À espera de Menezes

Leitor atento das dinâmicas recentes da política portuguesa, Marques Mendes convenceu-se de que poderia chegar ao governo com uma ponderosa disciplina de paciência. Na verdade, tudo conspirava para essa atitude de espera: low profile, total abstinência do culto da personalidade, postura conservadora de respeito institucional, postura anti-populista (a proximidade a Alberto João e a invocada necessidade de descida dos impostos são excepções), forte convergência com a política neoliberalizante do Sócrates e, a partir de certa altura, a tutela de Cavaco Silva que veio veio reforçar o "interesse nacional" e a legitimidade de Sócrates nos terrenos ideológicos do PSD.

A espera. Marques Mendes tinha razões para achar que essa poderia bem ser a sua via para a cadeira de Sócrates. Afinal Durão Barroso foi um lendário molusco como líder da oposição e chegou lá. Afinal Sócrates não precisou de se mexer e chegou lá. A questão é que Marques Mendes terá fracassado em perceber que esse modo de ascensão ao poder, trilhado por Durão e Sócrates, foi, apesar de tudo, excepcional. O desgaste limiano de governar sem maioria absoluta desgastou mais Guterres do que a sua própria imagem: saiu antes do tempo e deixou caminho aberto a Durão. A saída cobarde de Durão e o desastre Santana (alguém a quem nunca de deveria entregar sequer a administração do condomínio) consentiu amplo tapete vermelho a Sócrates.

Seguindo os passos dos seus predecessores, Marques Mendes deixou-se ficar à espera que as maçãs apodrecessem e pecou por defeito de acção, defeito de carisma (esse já lá estava), mas também porque leu mal as circunstâncias diversas da sua oposição: Sócrates, além de ter maioria absoluta, tem a seu favor um eleitorado carente, disposto a dar carta branca ao primeiro líder autoritário e reformista que lhe apareça.

Se algum sentido político é possível extrair do que sejam os sufrágios partidários (tal é a teia que se mexe à frente do multibanco) talvez as directas do PSD queiram dizer que uma performance de oposição minimamente convincente ainda importa. Alguém capaz disto ou daquilo, sempre, claro, com ar indignado. Não tinham grande escolha no PSD, escolheram algo diferente, no caso um populista tão vácuo como o seu herói: Santana Lopes.

Para Marques Mendes fica a lição, ser líder da oposição ainda não é tão radicalmente uma profissão de espera.

Nessun Dorma

Wikipedia: Puccini died there on November 29, 1924 from complications from the treatment; uncontrolled bleeding led to a heart attack the day after surgery. News of his death reached Rome during a performance of La bohème. The opera was immediately stopped, and the orchestra played Chopin's Funeral March for the stunned audience.
É uma representação particularmente efusiva de uma história antiquíssima: morre um e põem logo a tocar outro. Está mal.

O último Nessun Dorma(Puccini) por Pavarotti:

Fátima

Informam-me que Carlos Saleiro, o melhor jogador do Fátima na noite de ontem, foi o primeiro bebé proveta português. Sei que não é fácil ganhar ao Porto, mas já andam a levar isto das academias um pouco longe demais.

E não se arranja um vídeo com o que realmente interessa?

É que neste os pormenores da chegada de Mourinho foram censurados. Francamente.

Jesualdo: não tergiversarás

Depois do período que se seguiu à eliminação da Taça de Portugal, no ano passado, Jesualdo Ferreira mostra porque é que é basicamente um burro. Já devia ter aprendido que uma equipa arrisca muito mais no "desgaste moral" de ser precocemente eliminada do que no desgaste físico que um jogo possa trazer a alguns titulares.

É por estas e por outras que Jesualdo nunca será um treinador capaz de valorizar suficientemente a vertente motivacional do jogo. O 11 que Jesualdo pôs hoje a jogar é da ordem da tragédia: Nuno, Fucile, João Paulo, Stepanov, Lino, Bolatti, Kazmierczak, Leandro Lima, Mariano, Farías e Rui Pedro. Bem, espero que acabem de rir.

