3*8=24

Enquanto João Botelho e Leonor Pinhão fazem as contas ao tempo que investiram num filme donde foram retirados os seus requintados nomes (que casal atroz, meu deus!), Pinto da Costa mata o tempo a fazer a tabuada do 3 e a recasar-se em estilo. Uma maçada.
Ora, do mesmo modo que os cubanos de Miami me querem obrigar a simpatizar com a ditadura castrista, assim a existência de João Botelho contribui para mitigar os danos morais daquela relação falhada com Carolina. Tal é a vontade de destruir Pinto da Costa que toda a gente parece achar a coisa mais normal do mundo um filme baseado na mercadorização de uma intimidade ferida. Imagino que nem o padre Melícias passasse incólume aos podres da relação amorosa feitos públicos a reboque de sério ressabiamento. Se é justiça que querem deixem a Margarida à sua sorte e esperem pela Maria: a José Morgado. Mas, enfim, haja abutres e gente sem que fazer a 5 euros.

Não obstante, adivinho algumas almas inquietas com o trailer por razões bem diversas, estas de forte afinidade geracional. Não é grave, é aguardar pelas maravilhas da net: os seios desnudos da Margarida Vila-Nova* não tardam a surgir online.

*Nada me move contra a actriz. Aliás, se acaso o pacman escrevesse um livro pleno de vendetta amorosa a caluniá-la, acredito que fosse a primeira achar edificante a transposição para filme.

P.s. Condeno a fátua indignação com que Pinto da Costa se virou aos rapazes do Gato Fedorento. O problema das indignações levianas é o resvalar para a paranóia, para a incapacidade de auto-ironia e, claro, a perda de "capital de revolta" contra o que realmente merece.

antropólogo de interiores

Naquele momento fatídico em que o funcionário pede a profissão a fim me fazer a ficha completa, experimento às vezes uma saída airosa. Suficientemente des-solene e lúdico, a tocar o perjúrio, respondo sem me rir: antropólogo de interiores. É uma piada com que enfrento as inquirições "sociedade administrada", mas é também a expressão do meu enlevo em "entrar no armário" das pessoas com quem me cruzo. Isto para dizer que gosto muito da nova série do Abrupto, MOMENTOS EM TEMPO REAL: INTERIORES. A contrário da série de Exteriores, um verdadeiro discorrer de tédio e repetição, a versão interiores seduz-me de sobremaneira. Andou bem a notável dedicação José Pacheco Pereira.

O meu email [deumdesejo@gmail.com] fica desde já à disposição dos habitués deste espaço (se os há), comentadores ou não, para me mandarem fotos dos seus interiores. Não entenda nisto Pacheco Pereira qualquer imitação editorial ou concorrência desleal (as if...): as fotos são para meu estrito uso pessoal (salvo seja). No fundo, será uma forma de receber algo em troca dos leitores, desenhando-lhes uma existência mais substantiva do que aquela que me é trazida pelo sitemeter ou por comentários de ocasião. Vá, mandem.

Hora de Inverno

Adormecer junto às marcas esbatidas do teu bikini. Seguir-te pelas estações o compasso da melanina.

A casa foi modificada*

O maradona mudou-se para o sapo. Muda-se aquele que é, a meu ver, o melhor blog português umas boas doze (vá treze) semanas em cada ano. Obriga a trabalho de actualização?, que seja: links e google reader com ele.

* A minha deprimente arte para o trocadilho vai sem ser dita.

Anabela


Se tiverem perícia para tanto façam um pause no momento em que Anabela Mota Ribeiro matuta na pergunta. A resposta é precedida por um sorriso levemente malicioso (que é já a resposta) onde se denota o assalto de imagens de noites idas. A resposta verbal em jeito levemente naïve também não desilude. Delicioso seguir estes fluxos da psique humana num meio onde os livros estão claramente sobrevalorizados.

Pronto, pronto

Creio que cheguei a um momento em que me vejo na iminência de sacar da arma caso ouça defender enormidades racistas e outras pérolas libertárias em nome da risível cruzada contra o politicamente correcto. Será, claro, um tiro politicamente muitíssimo correcto: no meio dos olhos, para não ferir susceptibilidades.

