Gualter Baptista

Junto-me nas boas-vindas ao Gualter Baptista. Afinal um tipo que concita tanto despeito na direita blogosférica deve ter algumas qualidades. Começa com auto-ironia e capacidade de se rir de si próprio, um bom sinal.


P.S. A iniciativa do milheiral de Silves merece o meu repúdio, tanto pelo alvo escolhido (o proprietário agrícola, a pessoa lesada) como pelo equívoco estratégico de que essa escolha enfermou (a simpatia da opinião pública, fundamental capital político, iria sempre para o agricultor). Aliás bastaria antecipar o efeito da circulação da palavra "agricultor". O agricultor aparece nos media em situações de calamidade ou como iterativo representante de um certo país que se vai extinguindo com particular severidade para os seus últimos "habitantes". Em qualquer economia simbólica que pudéssemos antecipar o "agricultor" já estaria em stasis de desgraça antes mesmo de lhe pisarem o milho. A expressão "pobre agricultor" resulta, na verdade, como uma redundância entre o denotativo da primeira e o conotativo da segunda.
Mas -- volto ao princípio -- aos posts tantos, tal como o agricultor o foi, o Gualter tornou-se um alvo fácil, à mercê de ideologias várias e de uma pletora de activismos que andavam à espera de pretexto. Sinceramente, não creio que a inciativa de Silves venha a ajudar a que o debate sobre os OGM se torne agora mediático e substantivo, no entanto, tanto enxovalho produz sempre um movimento contrário que, quem sabe, até pode ir parar aí.

Fernando Santo

Ando aqui a trabalhar num puzzle com estes três termos: 1- Fernando Santos; 2- Poder de encaixe; 3- justiça divina.

1- O primeiro puzzle que montei remete para a tese de que o Fernando Santos é uma boa pessoa com um excelente poder de encaixe porque acredita que a justiça divina irá agraciar pela seu bom carácter, apesar das más companhias (acho que acredito neste).

2- O Segundo que montei desenha a ideia de que o Fernando Santos tem um excelente poder de encaixe, mas é uma boa pessoa apenas em aparência. Ou seja, ele acredita no lado positivo da justiça divina, que se ele se portar bem sim senhor ainda terá a sua compensa, mas também no lado negativo da justiça divina, qualquer coisa como isto: "porque é que eu vou estar a maçar-me a mandá-lo à merda se "Aquele que tudo julga", daqui a uns dias, arranja algum expediente criativo para gulosas formigas lhe saírem pela boca." Neste caso Fernando Santos já não seria uma boa pessoa, mas uma pessoa sábia a gerir o seu dispêndio de energia em função de uma economia mais ampla: no fundo acredita que alguém tratará da saúde aos seus carrascos e mais vale ir para Fátima aproveitar o que resta de Agosto.

3- O terceiro Puzzle substancia a ideia que Fernando Santos não tem maturidade moral para perceber um mau carácter nem quando o vê a passar férias com o treinador que o viria substituir. Este ajuntamento de peças faz supor que Fernando Santos acredita que, quando foi despedido, o Benfica ainda não tinha treinador "apalavrado" e que tanto podia ter vindo o Camacho como o Mário Wilson. A ser assim Fernando Santos será aquilo que em psicologia infantil se chama um inimputável às avessas: não tem discernimento para distinguir o mal nos outros.

Não sei qual das teses tem mais compleição de verdade, mas Fernando Santos é impressivo na sedimentada convicção de que não haverá muitas pessoas assim:
1- Num debate sobre o aborto, contra qualquer calculismo político, afirme compungido, pedindo desculpas a quem discorda, que os seus valores o levam a defender a vida em qualquer circunstância e que, portanto, não só é pelo "não" como é contrário, por defeito, à lei actual (a que vigorava antes do referendo). Por ele não deveria haver quaisquer excepções.
2- Nunca tenha mandado à merda os adeptos do Benfica que o acenavam com lenços brancos enquanto ele fazia milagres num plantel onde pontuavam Manu e Paulo Jorge.
3- Nunca tenha contradito Mantorras que a certa altura se veio queixar que podia jogar 90 minutos (Camacho já disse que ele só volta quando acabar a sua "recuperação especial")
4- Não tenha batido com a porta quando lhe venderam o Manuel Fernandes um dia antes da pré-eliminatória da Liga dos Campeões.
5- Tenha vivido em silêncio o pesadelo de lhe venderem o Simão abaixo da cláusula, conforme prometeram que jamais fariam.
6- Nunca se tenha queixado das ausência de José Veiga que, disse-o mais tarde, era o único que defendia o balneário da estrutura do Benfica
7- Tenha consentido que os comentadores do trio de ataque lhe fizessem perguntas e o interrompessem cada vez que ele balbuciava uma palavra para poderem tentar adivinhar de forma estruturada as várias hipóteses de resposta a partir da primeira sílaba da resposta.
8- Ainda se afirme benfiquista

Mário Crespo

Com as lideranças partidárias frouxas, a direita parece ter encontrado o seu herói nas forças vivas da sociedade civil. O novo herói da direita chama-se Mário Crespo e talvez não desejasse exactamente essa fama.

Triplo Salto

Sempre reputei de moderadamente parva que uma prova olímpica que se baseia na distância que um ser humano consegue percorrer em três saltos consecutivos. Parece que vem dos jogos populares celtas, mas a wikipedia não é esclarecedora nesse particular. Uma disciplina de salto que colocasse os contendentes a saltar à corda enquanto cantarolavam uma música teria uma dimensão olímpica mais óbvia.

"Against the criminalization of critical academic research and political engagement"

Eis aqui um cintilante exemplo dos desmandos da deriva securitária anti-terrorista, versão alemã. As novas bruxas, pois.

1-0

Da série "É reparando nestes detalhes que restauro a minha fibra moral.":

Sentado na mesa com dois sportinguistas fui moderadamente efusivo no festejo do golo e ainda dei algum crédito às dúvidas sobre a sanção do livre indirecto.

P.s. Soubesse o Paulo Bento falar Sérvio e tudo poderia ter sido diferente.

"Vira à sinistra na rotunda ao pé da Makro"

Esquerdo: "esta palavra [provém] do basco ezker («metade da mão», ou seja «má mão», por a terminação basca –erd significar «imperfeito») — o termo suplantou na Península a palavra derivada do latim sinistrus (em castelhano siniestro, em português sinistro), depois de durante muito tempo ter com ela concorrido."*
Aparece-me deveras curioso que uma palavra tão corrente e central na nossa língua nos venha do basco, esse insólito linguístico. Na verdade o basco/euskera é a única língua não indoeuropeia da Europa ocidental. Supõe-se que constitua testemunho de um tempo anterior à ocupação da Europa pelos povos indo-europeus. Os linguistas já tentaram estabelecer aproximações com as línguas camito-semíticas, como o berbere, com várias línguas ameríndias e até com o japonês. No entanto a hipótese mais sustentada aponta para uma ligação possível as línguas do Cáucaso, área geográfica de onde seria originário o povo linguístico que se espalhou pela Europa no período pré-Indo-europeu. Aliás, esta suspeita de ancestralidade comum esteve na base da geminação entre Bilbao e Tiflis, a capital da Geórgia.

*Walter, Henriette, 1996 (1994), A Aventura das Línguas do Ocidente: A sua origem, a sua história, a sua geografia, trad. por Manuel Ramos, Lisboa: Terramar. [grato pela sugestão]


Somague

Eu já apoiei financeiramente uma campanha eleitoral. Comprei uma rifa ao BE esperando sinceramente que me saísse o cabaz de Natal. Mas isto da Somague não é bem a mesma coisa, pois não?


À atenção de Carlos Daniel

Há muitos benfiquistas e sportinguistas que percebem e sabem falar inteligentemente sobre futebol (hoje acordei obscenamente generoso). Dito isto, alguém me explica porque é que naquele programa que dá pelo nome Trio D'Ataque os suportáveis Carlos Daniel e Rui Moreira se fazem acompanhar por dois cavalheiros cuja perspicácia discursiva e sentido de jogo não serviriam para manter conversa na tasca da esquina? Já agora permitam o aparte: o modo como Fernando Santos encaixou ontem as inúmeras vezes em que Rui Oliveira e Costa e António Pedro Vasconcelos o interromperam, naturalmente para desfilarem os disparates do costume, constitui para mim prova bastante para a canonização -- muito a sério, admiro-lhe a têmpera: Fernando Santos é uma boa pessoa a caminho da santidade que escolheu o mundo do futebol como arena de provação.

Mas a questão que não pode deixar de se colocar é a do critério de casting destes programas. Parece que o futebol precisa de se legitimar pela presença de pinos falantes com provas dadas noutras áreas da vida pública a despeito de tudo o mais, sirva-se o buffet: realizadores, apresentadores, músicos, advogados, estatísticos, políticos, etc. Sinceramente, faz-me confusão esta mal disfarçada necessidade de libertar o futebol (e a filiação clubística) dos resíduos de descrédito social, imagine-se, como se o prestígio profissional dos comentadores, independentemente do que tenham para dizer, funcionasse per se como uma espécie de Cilit bang que automaticamente desengordura o estigma popularucho-passional do ser adepto. Experimentem pôr lá gente que tenha algo para dizer. A verdade é que o Rui Oliveira e Costa e António Pedro Vasconcelos, (qual tasca da esquina!) até ali sobressaem como maus demais.

Avulsos

---"... a coisinha mais assombrosa a que (seguindo o formato), às 23:53 de 17/8/2007 me lembro de recentemente assistir, foi o Henrik de Börje Ahlstedt no Saraband. A sua transição de registos, da candura ao ódio sem senão, sem qualquer barreira divisória escolástica na expressão, na prodigiosa conversa com a Liv Ullman na igreja, e a humilhação infantil na face de Erland Josephson, dão um vislumbre abissal desse interno turbilhão nuclear onde todas as emoções se mesclam e colidem violentamente sem compartimentação. E em boa verdade, o facto de ser a ruína de homem mais comovente, e que toca Bach, dos últimos tempos, também ajuda".

Avulsos

---"Se existe uma agremiação chamada Jews for Jesus, porque não uma outra intitulada Losers for Nietzsche? É uma associação urgente. Eu venero cada linha de Nietzsche, mas estou sempre do lado que ele despreza: do lado cristão, compassivo, fraco, derrotado ou, como ele dizia, «feminino». Eis então um desafio: seguirmos grandes ideias que levam ao nosso extermínio. Contem comigo."

Vegansexuais

Leio e soçobro: "Os vegansexuais são pessoas que não comem carne nem produtos animais e que recusam ter proximidade sexual como parceiros não-vegans, cujos corpos, dizem eles, são feitos de animais mortos [como disse?]".

Como já aqui defendi, entendo ser salutar uma ética de consumo que penalize a crueldade desnecessária para com os animais (na criação, no transporte e no abate). Mas, não querendo ser um contra-fundamentalista (imagino situações que me fariam tornar um vegansexual em segundos), esta reactualização de preceitos religiosos de pureza (é ler o Levítico, Deuteronómio e Mary Douglas) causa-me alguma consternação. Trata-se de sacralizar como puros os corpos que comem saladas face aos corpos contaminados pelo bife da vazia. Nem vale a pena ridicularizar muito mais. Da forma que eu leio a questão, inaugura-se aqui a possibilidade de sermos sexualmente rejeitados por razões injustas. O que, diga-se, pode quebrar o elo de harmonia social que classicamente une o enjeitado às razões da sua detractora (componham o género da frase a vosso contento). Quanto ao mais, aspergir sexo com pureza e preceitos de superioridade moral é coisa que não se segura (milénios de história deviam servir para alguma coisa). Sem o perceberem, os vegansexuais entronizam qualquer carnívoro com o charme de um interdito. Ao mesmo tempo, fomentam o sexo não endogâmico como uma arena de tentação e conquista de onde saem sempre a perder.

Avulsos*

--- "No Domingo joguei uma peladinha - num magnífico relvado - no Central Park e não abusei das fintas ao marido gringo de uma antiga namorada. É reparando nestes detalhes que restauro a minha fibra moral."

*Título que encimará o efeito represa que este blog for performando nas minhas leituras pela bloga. Tratará de adesões subjectivas de vária ordem aqui trazidas sem mais comentário.

200

Há poucos dias morreram 200 pessoas no Iraque numa série de 4 atentados. É verdade que há atentados com maior significado geopolítico do que outros (sendo que isso se mede já em termos daquilo que nos toca). Mas importa lembrar: morreram 200 pessoas, sensivelmente as mesmas vidas que foram cobardemente arrancadas no 11 de Março de 2004 em Madrid.

1-2

Carolina Salgado, baseada em ressentimentos verídicos (não preciso de teorias da conspiração, um amor magoado basta-me para perceber verosímil a sede de vingança), numa obra cuja margem de ficção se anda a apurar na justiça, contava uma preciosidade que não resisto repescar*. No período final da relação, dizia ela, era costume o seu companheiro e presidente do F.C Porto justificar-lhe idas rompantes ao estrangeiro com negócios que tinham por fito a venda de Quaresma. Carolina, suspeitando de outra mulher além-fronteiras, sentiu-se enganada, tanto mais que, segundo ela, prova suprema da inabilidade da mentira, a fazer fé no móbil da viagem, Quaresma já teria que ter sido vendido umas boas 5 vezes.

Hoje Quaresma marcou dois golos pelo Porto no primeiro jogo do campeonato. Quaresma é o abono de família do Porto há tempo demais. As dependências aprazadas dão sempre ressacas terríveis. Se o período pós-Jardel não foi inteiramente traumático, o pós-mourinho exige ainda fortes medidas paliativas (Ligas nacionais e assim).

Não sei se Pinto da Costa usou tal logro, nem sei se os factos relatados por Carolina têm alguma correspondência com a realidade. Mas, no meio disto tudo, e por muito que o espectro da partida de Quaresma nos continue a assolar as noites, se isso significou retrospectivamente um não-acontecimento (a não venda de Quaresma), não posso deixar de ficar feliz por alguém ter faltado à verdade.

* Não comprei o livro. Determinados "livros técnicos" folheio-os em pé na livraria assim como para apanhar o ar do tempo.

Lá estarei no sofá

Grande Hotel. Domingo, 19, 21:00 RTP.

Até mais

Robert Doisneau

Volto daqui 7 a dias.

Do desbaratar

Com posts com este, Vital Moreira investe-se, paulatinamente, em desbaratar seu capital de credibilidade na análise da vida politico-partidária portuguesa. É todo um resvalar da economia discursiva para a estreiteza da trincheira:
1- Se objectivo é produzir uma opinião crítica, idiossincrática e credível (para não dizer independente) que beneficie a vitalidade democrática da opinião pública e lhe guarde autoridade/influência, está demasiado colado ao governo (as discordâncias, que as há, desculpará a frontalidade, não elidem este retrato que se vai tornando senso comum para quem o lê);
2- Se o objectivo é defender o governo, deveria intervir nesse sentido mais pontual e cirurgicamente para que o seu capital de credibilidade -- que o tem -- não se dilua completamente nos movimentos mecânicos esperáveis a um intelectual orgânico incrustado no aparelho do partido de poder.

Vai!

Não vai.


Amigo senhor, saravá, Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha, não vá, que muito vai se arrepender
[canto de Ossanha, Vinícius de Moraes]








É verdade. Ultimamente ando um portista entre o crítico e o desencantado. Ora, basta ir a um café para perceber que para dizer mal do Porto temos todo um país acotovelar-se ao balcão. Por isso, sem prescindir das prerrogativas de quem sabe já ter vivido em melhores tempos, contem comigo para o que aí vier. Começamos com um boicote à Tap?

Dizem-me com razão que o Lucho está sobrevalorizado. Mas já vos digo que é assim mesmo. Ele jogará sempre menos do que aquilo que achamos que lhe seria possível. A explicação até é prosaica. O facto de Lucho jogar menos do que vale, ao contrário do que se fez crónica corrente, não decorre do matricial sub-rendimento físico (pois, isso também). O que sobrevaloriza Lucho dá pelo singelo nome de "classe". Ora, por definição, a classe não se põe a render, não se põe a jogar e pronto, pelo menos não inteiramente. A classe insinua-se, mostra-se, esconde-se, seduz, e factura furtivamente escarnecendo o jogo que vagamente joga. É importante que a classe de Lucho nos acompanhe, não porque tenha que fazer isto e aquilo, mas porque é importante ela estar lá.

Há também uma dimensão moral nisto. Se Quaresma se ficasse só, seria, objectivamente, "a estrela que ficou para trás". Assim, com Lucho ali por perto, essa narrativa deprimente deixa de ter por onde.

Confissões sazonais

Habitar pleno Agosto uma cidade desocupada, exposto ao silêncio, à solidão e à ausência dos que amamos, não é, ao contrário do que poderíamos supor, um límpido somatório de vantagens. Explico: com as migrações sazonais vai-se também o quorum que durante o ano garante a cadência bi-semanal de jogos de futebol de 5 (versão relva sintética e versão tacos madeira); eventos dramáticos mais marcados pelo sentido épico com que os contendores o vivem do que pela voluptuosidade da arte, objectivamente explanada. Isto em localidades munidas de equipamentos desportivos ancoradas a uma toponímia tão deprimente como "Pé de Cão". Estão a ver o filme decadente: 10 gajos que um dia sonharam sustentar luxos de fama a jogar à bola -- alguns deles meus ex-companheiros de Académica e Montemorense (sim, eu sei) -- remetidos a sustentar o aluguer semanal dos pavilhões de província (também jogo num pavilhão no centro da cidade, mas isso não é tão cinemático para o efeito que aqui procuro).

Mas, ainda mais deprimente que esse devir é ficar privado dele. Que fazer? Busco saídas airosas. O Jogging aborrece-me de morte. Se ainda é suportável em cidades calafetadas contra a modernidade suja por parques e espaços aprazíveis, bem à mão de semear, em Coimbra qualquer passadeira rolante com ventoinha e vista para a tv-cabo ganha vantagem. Impasse total. Primeiro ainda tentei natação, excelente opção aqui mesmo ao pé de casa com excelentes condições: piscina olímpica, balneário de luxo, horário flexível, 2 euros por utilização. Só que aquilo de andar para a frente e para trás, ou seja, fazer piscinas, entedia-me ao absurdo (quer dizer três pistas seguidas de crawl e fico para morrer, de modo que para descansar nos intervalos, eu é mais bruços). Ademais não dá para ir nadar com auriculares a ouvir música, seria talvez a única forma de mitigar o enfado de andar ali em constante suplício físico, enquanto na pista ao lado um gajo qualquer com calções ridículos pela virilha se diverte a ultrapassar-me. Para cúmulo, nem o jogging nem a natação exercem um apelo mínimo de competitividade que permita diluir o esforço físico no gozo de um golo ou de uma finta bonita.

Parti para ao jorky ball, uma espécie de futebol em miniatura, um jogo de dois para dois praticado num cubículo. Na verdade o jorky ball é um desporto estúpido cheio de regras chatíssimas, feiíssimo de ver. Mas é possível alugar o espaço e usar a bola para fazer algo que mais se pareça com futebol. Não desgosto, e o ritmo que a coisa atinge, assim despido da ganga das regras, puxa que não é brinquedo. Mas a gerência do Jorky Ball fechou para férias. Atingido pelo desespero cheguei equacionar ir jogar ténis. Mas ao contrário de outros desportos de raquete (sou vagamente competente no ping-pong e no badminton), o ténis não é praticável quando os jogadores são desprovidos de um nível mais elevado (é o caso). Portanto, para o espectáculo triste de ases seguidos de duplas-faltas, não estou. Eis quando surge a ideia de squash. Squash? Hesitei, afinal são quase três décadas a conceber o squash apenas como um dispositivo narrativo usado na ficção para dar moldura a diálogos ofegantes, quase três décadas a ver um squash como um desporto jogado por executivos de meia-idade, quase três décadas orgulhosamente a celebrar os desportos populares escarnecendo o lazer estereotipado das elites. Naturalmente entrei no ginásio grã-fino alugado à hora (onde mais se podia jogar squash?) sem dar conversa, respeitando as distâncias (houve só aquele momento em que tive que perguntar as regras, todas) . Experimentei e a verdade é que já comprei uma raquete de squash. Não levo elegância ao desporto, mas, estranhamenente, há ali uma dimensão física que vai bem com uma ética de generosidade proletária. O esforço perde-se no desejo de ganhar e a técnica aprimora-se numa resistência contra a humilhação a que um principiante se sujeita.

No fundo precisei desta longa contextualização para, sem sombra de mal entendido sobre os traços fundamentais da minha identidade, poder confessar: joguei squash e gostei.

Hamilton vs Alonso

"When Alonso was told by his McLaren team that Hamilton, then the reigning GP2 champion, would be his partner for 2007, he was a little nonplussed. After all, fellow countryman Pedro de la Rosa, who had replaced mercurial Colombian Juan Pablo Montoya partway through the 2006 season, was an experienced racer. Would Hamilton be able to score sufficient points to help the team to win the constructors' championship, Alonso wondered politely." [toda a história]
A história que está a dar alguma graça ao sensabor pós-senna que acometeu a fórmula 1.

União de Tomar

Por muito que me custe ver pessoas que gosto porem fim a relações, penso sempre que o Eusébio não se devia ter arrastado até ao União de Tomar.

Pet

Liv Ullmann:
"Eu tinha uma cadela que se chamava Pet. (...) Ingmar [Bergman] entrou na sua vida e a desconfiança foi grande, de parte a parte. Ele tentou subornar amigos meus para o ajudarem a livrar-se de Pet. Pediu-lhes para a levarem para uma rua com tráfego intenso, para a enviarem para um repouso final num veterinário, ou deixarem-na do outro lado da cidade. Mas ninguém concordou. Perseguíam-se os dois, furiosamente pelo meu apartamento. Um dava pontapés, o outro mordia. Nunca mais tive permissão para lhe dar palmadinhas, ou mostrar qualquer tipo de carinho enquanto ele estava lá, e ela rosnava, ao ver Ingmar pegar na minha mão.
Quando me mudei para Farö, Pet acompanhou-me mas foi uma hóspede muito mal aceite. Recebeu o menor armário no corredor da cozinha, como lugar de dormida. A sala de estar estar estava fora do seu alcance. Tivemos que trocar carícias às escondidas, quando ele estava na praia, ou no seu estúdio. (...)

Quando deixei a casa, cinco anos depois, estavam os dois juntos, à porta. Pet cheirava o chão, talvez estivesse um tanto envergonhada pela sua traição. Agora, ouço dizer, que ela, já com quinze anos, fica deitada na escrivaninha dele, quando novos guiões estão a ser escritos"Liv Ullmann, Mutações

Bergman


Entrevista com Liv Ullmann:
Costuma falar sobre a morte com Bergman?
Sim, às vezes. Não temos propriamente a mesma opinião. Ingmar quer acreditar piamente que há uma vida depois desta. A mim, isso não me interessa tanto. Desde 1974 ou 1976, já não sei bem, falamos ao telefone todos os sábados. Os temas variam, às vezes são muito pessoais. Às vezes não temos nada para dizer, mas podemos sempre falar! Partilhamos tantas referências comuns, trabalhámos tantas vezes juntos.
Do que falaram no último sábado?
Foi muito privado, ele tinha dores de estômago. Aprendemos com Strindberg a misturar trivialidade e grandiosidade, a merda e os céus... Strindberg significa tanto para Ingmar e para nós todos.

Desactivar o modo aleatório

A única coisa que gosto no Windows Media Player é a carga existencialista com que se descreve a possibilidade de.