Mas perceba-se a lógica do homem: teoria das compensações. Para compensar o facto de não dar minutos de jogo aos reforços (alguma promessa que fez à Nossa Senhora), atira-os todos para o campo de uma vez, talvez para ver se ganham experiência em lidar com o caos forjado pela sua própria estupidez.

A invés, dizem os livros, deve-se promover uma entropia sempre alimentada pelo maior calor produzido pela equipa titular; os novos vão-lhe apanhando o labor, pouco a pouco, sem que a sua entrada seja tão notada que baixe dramaticamente a temperatura da equipa base e, tomando-lhe o quentinho, tornam-se produtores desses mesmos altos níveis. O que sucedeu esta noite foi a total ausência de uma matriz à qual os menos rodados se pudessem agarrar. Se a ideia era perder à primeira eliminatória não entrassem na Carlsberg Cup, permitissem ao comum adepto a manutenção de alguma dignidade ante a burrice alheia.

De uma assentada Jesualdo permitiu-se a eliminar o Porto da Carlsberg Cup e a traumatizar, com imerecido sentimento de culpa, vários jogadores que tiveram hoje a primeira oportunidade de jogar a sério. Brincar assim com a moral dos reforços custa muito dinheiro.

O som e o sentido

Endiva.

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A vida como tese

Dizem que o acumular dos anos nos vai minorando as horas necessárias ao sono. Talvez me deixe continuar nisto de viver só para provar que estão enganados.

Ferro

Não raro dou por mim a pensar que uma das coisinhas mais deprimentes que aconteceu na vida política portuguesa foi o facto de Ferro Rodrigues se ter demitido de secretário-geral do PS. Não é que acorde a meio da noite a gritar "Ferro!", mas ocorre-me quando, por algum estranho acaso, me dou conta de viver em Portugal. Não sei se terá sido excessivamente passional após a decisão de Sampaio (repare-se que acabei de colocar passional e Sampaio na mesma frase), não sei se as manigâncias do aparelho já lhe estavam a fazer a cama sem remissão. Mas, bruto e trapalhão que fosse, sempre representava um PS que francamente cortejava o nome de baptismo. Quase diria que me pareceu um excelente ministro. Já como líder da oposição foi por demais truculento e teve essa grande nódoa: lamentável falta de têmpera para pôr o PS a marchar contra a invasão do Iraque. Mas o passar do tempo produz sempre um efeito, já dizia o Proust. Agora percebo que gostava muitíssimo do homem. Talvez tenha sido o último líder político (no sentido ideológico do termo) dos crónicos partidos que nos governam.

Restos mortais

Nunca percebi o é que a expressão "restos mortais" tem de adequado para descrever os sólidos de um morto. E nós vivos, o que somos?

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Romântico. Que ainda haja pares destes no futebol, pessoas que sinceramente se choram na despedida.

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"Número par é todo número inteiro que ao ser dividido pelo número dois resulta em um número inteiro."
Lara sabe que é não é bem assim. O conceito de par romântico já não lhe merece qualquer crédito.

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Mourinho

No tempo que recentemente passei na Ilha confirmei suspeitas antigas: os ingleses, sem excepção, estão pateticamente apaixonados por Mourinho, mesmo, ou talvez sobretudo, quando dizem mal dele. A ambivalência que tomava conta do "Inglês não adepto do Chelsea" assumia mais ou menos estes termos:
"Like many football fans, I loved and hated Mourinho. But that must be to his credit, because initially I just hated him. And I didn't want to like him. It felt wrong."

Recordo por exemplo, do episódio do cão, aquele em que Mourinho fez pouco das autoridades. Pois bem. Editoriais, debates na rádio, conversas de pub: todos o acusavam, mas sempre com aquela ponta de admiração mal disfarçada. Amor e negação, pois. Com a partida do infame, secretamente adorado por uma sociedade colonizada sob o aparato discursivo da sua missão vencedora, é toda uma cultura do espectáculo de que os ingleses ficam irremediavelmente privados. Uma orfandade que perdurará. Por isso, falar de um charisma void na sociedade inglesa é dizer o mínimo. Quanto aos adeptos do Chelsea, para esses, enfim, os meus pêsames. Como dizia o outro, "dizem que passa, mas..."