[disclaimer: a minha pontaria é péssima]

Lavatório

Uma tendinite contraída no squash numa série de bolares quase perfeitos obrigou-me a radical reformulação dos gestos diários. Coisas prosaicas como fazer uma concha com a mão para levar água à boca enquanto lavava os dentes revelaram-se assaz complexas. A mão esquerda teve que ser ensinada a fazer uma concha que, ainda assim, fica longe dos fartos centímetros cúbicos alcançados pela experiência da mão direita. Aprendi a sentar-me no chão e a levantar-me da cama invertendo todo o movimento dos membros para sustentar o peso do corpo na mão esquerda. Quando acaso encontrava alguém tentava fugir àqueles passou-bens viris que tão mal podem fazer ao meu frágil tendãozinho.

Mas, como decerto imaginam, o aspecto que mais me apoquentou foi a condução. Não que pegue muito no carro. A questão é que pôr a marcha atrás numa 4L obriga a um movimento com o pulso que tem tanto de expedito como de sinuoso, caso contrário estamos sempre a ir parar à 4ª: o ideal, portanto, para estiolar um tendão vagamente ferido, ou, pior, demorar a estacionar mais 5 segundos do que aquilo que o condutor de trás está programado para suportar. Eis senão quando, num gesto que reputo de revolucionário, aprendi a meter a marcha atrás com a mão esquerda. Suponho que isto seja inédito na Europa continental. Peço que não divulguem demasiado por aí, mais, que sustenham a vontade de me parabenizar, coroas de flores, Moët & Chandon e assim.

A minha tendinite está vagamente debelada, não tarda volto ao squash, não tarda volto a pôr a mudança com a direita. Quanto à conchinha à esquerda, acho que já me afeiçoei.

PJ

Mariano não põe a possibilidade de ter o telemóvel sob escuta. Há muito que só a mãe o ouve e, por simpático que fosse, a PJ não ia gastar tempo com ele. O que lhe custa é saber que até o Estado panóptico tem os seus predilectos.

[1995] Replay


"A verdade é que alguns poucos argumentos me perseguiram ao longo do tempo. Sou decididamente monótono." Borges

Watson

A excitação com Watson dos oprimidos pelo politicamente incorrecto justifica sincera comoção. Pedro Sales resume bem a questão.

Boa sorte no cricket

Quarta-feira: Rússia vence a Inglaterra na qualificação para o Europeu.
Sábado: África do Sul vence Inglaterra na final do Campeonato de mundo de rugby.
Domingo: Hamilton deixa fugir fugir a liderança do mundial de pilotos para Raikonnen.
Domingo: Ronnie O'Sullivan perde a final do Royal London Watches Grand Prix em Snooker para Marco Fu (informação adendada via email por alma caridosa devidamente identificada).

Avulsos

---"Não me surpreende a violência brutal que é ver uma ex-namorada feliz. Já o prazer que tenho, de cada vez que ela tem um azar, revela não só a inevitabilidade da natureza humana assim como uma grande falta de carácter. Felizmente, a vida corre-lhe lindamente. Puta que pariu. É pedir muito que tenha um azar? Um pequeno azar? Um acidente. Uma perna partida. Uma doença incurável. Um filho. Só isso. Já nem peço que o namorado lhe seja infiel, eles acabem tudo e ela volte para mim. Porque isso sim, seria uma coisa boa para mim e um azar do caralho para ela." Tiago Galvão, Diário

O Dr. House está sobrevalorizado


Talvez seja efeito da discrição da imunologista em ambiente hospitar. Talvez seja o ar beato. Talvez seja a exposição regrada dos atributos. Talvez que a beleza dela seja marcada por uma discrição intrínseca. O facto é que o anelo estético também se faz por hábito e persuasão, por vezes sem uma única centelha de deslumbre. Jennifer Morrison em Dr. House é disso um bom exemplo.

Makukula

Não jogou contra o Azerbaijão. Foi convocado à última hora devido à lesão de Nuno Gomes. Enquanto os outros viajaram de charter, teve que fazer três escalas até Almaty. Quando este homem depende da lesão de Nuno Gomes para ser convocado estamos conversados.


P.S. Menção de louvor: Quaresma estava a fazer uma exibição terrível. Murtosa mete -- e bem -- Nani, mas, ao contrário do que adivinhava Tadeia e outros quejandos, não tira Quaresma ciente de que ele pode resolver, mesmo num dia mau (curiosamente ninguém reparou que é ele que marca o canto do golo do Bruno Alves contra o Azerbaijão). Minutos depois Quaresma resolve.

P.S.2. Porque é que Freitas Lobo fica com os jogos menos importantes e Tadeia se dá ao luxo de fazer fretes com os de topo?

