos (coisa que me envia para a belíssima passagem em Hebreus 13:2). Isto é tão mais saliente quando hoje ateus e agnósticos massivamente recorrem à festa da família como âncora possível para explicarem a sua imersão nas celebrações de Natal.

No entanto, acho que tu tens toda a razão e és inteiramente pertinente na tua interpelação. Acho mesmo. Muito ao encontro do que escreves, percebi algum tempo após escrever aquele post que havia nele algo que me desconfortava: uma secura. Naquele textito vai bem a náusea que o Natal às vezes nos provoca (essa é a parte que gosto), mas reconheço que o enfoque na genealogia histórica (e ideológica) do ritual se mostra excessivamente frio e insensível a um outro tipo de história: a história das apropriações subjectivas e intersubjectivas do Natal, a experiência do Natal como momento singular de encontro e de celebração de afectos. Não acredito que seja possível sermos cínicos perante isso; nem eu desejaria ser capaz de exercer esse cinismo cabalmente: naturalmente que também suspendo a dúvida; tudo faço para me adaptar aos rituais locais; a ideia de um pretexto para a partilha com os outros significativos compraz-me inteiramente. Eu critico, isso sim, o ambiente compulsório que reúne pessoas que nada se dizem apenas porque o sangue e espírito do Natal assim o obrigam. Critico também o modo como a perda do objecto original não é assumida, mas é, ao invés, camuflada na sacralização laica da família (com o presumido beneplácito dos Evangelhos).

No fundo, a minha linha de devastação iria no sentido de que se mudasse a data de celebração do nascimento de Jesus, por exemplo, para dar algumas hipóteses ao cristianismo de inspiração bíblica. No Natal, por más e boas razões, há muito que a agenda está ocupada.

Charros

Voltei a confrontar-me no outro dia com esta questão. Como é que um gajo tão avançadamente à frente como eu, para mais cultor dos mundos xamânicos, se abeira da orla dos 30 sem ter fumado um charro? É sem dúvida uma das questões que mais faz latejar de incerteza este princípio de século (sempre desejei ter um blog cuja linha editorial me pudesse ter como prioridade na contemporaneidade). Algumas hipóteses de resposta:

1- É ilegal (começo com uma piada)
2- "A minha cultura é a do álcool" (com as devidas distâncias, permitam-me que me sinta em casa na frase lapidar de Vasco Pulido Valente)
3- Sou dado a vícios e uma vez neles entrado estou desgraçado. Por isso dou corda a poucas coisas com reconhecível compleição de vício (p. ex. nunca instalei jogos no meu pc, não vejo séries que agarrem (com excepções), deixei de ver novelas antes de deixar de gostar delas, raciono a compra de caju nos 3 quilos por mês).
4- Escolho os vícios em vez de os acumular (tampouco tenho pretensão de os extirpar)
5- Por nunca me ter iniciado no tabaco nunca aprendi a "travar" (parece que para os charros é um "gesto anatómico" basilar)
6- Por nunca ter aprendido a travar, sempre contei com o espectro do ridículo a adjuvar-me quando era o momento de dizer "passo"
7- Numa inversão dramática, a partir de certo momento, o nunca ter fumado um charro emergiu, nos círculos onde me movo, como uma excentricidade prestigiante comparável a saber a Odisseia de cor (sou muito sensível a glórias imerecidas).

Carla Bruni (act.)

Carla Bruni: "My parents also always voted for the left. It's a tradition. I will never vote for the right"
A direita regozija ao ver Sarkozy reverter o seu estatuto de abandonado, ainda para mais com uma mulher bonita, ainda para mais com uma mulher de esquerda (acreditem que isto conta à luz da mentalidade que objectifica as mulheres como terreno de conquista, o domínio da luta, pois), ainda para mais com uma mulher que toca na grafonola de muito esquerdalha (silêncio).
Primeiro que tudo, o amor não tem ideologia, blá, blá, ... Depois, depois estão a ver tudo ao contrário. Após votar Segolene (facto confesso), Carla Bruni sentiu que devia tentar uma segunda via para dirigir à esquerda os destinos do Eliseu. Democracia participativa, pois.

Juro

Não conheço o Rui M. C. Godinho, mas já gosto muito dele.