Mourinho (act.)

(No momento em que acabo de escrever este post de circunstância o B. avisa-me que o Mourinho já não é treinador do Chelsea. Bem, devo-vos dizer que me percorreu calafrio místico. Talvez eu seja afinal um xamã a passar ao lado de uma grande carreira)

A dolorosa verdade é que Mourinho se sobreadaptou ao futebol inglês. Ressentem-se os resultados, mas sobretudo as exibições. É por estas que falo. É triste de ver o Chelsea jogar naquilo que é uma absoluta caricatura do futebol da Ilha. Futebol directo (o lance típico são os pontapés do Čech para o Drogba), 11 feito de médios centro ad nauseum, extremos rápidos ao serviço de automatismos que pouco lhes aproveitam a técnica criativa. Quase nos esquecemos que o Mourinho que ganhou a Champions tinha espaço para um obsceno "brinca na areia": Carlos Alberto, lembram? Já para não falar do Deco, nessa altura um número 10 sem o estreitamento proletário a que Ronaldinho o obrigou no Barcelona.
Queixa-se Mourinho das lesões. Pudera, quem o manda montar uma equipa à imagem do poderio e entrega física do Essien? Aquilo até para o Essien é violento. Vemos o Manchester abastecer-se de fantasistas e ficamos com a sensação de que Joe Cole é o máximo de criatividade que o futebol do Chelsea consente. Até pode ser que "Jose" ganhe a Premier pela via da combatividade e pelas suas capacidades únicas de liderança. Mas, há que dizê-lo, o futebol de Mourinho há muito que não se recomenda.

P.S. Na televisão aquela apresentadora gira continua a falar com o António Tadeia como se depois da demissão do Mourinho o mundo pudesse fingir algum tipo de normalidade.
P.S2. Mourinho, já sabes, serás recebido de braços abertos.

Meta-bloguices

No que a "patrimónios de interesse" diz respeito (diferente de exposição pessoal), a capacidade de fascínio de um(a) blogger também se afere pela vastidão daquilo que deixa fora do assador (para usar a metáfora quinitiana).
Há óbvios casos de low profile e de partilha minimalista (porque há práticas e interesses "culturais" que não se dão à partilha, porque "a minha vida não é isto", porque se preza uma atitude contra-exibicionista) . Há óbvios casos de bluff involuntário (esconde o "jogo" que nunca ninguém verá, e portanto, não se sabe se há jogo escondido).
Há óbvios casos em que o bluff é estudado (continuadamente partilha a existência de mundos que não partilha).
E há, naturalmente, casos de continuada partilha que percebemos incapazes de secar a fonte que corre noutro lugar.

Avulsos

---"Maria José Nogueira Pinto tem boa imagem e boa imprensa, o que ajuda a disfarçar o facto de ser a salazarista mais assumida da política portuguesa. O problema é querer levar a imitação do seu ídolo ao ponto de querer mandar sem ter levado as suas ideias a votos." Rui Tavares, Público

Presunção

Em circunstâncias normais não publicitaria um blog destes. É um blog anónimo que especula sobre um tema muitíssimo sério: a investigação em torno do desaparecimento de Madeleine McCann. No entanto, faço-o. O que se passa no blog supra-linkado é uma especulação - um exercício precário desde logo nas premissas de que se abastece -, mas trata-se uma especulação informada e exaustiva no detalhe e, segundo, parte das informações que circulam no tribunal público para contrapor o veredicto aí tomado: a sentença de filicídio involuntário.