P.S.3. A vitória dos sub-21 ontem contra Montenegro foi uma vergonha só. O primeiro golo resulta de uma falta de Fair Play absolutamente constrangedora. Pulha mesmo. Gostava de saber onde tem estado a comunicação social sempre tão dada à indignação. A deontologia jornalística devia tentar resistir um pouco mais ao nacionalismo futeboleiro. seria pedir muito. Para todos os efeitos ontem fui montenegrino.

Gattopardo

A história de um regresso.

Levar a Aimee Mann para a cama

Há muito que Mariano anda a levar a Aimee Mann para a cama. Como o concebo, o conceito "levar a Aimee Mann para a cama" não revolve a exaltação predadora ou sequer o frémito de uma cópula. Objectivamente, descreve uma coreografia possível: um adormecer melancólico arrastado ao fim do cd. Simbolicamente arvora-se em metáfora contemporânea para falar do anoitecer depressivo. Estamos no plano de uma sincera desistência do dia que, contra a costumeira celebração sexual do móvel, escarnece todo o convívio erótico que a cama lembra ou representa: nada de canzanas, sessenta e noves ou cafunés. Apenas Aimee Mann.

Amanhã vou descer ao café, vou espreitar por sobre o jornal, vou pôr-me adivinhar quem tem cara de andar a levar a Aimee Mann para a cama.

Sicko


O filme que valeu a Moore os elogios da Fox News (está tudo parvo, mas enfim). Como bem se reitera no filme, isto de "medicina socializada" às vezes é menos uma questão ideológica do que de tradição nacional, basta ver o que é que os conservadores canadianos ou ingleses (Thatcher e quejandos) pensam do assunto. Adianto-vos: é um filme precioso.

Se fosse americano o que mais me marcaria seria sem dúvida a comparação com o Reino Unido, tão afins noutras matérias mas tão resolutamente opostos na conversa da saúde. Este abismo deveria permitir ao liberalismo anti-estatal e fundamentalista a graça de se pôr a pensar em termos menos simétricos aos das experiências comunistas (repudiam Marx, mas sem saber adoram o Hegel da história esquemática ou transcendente). No filme alguém repete o que há tempos aqui escrevi sobre da forte impressão que sedimentei na Ilha: se alguém tocasse no National Health Service seria a revolução. Isto mesmo. Vivendo em Portugal dou-me em pensar que não valorizamos o suficiente o Serviço Nacional de Saúde que temos e, sobretudo, que não nos indignamos o suficiente com quem se propõe a escavacá-lo. Vocês sabem de quem é que eu estou a falar.

Avulsos

---" Na falha da consciência (com numerosos motivos que lícita ou ilicitamente a explicariam), os efeitos crescentes do doping seguramente alucinaram o corpo de Marion Jones, pelo que não me parece que na corrida ao primeiro lugar ela estivesse consciente dos méritos do seu embuste. (...) o inconsciente transporta a largura do tempo, cabendo mais ao instante consciente acarretar a perversão dos lugares, actuando que nem soldado raso na linha de frente, e por isso assaz mais sujeito à bala de um inimigo cada vez mais vago." O Regabofe

Flor Bela de Alma da Conceição

Há pouco tempo, passeando-me numa livraria local, tropecei num lapsus linguae que foi assim como uma epifania. Umas estantes ao lado, um rapaz sugeria à namorada que comprassem como prenda um livro da Floribela Espanca (sic). Meio zonzo e incapaz de me manter em pé, dirigi-me logo ao balcão da livraria -- o do bar, pois claro -- a fim de dose dupla de bebida destilada.

Alguém acabava de estabelecer em bom português a ligação entre o século XIX (século em que nasceu a poetisa) e o século XXI, um século marcado pela presença avassaladora da cultura de massas (não é só pelos livros das celebridades televisivas que a cultura de massas coloniza o meio literário). Essa interpenetração entre épocas e formas de cultura (alta e baixa, para usar os termos polémicos) ficou sumamente cristalizada.
Floribela Espanca. Adorno precisaria de umas 300 páginas para dizer o mesmo.

Falo

A mãe de Lara é uma feminista ciente de se ter constituído numa sociedade patriarcal. A opressão está tanto na lógica que sustenta o prestígio social como naquilo que dessa lógica lhe constitui a subjectividade. O seu moto de há anos não esquece o fracasso iniciático de uma autoria arrancada à hegemonia:
'Contra mim falo.'