Festa da família

Lucas 8; 19-21: " E foram ter com ele [Jesus] sua mãe e seus irmãos, e não podiam aproximar-se dele, por causa da multidão. E foi-lhe dito: Estão lá fora tua mãe e teus irmãos, que querem ver-te. Mas, respondendo ele, disse-lhes: Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a executam."
Ainda percebo a parte de se celebrar o nascimento de Jesus numa cultura marcadamente judaico-cristã. Mas, de resto, é tudo muito estranho, diria mesmo, sinistro . E não me venham com a história, agora consagrada, de que era uma bela festa da família que entretanto foi barbaramente corrompida pelo selvagem capitalismo. A persistência de uma pureza original sobre a festa da família é já ideologia. É tão absurdo o pretexto das prendas dos reis magos para a voracidade consumista, como é absurda a passagem do Natal bíblico para a festa da família. Factos: estavam lá Maria e José. Nasceu Jesus. Uma família: mãe, filho e pai afectivo. Depois vieram os estranhos: magos do Oriente, pastorinhos que ali cirandavam, algum gado de circunstância. Seguindo o fio ao texto comove-nos tanto a generosidade desses estranhos como o périplo de José e Maria. Mas no que se fez do Natal há uma radical escolha. Nada mais selectivamente construído do que a romantização da família e a consequente arregimentação, (vagamene eugenista) que se cumpre na consoada, segundo vínculos de sangue e matrimónio.

E eu abdico da Monica Bellucci

Comentando o Campeonato da Europa, Scolari afirma que não hesitará se tiver que abdicar do futebol bonito em favor dos resultados.

Moderado

Diz JPP: «E também, imaginem, o "meu" clube, na forma mínima como me dou com o futebol, é o Futebol Clube do Porto...»

Sem que eu conseguisse perceber bem porquê, este excerto interpelou-me como uma das frases que mais assombro me causou no ano de 2007. Primeiro pensei que o insólito estava no facto trivial de que estamos impreparados para conciliar as reiteradas posições anti-futebolite de Pacheco Pereira com a confissão de uma afeição clubística, ainda que leve. Mas não é por aí; até porque faz todo o sentido, concedamos: uma pessoa indigna-se com o protagonismo que o futebol assume na vida pública e nem por isso deixa de adormecer a sonhar com trivelas (o que também não será bem o caso).
Depois de muito cansar a moleirinha, lá percebi. O pormenor que faz desta narrativa confessional uma modalidade insólita é o retrato de alguém que é do FCP e que, simultaneamente, assume uma relação mínima com o futebol. A verdade é que, no nosso senso comum, "ser do FCP" equivale a participar numa cultura de excesso devocional na qual o futebol é, quase obrigatoriamente, vivido sem mesuras. Doravante, quando me chamarem fanático como sinónimo de portista, lembrarei o exemplo de Pacheco Pereira, o portista moderado.

Já agora, vale a pena ler a corajosa crónica na íntegra.

Enquanto o aquecimento gobal não chega

Desconheço se algo tem mudado na edificação mais recente, mas não interessa: em termos de isolamento térmico a construção em Portugal é uma anedota. A casa donde vos escrevo é disso um exemplo. O problema de não vivermos num país com sérios pergaminhos em termos de temperaturas negativas é que, por falta de medidas preventivas avisadas (síndrome dos três porquinhos), apanhamos mil vezes mais frio dentro de casa do que aquilo que qualquer norueguês sensato imaginaria ser possível. A compensação é óbvia, temos que pôr o aquecimento descentralizado a cumprir o papel que a optimização térmica dos materiais de construção devia cumprir (assim dito, até parece que percebo do assunto).
Incomoda o protagonismo que o aquecedor a óleo assume por estes dias na minha vida (já não me chegavam os óculos como prótese?). Perturba pensar que as empresas de construção nativas possam estar tão militantemente sintonizadas com o futuro segundo Al Gore.

¿Por qué te callas?