O autor colheu uma série de dados e hipóteses com os quais defende inocência do casal MacCann. Eu não defendo tese nenhuma nem me sinto habilitado para tanto. Mais: duvido que alguém fora do meio judicial possa tirar grandes conclusões sobre a matéria. No entanto, insisto, acho que aquele blog presta um serviço fundamental:
1- É importante que a serenidade da opinião se alimente da ideia que todas as hipóteses estão em aberto;
2- A unanimidade acusatória sustenta-se, nas palavras da própria PJ, em provas de extrema fragilidade;
3- A tese do homicídio por negligência, quer porque é um dado novo que reverte hipóteses prévias, quer porque aponta para uma teoria da conspiração, é a mais espectacular e vendável do ponto de vista mediático. Portanto, dada a improbabilidade de se encontrar o raptor ou o corpo de Madeleine (mesmo que fosse esse o caso), a necessidade de alimentar as audiências fará sempre pender a balança mediática para a presunção de culpa.
4- Dado o manancial de informação (sustentada ou não) que pertence ao domínio público, o princípio da presunção de inocência (o segundo desaparecido deste processo) já só se pode repor num jogo argumentativo que, imiscuindo-se nos factos conhecidos, aponte para o carácter precário e provisório das hipóteses em cima da mesa.

Woody

"When Woody Allen made a series of of public appearances before journalists in the wake of his scandalous separation from Mia Farrow, he acted in 'real life' exactly like neurotic and insecure male characters in his films. So should we conclude that 'he put himself in his films', the main male characters in his films are half-concealed self-portraits? No - the conclusion to be drawn is exactly the opposite: in 'real life' Woody Allen identified with and copied a certain model that he elaborates in his films - that is to say, it is 'real life' that imitates symbolic patterns expressed at their purest in art." Žižek, 2000


Simetria sacrificial

Tudo indica que numa das alas do ataque Porto alinhará Tarik Sektioui, jogador que cumpre o Ramadão. Na outra, actuará o extremo cujo nome lhe ficou da Quaresma.

Avulsos

---"Todas as mães chamaram histéricos aos seus filhos e todas já acharam que eles são hiperactivos. Todas já acharam que os maridos (como aquele) não as ajudavam. Todas elas, em algum momento, pensaram na sua vida sem filhos. Todas elas têm vida para além dos filhos e nenhuma delas está exclusivamente destinada, como se fosse carne para canhão, à carreira de reprodutora e puericultora." A origem das espécies

O bode expiatório

Houve no entanto uma coisa que me desagradou naquela história do murro. Scolari, já na flash interview, a estourar de adrenalina e carregando a felicidade de se perceber ainda em posse do jeito juvenil (para a porrada, entenda-se), justificou a sua agressão com a necessidade de defender o Quaresma. Ora, como sabemos, nem o Quaresma é uma criança vulnerável, nem consta que estivesse em grandes dificuldades. Essa justificação de Scolari, armado em cavaleiro andante, foi para mim o facto censurável, porque cobarde. Tanto mais que a cena que eu queria ver era exactamente aquela em que Quaresma se virava ao Felipão em franco momento de desagravo. Isso era ontem, agora que todos lhe mandam pedras, falar mal de Scolari deixou de me interessar.

Onde é que o Instituto Shimon Peres estava com a cabeça ao convidar o ideólogo do mata-mata?

"Scolari deu uma palestra para os treinadores de futebol de Israel e da Palestina, onde abordou o tema: “Futebol como instrumento de Paz”.

Scolari

Sempre defendi que fosse despedido. Mas uma decisão certa pelas razões erradas é uma decisão errada. Pacifista que sou, a minha solidariedade é para com o homem desesperado que desata ao sopapo. Por uma vez não contem comigo para o deitar abaixo.

Quem convidou o padre?

Ámen, Vital Moreira.

O país que se vestiu de branco por Timor

Das "razões conhecidas" para assobiar para o lado por alturas da visita do Dalai Lama

A hipocrisia e o oportunismo de determinados paladinos dos direitos humanos não pára de enojar.

A Ana Gomes, e bem, tem-se feito ouvir contra esta subserviência (algo me diz que a eurodeputada socialista não vai ser reconduzida no cargo, bem se vê que tem nervo a mais para o "socialismo" indígena). Ana Gomes não vai ao ponto de pedir que o Governo comprometa as suas relações económicas com a China para apoiar desabridamente a causa perdida do representante político do Tibete, país que a China fez província em 1959. Por aqui se vê que o realismo também chega às vozes dissidentes. Mas na verdade bastaria que os governantes não fossem cobardes ao ponto de ignorar uma figura de inegável importância religiosa e histórica. Para Dalei Lama é bastante comum ser recebido oficialmente e parece que os chineses não se chateiam por aí além. Que esta indignação se faça ouvir pela voz de Ana Gomes é significativo. Se como país tanto lutámos contra a anexação de Timor e procurámos abalar a indiferença do mundo, o mínimo que se podia esperar era que os nossos representantes pensassem um pouco antes de se ajoelharem para fellatios que os chineses nem pediram.

Madeleine McCann

Alguém disse algo que faz todo o sentido (acontecimento que deve ocorrer umas duas vezes por ano no Prós & Contras). Henrique Monteiro dizia, e bem, que a confirmar-se a tese da culpabilidade dos pais era a nossa crença na humanidade que saía fortemente açoitada (ele não deve ter dito "açoitada"). Tem razão.
Mas vale a pena dizer mais: (também pela histeria mediática) este processo está irremediavelmente marcado pelo espectro de uma desusada crueldade. Seja qual for o desfecho já não escapamos ao confronto com uma crueldade desconcertante:

1º Hipótese
Há uma série de enredos que não afectam por aí além a nossa "crença na humanidade" (vamos manter a expressão). Ora vejamos. A funda crueldade e violência por que procede a pedofilia é-nos familiar -- talvez mais desde o caso Dutroux. O rapto para adopção ou outros cenários atribuídos à intervenção de estranhos são facilmente concebíveis -- afinal há sempre gente capaz de tudo. Também a ideia de um homicídio por negligência paterna é trivial -- acidentes terríveis acontecem. A ocultação do cadáver seria pérfida e cobarde, mas ainda assim concilia-se com os mais elementares poços da vileza humana -- salvar a pele, pois.

Agora, realmente desusado nas coreografias da crueldade, pela escala e frialidade, é imaginarmos um casal que engana meio mundo (literalmente), chama meios de comunicação social, multiplica esforços na persecução da filha, quando, na verdade, a sabem morta -- e onde a "enterraram". Teríamos, nesse caso, um logro friamente orquestrado por duas pessoas que, posto o desastre, planearam esconder-se sob a onda de humanitarismo solidário que incansavelmente ajudaram a criar. Desta crueldade, além de Maddie, seriam também "vítimas" todos quantos se solidarizaram com a dor do casal e se mobilizaram na recaptura da criança.

2ª Hipótese
Esta hipótese é, apesar de tudo, a que mais me impressiona: os pais, inocentes, depois de verem a filha partir para destino incerto e depois de terem concitado todos os esforços possíveis e imaginários, vêem-se agora abandonados pela população que passa das lágrimas solidárias aos apupos, vêem-se abandonados pelas polícias que mudam o rumo da investigação e os passam a ter primordialmente com arguídos, vêem-se abandonados pelas figuras públicas e pelo Papa que prontamente se demarcam, vêem-se abandonados pela imprensa que os retrata como monstros manipuladores. O que se passa é que paulatinamente estão a ser acusados por toda a vivalma de terem deixado a filha morrer, de a terem escondido e, finalmente, de terem montado um circo de solidariedade como manobra de dissuasão (a notícia da Sky News sobre o DNA no carro, pouco importa que seja falsa, vai-lhes cortar o elo com a solidariedade do nacionalismo inglês). Que isto possa estar a acontecer com aqueles pais, é sem dúvida, o cenário que mais me angustia. É contraditório, mas quase desejo que aqueles pais sejam culpados para não estarem inocentes a sofrer tudo isto.

Barra da Costa rules

Hoje é um dia triste para a ficção portuguesa. O Debate não está a correr nada bem ao Moita Flores. Primeiro encolheu-se envergonhado quando o confrontaram com declarações em que, sabe-se lá com base em quê, afirmava as mais impolutas certezas sobre a morte de Madeleine McCann. Depois viu serem achincalhadas as citações do século XIX que laboriosamente preparou, podemos supor, sobre o papel secundário das perícias científicas na investigação criminal (quer dizer, não lembra a ninguém o obsceno anacronismo de rebater o efeito CSI com base num autor do século XIX).

Ou muito me engano ou, a continuar por este caminho, o homem está prestes a ser despromovido a presidente da câmara.

Pause

O meu pause: Sofia Loren.*

Via Arrastão
*Fosse outra a foto da Ingrid Bergman e a minha escolha dobrar-se-ia às regras de um jogo há muito viciado.

Quaresma (act.)

Há alguma lei que impeça o Quaresma de jogar mais de 20 minutos na assim designada selecção nacional portuguesa?
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Post ampliado a partir do diálogo levado a cabo nos comentários:
Resposta ao Júlio e ao :
Este resultado foi menos culpa de Scolari do que o do jogo da Arménia, por exemplo. A equipa da Arménia foi um triste arremendo de pré-época onde Scolari em vez de olhar para as imensas diferenças no momento de forma de cada jogador, próprias da estação, olhou para os nomes dos habitués, chegando inclusive inominável ao absurdo de deixar Bosingwa na bancada quando, como se percebeu, Miguel, titular de de então, traz o corpo num estado de pujança atlética que nem ao Mantorras se recomenda.

Pelo empate da Polónia não assaco a Scolari excessivas culpas, portanto -- apenas muitíssimas. Na mesma linha anti-necrófaga, considero que o segundo golo da Arménia é mais culpa de Deco (que se abstém de fazer oposição quando Lewandowski apronta o remate) do que de Ricardo (não sou portanto o abutre-reflexo que muitos esperariam).

Que fazia eu ao 11.

Tirava o Simão e punha o Quaresma de início, naturalmente. O Simão, sendo um excelente jogador (que o é), se vê uma nesga criada por uma finta ou por uma mudança de velocidade para centrar não hesita, independentemente do que se passe dentro da área (se acaso decorresse um beberete na área, em franco convívio luso-polaco, com embaixadores e tudo, o Simão centrava à mesma).

O Quaresma oferece outro tipo de soluções arrancadas à sua criatividade colossal -- só não se confrange de o ver no banco quem não gosta de futebol -,- como é capaz de se dar ao trabalho de fintar um jogador três vezes ou inventar soluções alternativas (pé esquerdo, trivela, you name it) para dar tempo aos jogadores da área de se porem nos seus lugares. Um pormenor que, dada a qualidade posicional dos "pontas-de-lança" de Portugal, faz muita diferença. Toda.

Quaresma não é, como ainda gostam de crer, negando as evidências da liga Bwin, um brinca na areia que faz umas fintas inconsequentes (esse argumento vai sendo esgotado pela sua titularidade continuada no clube sempre com assistências que até o Adriano se vê na contingência de concretizar);

Tampouco é inepto diletante a defender, no Porto joga com o estatuto: sendo o reconhecido pai-de-todos deve defender o mínimo para não perder frescura física para assim poder decidir no ataque. O estatuto de "decisor supremo" leva a que no Porto se apresente a defender com postura vagamente négligée, mas não chega a ser negligência, é isso exactamente o que Jesualdo deve ter trabalhado nas nas notas de preparação para os jogos: "Raul está mais nas dobras à esquerda enquanto o Quaresma lá estiver, e vira a bitola para a direita se ele for para lá" .

Ora, na selecção, por onde se movem outros criativos, Quaresma tem naturalmente que defender mais e já provou que cumpre (lembrem-se os jogos da champions, ou a posição menos livre na curta coabitação com Anderson). Agora, não se tome aquilo que é uma opção inteligente do Porto (libertar o esforço físico de quaresma apenas para o jogo de ataque) como uma fatalidade (o Quaresma não sabe defender).

Mais, Quaresma executa as bolas paradas como ninguém, pelo que, mesmo quando menos explosivo, resolve jogos a partir desses lances anti-líricos. Para tal faz a bola tabelar nalgum jogador da sua equipa que esteja disposto a tocar-lhe com alguma parte do corpo (ainda estou por perceber porque é que o Deco marca os cantos com o quaresma em campo -- sem desprimor, claro).

Para ser curto, o que o Simão tem de jogador mais completo (que não tem, é apenas mais conservador no estilo- ou seja, boring), não elide o facto de que o Quaresma habita outro cosmos de possibilidades.

O que já devia ter sido feito há muito.

Acho surpreendente que, depois da partida de Pauleta, Scolari como recentemente confessou, não tenha usado os jogos de preparação ou os treinos para rotinar a possibilidade de jogar com o Ronaldo a ponta de lança. Algo que seria esperável or várias razões:

a) Porque Ronaldo seria o ponta de lança titular sem espinhas, não fosse o extremo que se sabe. Até melhor jogo de cabeça tem do que Postiga, Nuno Gomes, Hugo Almeidsa, João Tomás ou Makukula.
b) Porque, sendo um excelente extremo, caso migre para ponta-de-lança, há excelentes soluções para mitigar a perda (Simão e Nani -- não estou certo que para o Quaresma haja qualquer perda se falamos de extremo em sentido estrito).
c) Porque é estúpido ter extremos que cruzam com requinte e facilidade, e um sistema de jogo fortemente apoiado nas asas, se temos um Nuno Gomes para concretizar. Isto mais parece a tragédia das nozes e dos dentes.
d) Mesmo que não equacionasse colocar o Ronaldo como titular, concedo que não o fizesse de início contra a Polónia, há situações do jogo que obrigam a situações de recurso e convém tê-las minimamente treinadas.
e) Quando vemos Quaresma e Nani no banco e o Nuno Gomes a jogar ficamos com a sensação de que há algo de muito estranho nas lógicas que estruturam o sucesso em futebol. Essa estranheza, que decerto o Joaquim partilhará é, nalgum sentido, a singela revelação de que algo não bate bem no que seja o futebol -- ou o Scolari por ele.

Jansher Khan

"Most of the times his opponents are thinking: what have I got to do to make the ball bounce twice"


P.O. o bigode do homem é precioso. Desporto de yuppies? Aquela farta pelugem camuflando o lábio superior do "maradona paquistanês do squash" é exactamente o disclaimer que eu andava à procura.



La Notte, 1961, Antonioni

M18

Ouvido há dias, junto à zona de frio do Pingo Doce, numa conversa entre dois cavalheiros que andariam pelos vinte e poucos:
"Ó pá, só te digo: ela tem uma cona escultural".

Como disse? Estou relativamente familiarizado com as representações da vagina na pintura e na fotografia. Já na escultura, confesso, escapa-me um património que cubra evocações cintilantes dessa temática. Desconheço portanto se a metáfora teria um sólido correlato artístico onde se fundar ou se, como creio, tropecei em denodadas liberdades poéticas.

P.S.
Por demais querida, a shyznogud auxilia-me numa singular demanda por "conas esculturais", literalmente. Este exemplar é de facto bem achado:

Sofrer-lhe a ausência

Dizia, no post atrás, usando a escultural modelo como metonímia, «só desfruta realmente de Gisele quem se "socializa" em sofrer-lhe a ausência.» Pois. Mas isto do exagero em tecê-las, e se as tece... (sigh), antes a "leveza Santoriona".

Gisele

Rodrigo Santoro diz que Gisele Bündchen não foi importante em sua vida.

Nada me move contra a cumulação de relacionamentos, muito menos pruridos de ordem conservadora. Admito que se me chamasse Rodrigo Santoro a teoria pudesse ser outra, no entanto considero que existe na biografia erótico-amorosa um precioso ponto de encontro entre a experiência e a memória. Acontece que quando a memória é violentada pela estatística temos um excessivo domínio da experiência. Se há algo de intrinsecamente erótico na nostalgia, se há algo de inapelavelmente fugaz na experiência, então da Gisele pouco aproveitou. Ao contrário do que preconizam as lógicas marialvas, só desfruta realmente de Gisele quem se "socializa" em sofrer-lhe a ausência.

p.s. Aceito sugestões de imagens para ilustrar este post.
P.s2. Como não encontrasse nenhuma foto que satisfizesse os anseios da dri -- o Santoro em pose de chanel nº 5 com a Nicole Kidman --, juro que tentei, acabei por aceitar a sugestão da Susana. Ei-la.

Roupa na corda

Agosto. Comigo desamparado em vastas tarefas domésticas e com os vizinhos ausentes, a fachada traseira aqui do prédio veste-se de uma graça estival: roupa fora de moda disseminada sem critério aparente pelos estendais (fora de moda no sentido em que nunca esteve dentro). Mas o critério existe, bem, pelo menos existe uma origem comum. É que o meu jeitinho para estender roupa levou a que durante as semanas de Agosto as peças do meu parco vestuário se espraiassem, sem apelo, nas cordas da vizinhança de baixo. Para mim o início de Setembro é pois o tempo de ritual de reclamar a roupa que resta pelos andares afora. Uma máquina de secar urge? Talvez. Mas temo sinceramente pela sobrevivência dos vizinhos. É que de outro modo não vejo como poderão continuar a existir.

Foucault meets Borges

Os homens aparentemente infames, devido às memórias abomináveis que deixaram, aos delitos que cometeram, ao venerável horror que inspiraram, são, na verdade, homens de lenda gloriosa, mesmo se as razões dessa notoriedade são contrárias às que constituem ou deveriam constituir a grandeza dos homens. A sua infâmia é apenas uma modalidade da fama universal. (...)
[Já] a infâmia em sentido estrito é aquela que, não se confundindo com o escândalo ambivalente ou com a admiração inconfessável, nada tem a ver com qualquer espécie de glória. Michel Foucault (minha tradução)
As personagens da Historia Universal de la Infamia que Jorge Luis Borges "coligiu" são, na verdade, representantes da fama universal, conforme formula Foucault. Neles se poderia contar Sade, para entrar no cosmos do francês, um infame glorificável, ao contrário, por exemplo, do herói impossível de Foucault, Piérre Rivière (consta que degolou a família). Este jogo tenso entre o delito capaz de merecer admiração e aquele que, como o de Rivière, arredado está da história universal da fama, aponta para uma sensibilidade cultural que zurze fronteiras já bem dentro dos territórios do ilícito. Aquele espectro variável de eventos que dentro da ilicitude, da ilegalidade ou da imoralidade nos pode ainda fascinar não se resume à lei que nos rege ou àquilo politica e eticamente acreditamos. A experimentação infantil dos limites, a celebração da rebeldia, ou a pura dúvida de que poderemos ter nascido na tribo errada são, sob a forma de fascínio, constantemente convocados para a história universal de Borges, a infâmia no sentido de fama. Fora dessa possibilidade de encanto fica aquilo que a nossa tribo nos convenceu com sucesso ser universalmente inominável: a infâmia em sentido estrito.

"Decisão Pessoal"

Na colecção de factos da novela que hoje encontrou o seu desfecho, muita comunicação social preferiu abster-se de sequer mencionar a saída de Paulo Teixeira Pinto do Opus Dei. Esse pudor parece cumprir a respeitosa separação entre o público (os jogos de poder no maior banco privado português) e o privado (a vida confessional dos protagonistas); o que, face aos "abusos de intimidade" que por aí se vão vendo, até seria de saudar. No entanto, ao contrário de muitos casos em que a análise das esferas privadas das figuras públicas coreografa um voyeurismo vagamente pulha, na "trama BCP" ficamos com a sensação de que o suco da história ficou deliberadamente por contar.

O elemento perturbador na definição das fronteiras prende-se com a própria teologia da Opus Dei, organização onde a fé e a confissão, senda privadas, reclamam por fortes correlatos públicos. Paulo Teixeira Pinto tomou uma decisão pessoal, estamos em crer, quando deliberou sair da Opus Dei. Depois de tanta gincana pública, depois de duas assembleias-gerais que foram abertura de Telejornal, depois da arregimentação táctica de accionistas de parte a parte, não deixa de ser uma revelação subtil que agora Paulo Teixeira Pinto refira razões pessoais para abandonar o BCP.