Mulheres bonitas e outros textos

Percebo muito bem aquilo a que o Francisco José Viegas se refere quando aponta as perversidades do patrulhamento ideológico. É uma sensibilidade que acompanho e compreendo nos limites excessivos que às vezes regulam a livre expressão (no início, quando eu postava mulheres bonitas, havia quem me chamasse sexista -- já passou --: acho mal e injusto). Mas acompanho também, e muito mais de perto, as sensibilidades das minorias. Acompanho e de algum modo incorporo: vale um exemplo: creio que ainda não me libertei completamente da conotação agressiva e insultuosa da palavra "preto", talvez por a ter experimentado amiúde na infância como o arremesso das outras crianças. "Branco", como se intui, nunca foi um insulto na economia de poder simbólico em que nos situamos).

Há uma questão de feridas e do uso sensível dos discursos da hegemonia que não passa assim (refira-se que em muitos dos casos o humor usa as palavras da hegemonia ridicularizando-as numa paródia do opressor; os textos sobre paneleiros do maradona, por exemplo, são isso mesmo). O problema é quando acreditamos na ilusão da simetria ou nos fazemos crer que não há feridas abertas. Não obstante a alta conta em que guardo o Francisco, um liberal da melhor casta, concordo com quase tudo deste excelente texto do Daniel Oliveira.

Gervais, o génio


Lévi-Strauss 1908-2007 (and counting)


Lévi-Strauss faz hoje 99 anos.
"Durante semanas inteiras, nesse planalto do Mato Grosso Ocidental, tinha estado obcecado, não mais por aquilo que me rodeava e que eu não voltaria a ver, mas por uma melodia muito batida que a minha recordação ainda empobrecia mais: a do Estudo número três, Opus 10 de Chopin, na qual me parecia, por uma ironia a cujo amargor eu também era sensível, que tudo que deixara para trás de mim nela se resumia" (Lévi-Strauss, Tristes Tropiques).

Chopin, Estudo Op. 10 Nº 3

À medida que a morte se insinua, o que já deixámos para trás recobre-se de tonalidades dramaticamente próximas daquilo que ainda vemos. Adensa-se a ideia de que no fim, isto e aqueloutro, tudo ficará para trás; também, que para tudo haverá, não sabemos bem quando, um último aceno de despedida.
Antes que seja tarde e um de nós se vá (nunca fiando), aqui fica o meu aceno. Aqui fica a tua música.

Liverpool:4

Quando olhamos para os últimos plantéis do Porto, reparamos que há uma política bem definida para os centrais. Não se contratam jogadores feitos -- como a necessária maturidade para o lugar normalmente exigiria --, mas investe-se, outrossim, em jovens que valem pelas suas características atléticas : velocidade, altura, impulsão.

A parte chata é que as primeiras épocas são algo dolorosas para o normal adepto portista, como sabemos, pouco dado a maldizer a mãe de jogadores da casa. Não sei se se lembram da dimensão do descalabro nos anos de estreia dos agora consagrados Pepe e Bruno Alves. Pois, Stepanov é mais ou menos mesmo filme (pelo menos o início desastroso está todo lá). Se no primeiro ano Pepe era um virtuoso em fífias e Bruno Alves um habilidoso tanto em agressões como em comprometer por omissão, já Stepanov distingue-se em arte variada, um jogador completo: penaties despropositados nos últimos minutos do jogo, falhas de marcação calamitosas, agressividade bipolar na disputa de bola, etc. Stepanov perde tesão ao pôr o preservativo em relações futebolísticas de óbvio risco e assim vai errando entre a impotência e a virilidade desavisada.

Sejamos pragmáticos. Stepanov teve um treino de luxo com ampla margem para enterrar. Sem drama: o Porto perdeu e está em primeiro. Na verdade, os exemplos de Bruno Alves e Pepe fazem-me ser moderado nos insultos, sinal que estou disposto a aprender alguma coisa o dirigismo indígena (6 milhões são 6 milhões).

Pedia só que nos fossem expondo ao Stepanov com alguma parcimónia: de tempos a tempos coloquem-no no banco, na bancada ou então adaptem-no a alguma posição em que não esteja tão à vontade para se "mostrar". O regularíssimo Pedro Emanuel é lento e já mal consegue saltar. É, portanto, o jogador ideal para enfrentar o Benfica no sábado.