Caro Luís, recebo com sincera lisonja a tua valorização do meu silêncio e o modo paciente com o terás coleccionado. Longe de me sentir "patrulhado", dou-me a explicar esse silêncio por duas razões: porque leio na tua nota uma atenção genealógica vinda de momentos políticos em que, debatendo, discordámos; porque gosto de ti e ficaria triste se desistisses de mim. Haveria aqui um outro debate sobre o excesso messiânico com que eventualmente nos vemos a postar (contra mim falo), fica para outra altura.

Como a escrita que aqui me apetece não tem uma uma compleição primordialmente política, tendo a falar de temas políticos apenas quando sou incandescido por alguma indignação forte ou quando acho que tenho algo a acrescentar (coisa rara). Portanto, mais depressa me debruço sobre o teclado quando tenho uma opinião contra-corrente; do mesmo modo me refastelo quando vejo que alguém já fez o trabalho, dizendo mais ou menos o que eu diria e melhor que eu.

Falemos nós da proto-ditadura chavista, falemos nós da vinda de ditadores sanguinários a Lisboa, temos toda uma blogosfera, à direita e à esquerda, a apontar teclados na justa denúncia de regimes tutelados ora pela avidez autoritária (caso de Chavez), ora pela cleptocracia, autocracia e completo desprezo pelas populações que servem (caso de muitos dos líderes reunidos na cimeira).

E porque a blogosfera política tem agendas muito próprias, refractando quer a opinião pública mais ampla, quer a importância relativa dos temas na realidade social (não podia ser de outra maneira), a verdade é que as questões a que aludes têm sido até das mais exaustivamente tratadas no espaço da bloga. Isto mesmo lembrava o Pacheco Pereira quando no comparativo entre a atenção dada a Chavez e Putin falava de uma "cultura blogue". Se me permites uma coruptela de Malinowski/Lévi-Straus, diria que, de facto, "Chavez é bom para postar".

Chavez é muito "postogénico" na medida em que a denúncia das suas ambições autoritárias recolhe de um património cultural amplamente crítico das experiências socialistas do século XX (sinceramente tenho encontrado pouco quem lhe delegue a nostalgia marxista). Por isso ele é amaldiçoado à exaustão num flagrante contraste com a atenção dada a outros líderes anti-democráticos que exercem o poder olimpicamente alheados do bem-estar das populações e de qualquer desígnio de distribuição da riqueza (o que para certa direita até lhe agrava as culpas, não para mim). Isto dito, que fique claro que o meu porto de chegada não é o habitual movimento cínico (que, aliás, horripilo): "preocupas-te com isto, mas do Tajiquistão não falas tu". A atenção vigilante com que se segue a tentação totalitária de Chavez tranquiliza-me, a denúncia dos feitos domésticos de actores políticos aparece-me como uma vital desconstrução da solenidade cimeiresca.

Mas vamos ao que, adivinho, te terá inspirado o post. É verdade, Luís, que não me revejo na "esquerda civilizacional", essa esquerda tão completamente deleitada com as conquistas do Ocidente. É verdade que percebo nessa esquerda uma insuportável arrogância e uma amnésia atroz em relação ao que poderíamos sintetizar como o lado sombrio do Renascimento. Mas porque entendo que a história em nada iliba as responsabilidades dos líderes do mundo pós-colonial -- embora ajude a reconstituir a linhagem do continuado desespero dos povos -- do que aí fui lendo à esquerda só mudaria o tom de uma ou outra frase para poder assinar por baixo. Não é por aí.

Mourinho: dois perdidos

Sobre a escolha do próximo seleccionador Inglês, o Rogério Casanova recomenda um texto que nos coloca na linha de um debate fundamental para o futuro da Europa (associo-me à moratória governamental sobre o tratado de Lisboa: eles vencidos pelo medo da democracia, eu vencido pelo tédio que o tema me inspira):
Deverão os ingleses projectar um retorno nativista às origens, 'futebol in its purest, english, form', investindo na simplicidade de um 'joyous game of kick and rush', ou deverão render-se à corruptela que se globalizou"[an] ethereal, acrobatic and even artistic version of a game that was never designed to be beautiful"?

Após o jogo contra a Croácia, a literatura futebolística inglesa entrou num momento de reflexão só comparável ao tumulto que conduziu a Igreja Católica ao Tratado Trento. Li tudo.