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Escanteio

Na última conferência de imprensa Scolari explica que Miguel Veloso* é melhor no meio campo de que a Zagueiro (e assim continua qual vidente a descobrir a roda todos os dias).

Não tenho nadinha de chauvinista (mesmo que quisesse há pouco por onde), mas sendo um profissional da área do futebol, estando a trabalhar na selecção portuguesa há uma catrefada de anos, será que custaria muito ao senhor Scolari usar termos que sejam mais familiares ao público que o ouve? É que em Portugal nem toda a gente sabe o que quer dizer zagueiro. Atente-se, ninguém lhe está a pedir que fale mirandês, apenas que, ao fim de tanto ano, tente meter a língua entre os dentes e experimente -- com todos os riscos que isso certamente acarreta -- dizer a palavra "defesa"

*A esse cabrão não bastava ser bonito?

Doris Lessing

O dia até lhe estava a correr bem.

Via A Invenção de Morel

Aos coimbrinhas

Na livraria Almedina-Estádio encontram traições por dois euros e sessenta.


Sexismo

Hipotecando o meu sucesso reprodutivo para as próximas décadas, já aqui sustentei a minha leitura sobre o assunto : a ética do cavalheirismo nutre-se da (e nutre a) definição da mulher como o sexo fraco. Isto nada obsta a que eu tenha práticas de gentileza e delicodoçura em contextos de particular afeição ou sequer que recuse a adaptar-me a algumas das práticas de prestígio definidas pela grelha patriarcal (como se vê não quero arriscar tanto assim).

Sendo algo chocante e porventura desproporcionado denunciar as práticas cavalheiras como sexismo (apenas porque sou um relativista muitíssimo compreensivo de como as pessoas habitam as estruturas de sentido em que se criaram), surgiu-me há momentos, enquanto fazia aqui gelo, uma formulação que me agrada.

Não me refiro já ao cavalheirismo no sentido lato de uma ars masculina sumamente valorizada na nossa cultura. Refiro-me mais estritamente ao uso das práticas cavalheiras num sentido táctico: aquela gala cheia de adornos e delicadezas pela qual o homem constrói um itinerário que lhe permita levar a mulher para a cama no curto-prazo. Ou seja, nesta lógica a delicadeza do cavalheirismo é menos uma forma de estar do que um património oportunistamente empregue com sinceros fins de colheita sexual.

Pois bem, vamos à vaca fria. Do mesmo modo que o amiguismo tem sido depreciativamente empregue para definir acções cuja lógica é fortemente marcado pelo valor da amizade, daí resultando um viés em que os elogios e outros favores públicos são postos sob suspeita, penso que o cavalheirismo predador pode ser definido nesta analogia como "sexismo": práticas de favor, delicadeza ou galanteio - mais ou menos públicas - que têm como valor de referência o sexo. Do mesmo modo que o amiguismo cuida e acarinha a amizade, assim o sexismo cuida e acarinha a proficiência sexual do cavalheiro de oportunidade.
E era mais ou menos isto.

Marion Jones

Confissão: o pedido desculpa de Marion Jones perturbou-me. Sim, bem sei que se dopou com estudada premeditação anos a fio. Também não me custa imaginar que o pedido de perdão tenha resultado de uma contrapartida forjada para atenuar a sanção e assim livrar a beliziana de uma sentença de prisão. O que me comove então? O facto de vermos soçobrar às lágrimas o sorriso mais bonito que já se passeou na história do atletismo? Sou vulnerável à beleza, mas não abusemos.

O que me desarranja os neurónios é não saber o que fazer às alegrias que tive com as medalhas que agora lhe são retiradas (estão proibidos de me chamar anti-americano nos próximos dois meses).

No fundo o que está aqui em causa é o estatuto emocional de experiências passadas agora vistas à luz de uma fraude e, mais contundente, à luz de uma sanção com feitos retroactivos. Isto é tudo muito estranho. Exageramos o poder dos efeitos retroactivos. Nem as segundas classificadas vão agora gritar hosanas pelo ouro que lhes chega tardio e sem glória, após terem chorado baba e ranho, nem a alegria com que Marion subiu ao podium lhe poderá ser alguma vez assacada. Fico com a sensação que há aqui alguma merda que prescreve sem remissão e que estas decisões (justíssimas) instituem momentos de absurdo na vida desportiva. Posto que a consciência é um fantasma de envergadura muito variável, quando Marion pede perdão será que está a desculpar-se pelas alegrias que a seu tempo pôs ao bolso?