Adeus Scolari


O outro Mal de Montano

Procrastinação (Via Ariel)


Ferro 3/ 3-Iron


Ki-duk Kim (2004)

Serviço de Estrangeiros e Fronteiras

"O futebol é a minha vida. Estou na Europa desde 2000 para trabalhar, não para passear, e não sei fazer mais nada. Ainda por cima, dizem que não posso circular no espaço Schengen por cinco anos, ora isso significará o fim da minha carreira. Não me importo de ir parar à V Divisão, quero é ficar cá." (ler notícia)

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Adeus Figo

Para as gerações seguintes: a minha tomada de posição em relação à petição que anda por aí a pedir o regresso de figo à selecção:
Caríssimo Figo, foste muito bom e ainda és. Mas peço-te que não voltes à Selecção.

A mitologia do regresso faz muito mal a Portugal e é importante que algum herói desapareça sem mais, sem as choraminguices sebastianistas do costume. Acho que podias ser tu a prestar esse serviço, mantendo-te firme ma resoluta recusa em ceder ao passadismo angustiante destas gentes. Já regressaste uma vez sem fazer a qualificação e também jé puseste no lugar os sportinguistas que te imaginavam desejoso de um retorno, retorno que, justiça seja feita, tu nunca cortejaste.

Vamos deixar a próxima geração à sua sorte, desgraçando-se, se tiver que ser, às suas próprias expensas. Além do mais, passar os próximos 10 anos das nossas vidas com o futebol irresponsavelmente belo do Ronaldo e o do Quaresma não pode ser assim tão mau.

Tenhamos, finalmente, um Adeus não português: sem pensar muito nisso.

Abraço, Bruno


Pelas razões conhecidas

Agora sim, acho que era o momento ideal para demitir Scolari.


P.S. A Inglaterra ficou fora do Europeu. Fico triste pelo Beckham que ainda saiu do banco para fazer de salvador. Fico triste também porque desde a selecção de Humberto Coelho que as fases finais nos serviam o clássico Portugal-Inglaterra.
P.S.2. Parece que o Abramovich andou a prometer carros topo de gama aos jogadores da Croácia para que a Rússia se classificasse. Prevejo que os dias dele pelas bandas de Chelsea possam acabar em desastre.
P.S.3. A importância do Nuno Gomes joga-se a outro nível. É através dele que milhares de jogadores das distritais conseguem acreditar que a qualquer momento podem ser chamados para o 11 da Selecção nacional. Não deixa de ser impressionante a longevidade da carreira de Nuno Gomes nos grandes palcos, a titular ou com vastos minutos de jogo: não há treinador que não fique comovido pela sua anódina capacidade para fazer tabelas à entrada da área. Um estudo de caso.
P.S.4. Os comentadores da televisão falavam da noite desinspirada de Quaresma. Mas que jogo é que aqueles bananas estavam a ver? Que drogas os movem na arte do comentarismo? O jornalismo desportivo português tem uma vaga ideologia: a estupidez de frustrados que não sabem jogar à bola e não suportam a existência de jogadores geniais que arriscam partir tudo em todas as jogadas, a menos, claro, que sejam consagrados nalgum campeonato estrangeiro (O Ronaldo perdeu milhares bolas na primeira parte sempre a tentar arranques, mas para esse haja crédito infindo). Meus senhores jornalistas, metam esta merda na cabeça: o Quaresma é responsável por aproximadamente 70% do prazer emanado de qualquer jogo em que entre. Ontem esteve pelos 90%. As assistências e os golos são importantes e basta consultar as estatísticas para que se perceba que ele é muito mais consequente do que se propala (ou até os quilómetros corridos em campo para não virem com a história do négligée). Mas, por Alá!, não deixem que as vossas vidas cinzentas sejam a medida do jornalismo que produzem: haja um pouco de hedonismo e respeito por aquela colossal máquina de prazer.

Surveiller et Punir


Mais uma fantástica confissão alojada no Postsecret. Via little black spot.

Curioso. Se pensarmos o descair do olhar como um momento de exercício do poder feminino (da mulher observada), damos por nós a expiar alguma da culpa que tantas vezes se adensa deste lado do decote.

Faz sentido: o poder não cabe ao "olhar invasor", mas sim ao olhar que nos percebe ausentes, fatalmente caídos na antiquíssima armadilha do decote. Ainda assim, nada de facilitismos, digo eu; na presença de um decote mantêm-se válidos os sacros mandamentos : 1- Jamais ceder completamente 2- Procurar refúgio nos olhos da interlocutora.
Nenhum poder nos respeita se não lhe oferecermos um tanto de resistência.

Biografia: campo de batalha

Na interessante entrevista que concedeu ao Expresso, Vasco Pulido Valente, às respostas tantas, confessa alguma mágoa pelo modo como Maria Filomena Mónica o retratou em Bilhete de Identidade, concretamente por não ter havido da parte desta o devido cuidado de reserva em relação a factos do foro privado (no que, tendo lido a referida autobiografia, sou instado a concordar).

Umas linhas abaixo, VPV fala do seu próximo projecto: nada mais nada menos do que a biografia de Eça de Queiroz. Conhecidos os méritos de VPV nesse registo, fico algo curioso em saber que efeito essa obra terá sobre uma outra biografia de Eça, publicada em 2001:

Durão

o excelentíssimo presidente da comissão europeia, após ter reconhecido o logro das armas de destruição massiva (logro em que caiu, primeiro, e que ajudou a vender, depois), afirma sorridente que Portugal não tem que estar arrependido por ter apoiado a invasão do Iraque.

Que Durão Barroso anuncie não estar arrependido é algo que não nos pode surpreender. Não tanto por ser um optimista patético no seu paroquialismo interesseiro: isto diz bem mais do seu carácter e dos escrúpulos com que percebe a política (a mesma falta de escrúpulos que o levou a deixar Santana Lopes no governo para aceitar um cargo que Guterres havia tido a decência de recusar em circunstâncias análogas). Mas ao vir agora confortar-nos, paternalista, alegando que devemos estar contentes, seja porque se deixou enganar, qual otário, seja porque alistou Portugal entre os Estados que apoiaram o desastre, Durão Barroso está a pisar perigosamente a linha que separa o realismo político do insulto à comunidade que um dia o elegeu.

Desate-me, seu javardo

avatares de um desejo
Desate-me, seu javardo

Já era altura deste facto ser devidamente salientado: o título deste blog inspira um dos mais belos anagramas na lista de links do Rogério Casanova. Este orgulho fátuo, devido ao sortilégio e às loucas fixações do Rogério, ninguém mo tira.

Avulsos

---"Agora mesmo, o corrector ortográfico emendou «gestos de ternura» para «gestor de ternura». Gostava de me rir disto com gosto, garantindo que «gestor de ternura» não existe. Mas eu sei que existe. E é das coisas mais tristes que conheço." Pedro Mexia

Frescas

Binya apanhou 6 jogos de castigo num daqueles poucos casos em que eu estava disposto a ponderar as minhas reservas em relação à prisão perpétua.


Ana Moura

Talvez porque me faltem cá dentro as cordas que o fado deveria fazer vibrar (por exemplo: não sei se o épico com que Amália me rouba o arrepio é ainda fado ou apenas "a voz da Amália"; o que me muito me instiga na Cristina Branco é exactamente o que nela escapa ao fado, etc.), talvez por ser falho nessa sensibilidade, dizia, a voz da Ana Moura pouco me diz.

E seria isto que e teria a dizer se me detivesse no centrismo musical de que frequentemente enfermamos na apreciação de timbres e modulações vocais. Mas, lá está, porque eu sou muito à frente, sempre disposto a atravessar as fronteiras do episteme vigente, sempre rendido ao encanto do trivial e assim, continuo, corajoso, intrépido, a acrescentar linhas a este post. Explico ao que venho. O que realmente me causa não pouco deslumbre na voz da Ana Moura -- ao nível da mais sincera comoção -- é o que acontece quando ela simplesmente fala, quando ela põe aquele vozeirão de ao serviço de uma singela conversa. Afiram com os vossos ouvidos. Cara Ana, não leve a mal, mas cantar para quê?

P.s. É digno de nota que eu tenha conseguido escrever este post sem recorrer ao trocadilho "canta-me a falar". Os comprimidos começam a produzir algum efeito.

A segunda vida

Quando a proliferação de cabelos curtos (de luto, ou glamour) enfim alcançar o advento das tecnologias electrónicas, estaremos em plenas condições de reconhecer que a mais importante missão dos secadores de cabelo há muito passou para o campo da reanimação de telemóveis.

Post-mortem

Um dos inevitáveis problemas da rotatividade democrática é o facto dos poderes eleitos se porem a gerir o governo do Estado em função dos ciclos eleitorais. Ora, a necessidade de ganhar eleições é adversa de transformações estruturais, pelo que se revelam praticamente inviáveis decisões que sendo amigas do longo prazo ameacem vir a ter repercussão negativa nas urnas.

Mas, curiosamente, esse até nem é um problema do governo de Sócrates, é que o príncipe do governo, além de uma maioria absoluta, dispõe de um franco clima de consenso nacional sobre a necessidade de reformas (até à linguagem sacrificial do Velho Testamento ele se permite). A tentação dele é outra.

O tempo curto de que se fazem as lógicas de exercício de poder convida, muitas vezes, a outro tipo de leviandade, esta já não por omissão. Refiro-me à facilidade com que se tomam medidas de consequências irreversíveis para maquilhar e facilitar as situações políticas do momento (passos de dança indecentes como a venda da rede fixa à PT por meia tuta são disso cintilantes -- agradecei a Ferreira Leite).

Quando Sócrates adjudica às Estradas de Portugal a concessão da rede rodoviária nacional por 92 anos, não assistimos, infelizmente, ao privilégio do longo tempo sobre o imediatismo eleitoralista. Como é bom de ver, situamo-nos no campo das decisões levianas. No caso, não sendo irreversível, trata-se de uma decisão que sobreviverá quase um século. Quando um governo que foi eleito por 4 anos toma uma decisão para 92 anos deve estar muito seguro de que defende intransigentemente os direitos do Estado que lhe foi temporária e parcialmente confiado. Quando não, ficamos com a vaga sensação que alguém se arrogou a brincar aos deuses contando, ao contrário destes, com a estudada bênção da mortalidade -- responsabilidade póstuma é o conceito. Isto já não é o uso leviano da rotatividade democrática, é o abuso aritmético da rotatividade das gerações: a tranquila segurança de que qualquer prestar de contas se fará post-mortem.

Avulsos

---"Depois de me cumprimentar pergunta, com um sumiço de voz, como quero o cabelo. “Curto, muito curto”. Ele olha-me. Sabe que quando uma mulher arrisca tanto é porque alguma coisa se passa na sua vida. Das duas uma. Ou tem vontade de fechar um capítulo da sua vida e começar de novo, de se tornar numa outra pessoa, ou, então, precisa de se flagelar, de se penitenciar, de se magoar. Cortar o cabelo equivale a uma expiação." Ana de Amsterdam

Les Amants réguliers (act.)


Três horas com poucos momentos de enredo propriamente dito perigavam criar uma obra que fosse ora exigente à entrega do espectador, ora cortejada pelo enfado. E é mesmo esse o caso de Les Amants Réguliers: um filme cujo exercício de retrato às vezes exaspera (retrato de um tempo, retrato de um olhar orgulhosamente cinemático).

O realizador Philippe Garrel revisita as suas memórias do Maio de 68 entregando ao filho a missão de o corporizar (sim, o novo ícone do mulherio). Estamos na ressaca do momento pós-revolucionário e uma comunidade de jovens assume o ideário pessoal (e missionário) de continuar o espírito de subversão à sociedade burguesa.

Naquilo que é um déjà vu sempre irresistível, e, acrescento, inteiramente apetecível, as revoluções da intimidade são chamadas à liça, não só pelo meneio biográfico das personagens mas também, e até sobretudo, pela empatia sofrida do espectador. Isto sucede em termos deveras interessantes, ao contrário de outras recapitulações afins (The Dreamers, por exemplo), "Les Amants" despreza a experiência dos limites da revolução sexual centrando-se num tema mais clássico (por assim dizer): a sobrevivência do amor face aos ataques que cada tempo e lugar lhe investe. Amor e contingência são, a meu ver, as duas âncoras da narrativa. Se hoje uma relação pode ter que enfrentar coisas como a simulação do crédito para a casa ou a alergia ao látex, ali é a ambição artística e a ética da liberdade que ameaçam o porvir de um je t'aime abundantemente correspondido.

Reparem, quando Lilie pede a François para ter sexo com um amigo deles porque o acha atraente, eu fico assim meio para o lancinado ("diz que não, não há poder de encaixe para isso, pá!); triste facto: só prova que ainda não houve revolução que me chegasse; claro, podem-me chamar conservador ou romântico bacoco (no que respeita a amor monogâmico vai dar um pouco ou mesmo).

Mas o que resolutamente salvou esta "quase estopada" de três horas é o travo que fica. Um intenso travo a cinema e ao Maio 68. Fica também a coreografia incompleta de uma relação de absoluta entrega que nos é trazida sem densidade da partilha. O olhar perdido de Louis Garrel, já não o poeta mas o amante temeroso, é provavelmente o único testemunho do tanto que está em causa quando por ali se fala de amor. Não sei como muito bem como explicar isto. A verdade é que não gostei assim tanto do filme, mas fiquei completamente assoberbado pelo travo.

Own goal

O medo de sermos artífices da nossa própria desgraça redunda não raro na omissão cobarde. Às vezes penso que o Polga esteve muito bem em tentar cortar aquela bola.

Dar um ar de trabalhador incansável

Colocar na bibliografia, nos conteúdos referentes a páginas web, "acedido em 25 de Dezembro".

10 anos


Em não podendo ir à festa da Ilga, festa que, não duvido, será devidamente coalhada pelos sons do pastorinho mais versátil da península, associo-me via post às comemorações.

Paulo Assunção e Lacan

O cúmulo do low profile.

A tecnologia que a UEFA põe agora ao serviço dos jogos da Liga dos Campeões permite saber quantos quilómetros cada jogador corre em campo. Nos jogos com o Marselha, Paulo Assunção foi o jogador que mais se esfoliou em suor fazendo um total de 24 km: 12 km em cada jogo. Os números não são em si mirabolantes, lembro-me que o Deco teve um jogo épico em que correu no total 14 km.

O que a mim me impressiona é o tanto que um jogador pode pôr de si em campo na plena consciência de que raramente aparece no jogo que os adeptos vêem. A questão, minhas senhoras e meus senhores, a questão é que em dois jogos o Paulo Assunção correu 24 km para -- basicamente -- cortar linhas de passe. Disse cortar linhas de passe, não disse cortar passes (o que também faz de quando em quando).

Ou seja, este homem esfalfa-se a criar condições de impossibilidade ao jeito de um real lacaniano que se oculta da formação do sujeito que define. Ele é o negativo de um jogo que não chegou a acontecer porque sentenciado na "infância". Muitas histórias se perdem sem que dêmos pelo alvor da sua não-existência. No caso: felizmente.

Platão ao balcão da frutaria

"Anda para aqui um gajo às metades"
Pelos seus quarentas, em frutaria próxima, o cliente lamentando pela vida à assistente de loja.

"Música para o meu funeral"

Apesar de ser pouco usual à indústria funerária indígena a música no funeral-- quero supor -- é uma ideia bem incrustada do nosso imaginário, talvez porque esse mesmo imaginário esteja sintonizado com os enterros dos célebres, talvez porque esteja acostumado às coreografias cinemáticas vindas de outras paragens. E é claro que a força dessa representação basta para remeter à pequenez minudências logísticas, sobretudo quando estamos perante um ritual maior, um ritual que na escatologia de muitos evoca o transcendente ― por motivos propriamente teológicos ou simplesmente pelo que de transcendente existe no confronto com o fim, mesmo na mais ateia das mentes. Divago.

Não surpreende pois que já tenha recebido mais do que uma encomenda nesse sentido: "a música para o dia do meu funeral". Não há nada de mórbido nisto, até porque os momentos que enquadram esses pedidos têm muito mais a ver com certa devoção musical do que propriamente com o agonizante espectro do fim. No entanto, algo airosamente, sempre fujo à promessa.

O que me detém não é tanto o receio de que as funerárias estejam desprovidas de aparelhagem de som e, por conseguinte, a imagem tétrica da alternativa que então me restaria: seguir na marcha com um daqueles grandes rádios que se usavam em cima do ombro nos anos 80 (a emitir sabe-se lá que sons, imaginem que me pediam Roberto Carlos? - não aconteceu). O que me detém, primeiro, é cristalizar em promessa a eventualidade de ver partir algum cromo da minha estimada colecção de amados. Em segundo, a possibilidade sempre verosímil de eu partir primeiro e falhar os enterros vindouros falta de comparência mais que justificada. Bem, mas nessa altura ficam à vontade de acompanhar o meu funeral com um medley das músicas que vos fiquei a dever.

Deprimido e abstémio

'De repente sou confrontado com situações de que não lembro de nada... eu andei debaixo de álcool, álcool misturado com drogas, não é o haxixe e essas coisas que vocês tomam agora, era o Lorenine, era o Valium, era essas merdas. Eu tinha dias em que não me lembrava, no dia seguinte, absolutamente de nada... podem contar-me tudo o que quiserem que eu não vou negar, mas vou negar para quê? Já não consegues desfazer em muita gente a opinião que fazem de ti, é muito difícil de desfazer... por exemplo, o B.B., foi ele que apresentou esse livro de Coimbra, o lançamento foi ali na livraria Ler Devagar... eu não fui lá, ficou muito ofendido... eu se fosse lá era para lhe dar com uma bengalada... o gajo começa: “Luiz Pacheco, bebedeiras, prisões, sexo bilateral... até parece que ninguém viu o B.B. bêbedo... eu por acaso vi... às vezes aparecem-me aqui gajos que dizem que me conhecem... sei lá quem são os gajos, não faço ideia nenhuma... um dia destes apareceu aqui um gajo: “eu sou o António Carranca”, como quem diz “eu sou o Napoleão”... eu não fixo caras... quando você chegou aqui, se dissesse “eu sou o Kadafi”, eu acreditava... mesmo com os óculos eu levo uns segundos... se fores às Caldas da Rainha há montes de gajos que me conhecem ou se lembram de mim e eu não faço ideia quem são...' [Luiz Pacheco, entrevista ao João Pedro George]

Para o Tiago Galvão, um deprimido selecto e extremamente monolateral

Pureza e redenção


Tarik Sektioui

O Ramadão rigoroso (que provavelmente lhe valeu a dispensa na época passada) molestou-lhe o corpo, mas provavelmente deu-lhe também aquele alento de boa ventura de que o pecador purificado se enche quando sente as forças divinas a seu favor. Se nelas crê, claro.

Em cartaz

É bem verdade que num outro festival o cartaz teria passado provavelmente sem menção. Também é límpido que o cartaz pode ser criticado (não venha a liberdade de expressão fazer-se de coitadinha que já não há paciência).

Por exemplo, eu critico-o. Critico-o pela imponderação. Ficamos a saber que a imagem remete para um momento fílmico (Eyes Wide Shut), por acaso carregado de significado, mas o facto é que a riqueza dessa citação passaria despercebida à esmagadora maioria das pessoas que se deparasse com o cartaz.

O que ressalta na linguagem visual é a imagem de uma criança com um termómetro na boca a anunciar o festival gay e lésbico de Barcelona. Não é preciso muita semiótica para perceber que o contexto potencia as leituras sexuais da fotografia. E nesse sentido a questão nem é (ou não devia ser) o facto de se tratar de um festival homo, mas sim de um festival que, tematizando a orientação sexual, tematiza a sexualidade.

A mim, com assumido sentido táctico nestas coisas da mensagem política, este cartaz parece-me imprudente, mesmo se a polémica que permitisse explicitar o seu significado já estivesse prevista. Mas devo reconhecer o meu viés: talvez diferentemente de Espanha, vivo num país em que é particularmente forte a associação (disparatada) que perpassa no senso comum entre homossexualidade e pedofilia. Temo que a imagem reforce essa associação. Não quer dizer que defenda que as representações culturais se devam manietar ou constranger por preconceitos pueris. Defendo a existência do cartaz, mas, vis-à-vis os preconceitos que o lêem, critico-o por aparatosa falta de tacto.