Vários colunistas apontavam o chicote auto-flagelador à formação ministrada nos clubes. Dizia um deles que os escalões de formação deveriam procurar inspirar-se no modelo brasileiro: o mínimo de táctica para não agrilhoar o crescimento espiritual da técnica, maior estímulo do individualismo fantasista a despeito das vitórias colectivas, maior ênfase no futsal como viveiro de pés açucarados. Soa tudo lindamente.

Mas estou em crer que o tal colunista não percebeu que as razões do "sucesso brasileiro" derivam de condições estruturais algo difíceis de copiar. Permitam-me uma pequena enfiada de clichés sobre o Brasil para sinalizar distâncias: um habitus corporal que migra entre o futebol e outras práticas culturais como a dança; a potenciação técnica que resulta de um futebol praticado essencialmente como desporto de Verão (quando vemos Daniel Carvalho e Wagner Love a fazerem rodriguinhos na neve sentimos intensamente o desterro daqueles exilados) ; o lugar proeminente que o futebol ocupa numa cultura de lazer não organizada que só por acaso é desporto e que só marginalmente é competitiva; a baixa presença de playstations entre a miudagem; a menor interferência de distracções infantis alternativas (escola incluída).

Ou seja, ao não se querer ficar pela apologia de uma campanha de prevenção com spots do Ronaldinho, o tal colunista propunha a mais dramática revolução cultural desde que o Mao Tse-Tung acordou com umas ideias.

A questão é que este dilema de futuro revolve à volta de um equívoco, equívoco este que está bem expresso no título do texto que o Rogério cita. O equívoco chama-se José Mourinho, ou melhor, o equívoco é pensar que a escolha de Mourinho constitui uma clara via de fuga em relação à tradição do futebol inglês. Nada mais errado.

Primeiro, porque Mourinho é capaz de ser um camaleão táctico automatizando vários sistemas na mesma época (o Porto jogava em 4-3-3 ao fim-de-semana e 4-4-2 nos dias úteis). Segundo, e talvez mais importante, porque, como aqui disse, a evolução de Mourinho no Chelsea conduziu-o a um processo de sobreadaptação ao futebol inglês, um autêntico beco evolutivo para a criatura sobre-especializada. Resultado: um futebol penoso feito de bola para a frente (para a cabeça do Drogba) e de automatismos extenuantes, uma triste caricatura da tal pureza do futebol inglês.

Por isso, caso contratasse Mourinho, a Football Association estaria a delegar a resolução da crise existencial do futebol inglês num homem que vive a sua própria crise num jaccuzi lá para os lados de Setúbal: depois de dar guarida a fantasistas no Porto, Londres transformou-o num rolo compressor de talento capaz de ser mais anglicano que a Rainha. Os Ingleses não querem o Mourinho para que ele lhes defina o futebol do futuro desta ou daquela forma. São ajuizados. Querem ganhar a todo o custo e querem voltar a ter aquilo que só ele concede na abordagem ao jogo: "the joys of extreme emotion".

Ao estoiro não devia valer


Enquanto metáfora do primeiro amor, com ou sem sexo, é o leitor que lá deixa os três.

Capas imponentes


Replay

Creio que chovo um pouco no molhado quando vos digo que me parece um pouco absurda a imposição de quotas de música portuguesa nas estações de rádio. Mas o que realmente me preocupa é a ausência e "quotas máximas" para alguns "autores" portugueses. Como muitas operadoras procuram juntar uma lógica de actualidade discográfica ao mediatismo popular dos intérpretes, são raros os 10 minutos em que João Pedro Pais (e quejandos) não passam pelo menos umas 3 vezes. Falo com autoridade: só ouço música na rádio quando por acaso apanho uma boleia ou naqueles poucos segundos que demoro a calar o rádio-despertador. O suficiente para perceber que poderemos estar perante uma grave questão de saúde pública.

Homens bonitos



Adrian Grenier. Protagonista de série "Entourage", que, segundo sei, passa agora na Sic como "A Vedeta". Este rapaz, sem razões para maldizer a sorte, tem aquela espécie de beleza cuja centelha, além de ir bem com o mais sincero low profile, parasita em muito o perfil físico de compleição frágil (o que cai ali bem não é a a magreza em si, mas a vulnerabilidade). Amanda Peet: versão masculina. Tenho dito.