A nossa vidinha


Situada na Alemanha de Leste, ano de 1984, a trama d'A Vida dos Outros revolve em torno dos expedientes securitários da STASI (polícia secreta e central de inteligência com que o regime se protegia).

Não li o alardeado texto com que Pulido Valente achincalhou o filme, mas se calhar em pôr-lhe os olhos talvez cá volte para me deter nele por inteiro (no filme, entenda-se). Por ora, um detalhe.

Há uma cena passada na cantina da polícia que corteja com requintada delicodoçura a nossa vida política recente. Um funcionário da secreta, desatento à presença de um superior, chega à mesa do almoço, tabuleiro na mão, em pulgas para contar aos colegas uma anedota fresquinha sobre Erich Mielke -- nada mais nada menos do que o big boss da Stasi até 1989. Quando após a declaração de intenções se apercebe da presença do superior, o pobre funcionário tenta mudar da assunto cada vez mais embrulhado em manifesta escalada de desespero. Não lhe permitem, é obrigado a contar a anedota até ao fim. Ora o peso do condenado, ora a confiança do comediante, obedece. Depois de uma gargalhada que parecia trazer a bonança, o chefe assume um tom grave e pergunta com severidade "tem consciência do que acabou de fazer à sua carreira?".

O gelo é interrompido por nova gargalhada do chefe que enfim se desfaz para alívio derradeiro do funcionário (o poder quase absoluto sobre a vida de outrem dá para estas brincadeiras). Para que a vira-volta seja total é o superior hierárquico quem conta a todos uma piada, da sua própria lavra, sobre o mesmo todo-poderoso Erich. Venceu o communitas entre os súbditos de Erich. Afinal até o totalitarismo tem as suas catarses, insurrectas por princípio, mas consentidas na pequena escala.

O paralelismo parece disparatado, infelizmente não é. Lembram-se de um senhor chamado Charrua? Não teve tanta sorte.

O som e o sentido

Liquefiz-me.

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Avulsos (act.)

---"O SMS iria vingar sempre porque agora podemos comunicar de forma barbaramente simples aquilo que, dantes, só conseguíamos dizer ao fim do quinto gin." Falar para dentro

5 gins: é mesmo isso. Eu diria que as sms nos fazem mais directos e despudorados por 3 razões:

1-
Um efeito sniper: A não presença física do remetente (de corpo ou voz) permite que nos sintamos menos expostos quando aquilo que expomos segue por mensagem de texto. Por outro lado, ainda que viaje em segundos, há sempre um descompasso (grande ou pequeno) entre o momento em que se envia a mensagem e o momento em que a destinatária a lê. Há como que um sentimento de protecção pelos intervalos de tempo que separam o envio da sms da leitura -- e a leitura de uma (eventual) resposta.

2-
Um efeito literário: As sms permitem uma metódica escolha das palavras, pelo que, mais do que num diálogo sem rede, é possível dizer com disciplinado rigor o que se quer dizer. Antes de enviar podemos ensaiar o tom que dali resulta, podemos adivinhar a experiência interpretativa de quem a vai ler. Mas a ponderação das palavras mais que uma possibilidade das mensagens de texto é uma condição se tivermos em conta o constrangimento de caracteres.

3-
Um efeito de sortilégio: ao contrário do e-mail cuja leitura normalmente implica uma relação de leitura mais ou menos estabilizada -- na secretária à frente do computador -- as sms oferecem-se à boa ventura de visitarem com propósito a intimidade itinerante da destinatária. O simples facto de alguém tirar o telemóvel da carteira o do bolso para nos ler favorece uma recepção que venha a ser abençoada pelo nexo entre o imprevisto e a intimidade.

Salve! Jesualdo



Para que tenham uma ideia, em Coimbra não há quase nenhum café que tendo uma só televisão se permita a transmitir os jogos do Porto na Liga dos Campeões quando estes coincidem com os do Benfica. Obviamente que a estupidez dos estabelecimentos comerciais desta cidade -- que às vezes me parece apenas miserável -- não chega para me fazer desejar má sorte do Benfica: o futebol que tenho à porta de casa muito depende do pecúlio das equipas portuguesas nas ligas europeias. Isso basta-me para torcer pelas equipas indígenas sem nacionalismo que se me pegue, no entanto a parvónia efabuladora devia ter limites. Em todo o caso, à hora dos jogos ausentei-me para exercer numa franca partida de futebol de 7 -- correu um desastre, diga-se.

Compreenderão, no entanto, que vivendo em tão hostil exílio me sejam particularmente benignas certas notícias vindas da costa do Bósforo.

As time goes by

Via Spectrum


Este vídeo é uma preciosidade pelo modo como nos põe a pensar sobre a biografia. O fascínio revolucionário que o estudante exerce naquelas vestes prosaicas, carregado de raiva e convicção, é certamente um dado não despiciendo. Mas esqueçam a política, um mero pretexto formal para a questão substantiva. Que eu tenha muito pouco respeito pelas "convicções políticas" da figura pública que dá pelo nome de Durão Barroso pouco importa. Repito. Sobre a biografia.

A perturbação é-nos trazida pela ficção da pessoa (Durão Barroso) como se de alguma unidade de sentido se tratasse. O assombro de sermos isto e de nos transformarmos no seu radical contrário é compreensível, no entanto tal metamorfose, explica-a a força do tempo que corre, explica-a efeito das circunstâncias que nos constituem (ou contra as quais nos constituímos). A mudança acontece e, em si, não me merece juízo de carácter por aí além. (Por exemplo, talvez mais no amor do que na política, respeito muitos românticos que se tornaram cínicos).

O que aqui se destapa de mais fundo é a ideia de que numa pessoa convivem muitas, a ideia de que somos vários e prolixos num mesmo tempo, ao longo do tempo. As "grelhas de eu" são estereótipos parciais e situados tão dependentes do contexto social como do contexto temporal. Performamos esses estereótipos de forma estabilizada pelo hábito, pela experiência processada, pela crença, pela expectativa e pela memória do nome. Que nos tornemos noutro estereótipo definido pela ideologia política é obviamente possível. Um militante da esquerda revolucionária é o mero estereótipo; já ali havia muitos Durão Barroso. Não necessariamente pistas ou sinais que nos levassem ao que se tornou. Apenas essa coisa simples das muitas vidas que ora se abraçam ora se acotovelam dentro de um corpo que pouco define

Everyman

"Old age is a massacre, not a battle."


“You know what would help?” she said. “The sound of that voice that’s disappeared. The sound of the exceptional man I loved. I think I could take all this if he were here. But I can’t without him. I never saw him weaken once in his life—then came the cancer and it crushed him. I’m not Gerald. He would just marshal all his forces and do it—marshal all his everything and do whatever it was that had to be done. But I can’t. I can’t take the pain anymore. It overrides everything. I think sometimes that I can’t go on another hour. I tell myself to ignore it. I tell myself it doesn’t matter. I tell myself, ‘Don’t engage it. It’s a specter. It’s an annoyance, it’s nothing more than that. Don’t accord it power. Don’t cooperate with it. Don’t take the bait. Don’t respond. Muscle through. Barrel through. Either you’re in charge or it’s in charge—the choice is yours!’ I repeat this to myself a million times a day, as though I’m Gerald speaking, and then suddenly it’s so awful I have to lie down on the floor in the middle of the supermarket and all the words are meaningless. Oh, I’m sorry, truly. I abhor tears.”


Benefícios Fiscais

Junto-me à causa deste blogue e à campanha do País do Burro.

Na verdade, os benefícios fiscais pouco podem contra uma situação discriminação e injustiça social mansamente estabilizada nas políticas e, num sentido mais lato, na nossa sociedade: os ingleses chamam-lhe disablism: Já nós, bem... a nós falta-nos a palavra. Mas será uma espécie de racismo em relação às pessoas com deficiência. É uma uma forma de violência ante a diferença corporal que actua não pela exclusão agressiva -- isso também --, mas que sobretudo se encapota no paternalismo, na caridade e numa lógica de omissão normalizadora (veja-se o espaço construído das nossas cidades): a hegemonia da normalidade.

No entanto, é suficientemente expressivo que perante a realidade das pessoas com deficiência o Estado esteja preocupado em reduzir os benefícios fiscais travestindo-os de luxuosos privilégios dos "deficientes": esses exploradores do sistema. Quanto a sinais de mudança estamos conversados.

CV

O currículo não era coisa de se invejar. Colocava-o, contudo, numa excelente posição para assumir a candidatura a bastonário da ordem dos abandonados.