Amantes uterinas

Houve um tempo, diz-se, em que as mulheres engravidavam para agarrar homem. Seria um golpe clássico cujo modus operandi no tempo prévio aos contraceptivos nunca percebi muito bem. Talvez os abraçassem para impedir as manhas do coito interrompido disfarçando enlevo romântico no prazer. Adiante.

Vou-me apercebendo, por estes dias, mais marcadamente em moçoilas passadas dos 27, de algo diametralmente oposto ao clássico "engravidar para casar". Desencantadas com o namorado ou pouco crentes na própria verosimilhança de relações duradouras, muitas das minhas contemporâneas (que bela expressão) forçam-se, ainda assim, ao ideário do casal, apenas para armarem a benquista logística da maternidade. O nível de consciência deste fenómeno na longa duração relacional é variável, mas creiam-me: cada vez mais mulheres suportam os seus homens para terem filhos.

Página 161, Quinta frase

Entro nesta corrente pela mão do José Mário Silva (de novo a burilar em pleno na bloga), pela declaração de intenções do Julinho (em boa hora regressado de conspirações informáticas sem escrúpulos para nos dar Borges e Foucault), que logo acolhi sem mais, pelo desafio do João Sousa André (a citação dele, em bom neerlandês, é a mais rocambolesca até agora), e pela intimação (sic) da Isa (que vem de 36 anos enxutos orgulhosamente festejados no blog). Grato vos fico. Segue então a frase retirada do livro mais próximo no momento em que dei com a primeira ligação à corrente: Adivinhas de Pedro e Inês, da Agustina Bessa Luís. Para chegar à 161 tive que saltar muitas páginas ao ponto actual da minha leitura, facto que me fez temer uma revelação a destempo. Bem, de qualquer modo, adivinho eu que aquilo não corre muito bem no fim.
Eis então a citação. Por acaso, nada mal achada:

"O jogral, que escarnece de tudo, e o peregrino provençal, responsável pela doutrina herética do amor que nasce da mística cristã encontram-se num mesmo terreno de batalha — a angústia."

Antisemitismo

À complacência de alguma blogosfera com as declarações racistas de James Watson, segue-se, algumas semanas depois, uma determinada e justa condenação do antisemitismo de Pedro Arroja. Gostaria de ler nisto uma maturação intersubjectivamente criada pelo espaço do debate, mas não sou tão habermasiano, ou sequer ingénuo -- para usar um sinónimo. Há sensibilidades prévias em jogo como é bom de ler. As bravas cruzadas contra o politicamente correcto e o gosto pela provocação leviana são um fartote quando não nos tocam as feridas ou, melhor dizendo, quando não tocam as experiências históricas que viemos a acolher como as nossas feridas.

Emmanuel Lévinas, não por acaso um filósofo judeu, lembrava por isso a importância de atentarmos no outro enquanto imperativo ético: esse outro heterogéneo tem feridas e sensibilidade; mais: como o provam os revivalismos racistas, as estruturas de agressão, ao tempo guarnecidas por um mandato político-cultural, nunca chegam a desaparecer.

A questão é saber distinguir o registo provocatório (e o saudável humor rasgadinho) daquilo que é a agressão a uma identidade ferida ou a endoutrinação racista-- tanto as declarações de Watson como as de Arroja agridem e endoutrinam (o primeiro usa a autoridade de um nobelizado, o segundo usa a retórica). À liberdade de expressão deve-se apor condenação social; não silenciamentos por decreto que servem a estratégia de vitimização do agressor . Condenação social: é o que a blogosfera tem feito em relação a Pedro Arroja, é o que a comunidade científica fez a James Watson.

Fair Play

Alguém atira a bola para fora para que eu possa ser assistido?

É esta a minha versão, de longe mais egocêntrica, do slogan soixante-huitard "parem o mundo que eu quero descer". Para se ser assistido em campo é necessário que o jogo pare, é necessário que o mundo espere. O jogador que é assistido em campo tem a dignidade de um empata, há ali uma espécie de agonia paralisante que desafia o curso natural das coisas.

Para o "Pinilla".