Avulsos

---"o Tiago [Mendes] parece ter atingido parte dos seus propósitos: com algumas excepções, a tal Direita moderna definiu-se por omissão" Metablogue
Concordo inteiramente. Acrescentaria apenas a proactividade que redundou com a expulsão do Tiago do blog da Atlântico. Também ela foi extremamente definidora (ou seria definitiva?).

Avulsos

"---Eu próprio não tinha dúvidas sobre a sua existência [das armas de destruição massiva no Iraque] e certamente por não querer dar o braço a torcer, que não é a minha escola, ainda não estou inteiramente convencido sobre o que é que lhes aconteceu" (Pacheco Pereira).

"---Tudo na longa manutenção de prisão preventiva de Mário Machado é estranho e aponta para razões puramente políticas, o que é inadmissível numa democracia” (Pacheco Pereira).

---"Quando os instrumentos de medida que permitem comparar blogues, como o Page Rank, o Google Analytics ou o Technorati, teimam em colocar o Abrupto à frente, atacam os mensageiros, que "como todos sabem, não prestam". A prática deliberada de muitos blogues de fazerem ligações a tudo menos ao Abrupto assim como de citar sem "ligar", tem as suas consequências: o Abrupto é muito mais citado do que "ligado", como se verifica quando se faz uma procura pelo nome do blogue ou do seu autor." (Pacheco Pereira)
Este pequeno apanhado, rico em links para pasto do technorati do abrupto, revela que poderemos estar perante um outro Pacheco Pereira: o Pacheco Pereira tardio. O Pacheco Pereira tardio junta as qualidades que lhe eram conhecidas a um certo arrojo que lhe é novo. Este despudor que paulatinamente se vai tornando evidente transcende em muito a independência de opinião que se lhe arrolava como imagem de marca. A verdade é que assistimos, desde há algum tempo, ao efeito da completa perda de medo do ridículo.
E, já se sabe, quando alguém perde tão completamente o medo do ridículo podem acontecer muitas coisas.

Por uma vez

Ficou-me o gesto do primeiro-ministro José Sócrates quando, há cerca de semana e meia, foi a Gaia, pessoalmente, apresentar condolências à família do soldado falecido no Afeganistão. Ao ver a reportagem na televisão achei-me comovido pela gratidão da família enlutada, claramente surpresa pela demonstração de humanidade do líder do governo. No que representou para os familiares, a dimensão humana da visita transcende em tanto o seu significado político, que, por uma vez, me veria a defender José Sócrates contra quem o acusasse de propaganda.

Suprema ironia

Suprema ironia que alguns dos auto-proclamados liberais da nossa praça (reconheço essa estatura a poucos, há ali muitos ultraconservadores undercover) -- sempre tão dispostos a ver o politicamente correcto como a inquisição do século XXI (a metáfora não é deles, como se deduz) -- capitulem perante a franqueza do Tiago Mendes: há quem tenha amuado e ameace abandonar o blogue. O Tiago Mendes é tipo de rara coragem, como é bom de ver. Agora é esperar para ver quais dos Atlânticos estão à altura das prerrogativas democráticas e pluralistas a que se ancorou o texto do Tiago. Não será uma ordália liberal, mas quase.

0-1

Habitualmente, não costumo postar quando o Porto ganha nos confrontos internos. Longe de mim a arrogância de presumir que quando assim acontece se cumpre a ordem natural das coisas e que, portanto, nada fica por dizer. Nada disso.

Por um lado, contém-me um certo sentimento de redundância em relação à posição da balança competitiva; há muito mais a dizer nas derrotas, nas vitórias há euforia sem agonismo ou conflito, e basicamente são o agonismo e o conflito que se me impõem como tema de militância no que à bola diz respeito. Por outro lado, tento uma certa parcimónia: uma posição de respeito pelos leitores (e contendentes) de outros clubes nos momentos em que é demasiado fácil ficar por cima. Posto isto, compreendam a relativa excepção. Depois da pesada derrota de quarta, impõe-se, não pouco, uma nota de júbilo e ressurreição:

Como eu gosto de jogadores diletantes.

Etiquetas: