VB

"(...) se refiro a tristeza é por ter identificado recentemente uma situação que a induz em estado puro: o fim do amor entre as pessoas que nos são queridas."
O Vasco Barreto é um caso típico de alguém que se despede para voltar em melhores condições. E volta. Sempre muito bom, cada vez melhor.

Touros e Touradas II

Amigo Luís, repescando alguns elementos que lanças em novo post, assim como algumas questões debatidas nos comentários, atiro-me a mais umas notas:

1- Por muito sedutor que possa ser um arquétipo mais ao menos caricatural do "anti-touradas", haverá certamente todo um amplo espectro de motivações e argumentos que se conciliam entre os que, como eu, repudiam as touradas.

2- Pessoalmente, talvez por viés de formação, ligo pouquíssimo ao discurso da superioridade civilizacional contra a barbárie (esse mundo do arcaico e primitivo). Não por acaso os gregos inventaram a palavra na origem do nossa "bárbaro" a partir dos sons que com que jocosamente imitavam todos que falavam outra língua que não grego (em vez de blá-blá seria uma espécie de brá-brá). O discurso da civilização carrega arrogância na maioria das vezes, surge, quase sempre, não como argumento, mas como forma de fuga aos argumentos de quem espera que o prestígio cultural da civilização fale por si (seja o prestígio cultural do Ocidente, da Europa ou da Europa não atrasada).

3- A minha desconfiança de princípio face à dicotomia civilizado vs bárbaro não me impede de perceber uma curiosa sobreposição. É naqueles que têm por hábito puxar dos galões da "civilização" para outras questões que leio a alegada barbárie da tourada ser prontamente descartada por apelo a um surpreendente relativismo que valoriza a tradição nacional e o hábito patusco de se apunhalarem touros a trote. Sempre há relativismo, afinal.

4- Parece-me apenas burlesco o argumento segundo o qual quem come carne fica automaticamente cúmplice das touradas ou impedido de se lhes opor. Mais, ao contrário do que o Luís supõe, as associações que se se manifestam contra as touradas também têm uma posição activa face as condições de transporte e abate dos animais que chegam às nossas mesas.

5- Diferentemente de uma tourada, em que o sofrimento até à morte demora o tempo exigido pelo espectáculo, aí se decalcando os termos da exposição ao sofrimento do touro, a legislação nacional regula as circunstâncias da morte nos matadouros: estabelece como um dos primeiros imperativos que se evite todo o sofrimento desnecessário. Naturalmente isso não nos descarta: a massificação e os prospectos de lucro constituem uma forte pressão sobre as condições impostas aos animais que fazem parte da nossa cadeia alimentar. Em todo o caso, a minha medida de "sofrimento aceitável" não será certamente a tourada.

6- Não é essa a minha linha. Mas parece-me legítimo que se possa questionar o próprio "espectáculo do sofrimento" sem ser apontado como hipócrita sob silogismos tortuosos do género: "se não gostas do espectáculo do sofrimento é porque preferes que o sofrimento exista longe da vista". Entendamo-nos. Primeiro, a tourada não expõe algo que lhe exista previamente: o calvário do touro resulta do espectáculo que foi montado em seu nome (por assim dizer), a tourada. Segundo, a socialização na tourada leva a uma trivialização do sofrimento que ali perpassa nas vestes bovinas, banaliza-o. Isto mesmo referia vagamente o Luís, no seu primeiro post, autobiografando-se. Também o Rogério toca no assunto: "durante a infância, o espectáculo assumiu a banalidade do que é familiar (e poucas coisas são mais banais para uma criança do que aquilo que os avós gostam de ver na televisão)".

Luís, fixando este efeito de banalização, deixa-me que te pergunte: tu que cresceste entre touros e toureiros, não estarias à partida fortemente condicionado para não perceber ali a violência que eu e outros vemos latejante? É que ao ler-te o que percebo, longe de sincera convicção pró-touradas, é apenas uma nostálgica solidariedade com as origens. Algo que naturalmente valorizo.

Correia de Campos

É uma pena que não esteja no youtube aquele primor de conferência de imprensa em que Correia de Campos justifica o caso do cartaz. Meus caros, está lá tudo.

Touros e touradas

A propósito do último post, o caríssimo Luís Carmelo provoca-me com graça: "também alinhas nesse movimento anti-touradas? (ou tudo não passou de um toque irónico nessa res chamada "Casa do Pessoal da RTP")?" Por fim, qual ordália endossa-me um convite: "Eu, pelo meu lado, vou tentar, este ano, finalmente, ver o concurso de ganadarias na nova Arena de Évora. Queres vir comigo?"

Quanto ao convite resolve-se bem. Caro Luís, enquanto dura o concurso eu fico à tua espera na tasca mais próxima a emborcar vinho da casa (em Évora o risco é baixo) enquanto pico chouriço (confirma-se, não sou vegan) e azeitonas temperadas com alho e azeite. É provável que na tasca contígua a praça me façam companhia algumas mulheres de toureiros que, como eu, tenham estômago fraco para o toureio mas não para a vinhaça (repare-se como desmonto a história do copo de leite insinuando a minha extrema masculinidade - tasca, vinho - ao mesmo tempo que ameaço a dos toureiros).

Mais a sério: sim, Luís, pode-se dizer que alinho no movimento anti-touradas. Vou explicar a minha posição como se fosse um plano para duas ou três gerações. Os meus termos são estes: tendo a plena noção do papel cultural e identitário que a tourada ocupa não prevejo que seja erradicada por decreto. Mais, se por absurdo me fosse dado esse poder não o utilizaria qual força repressora que impõe os seus valores evagelicamente cortando a direito. Mas, como membro de uma sociedade nacional que pratica a tourada, participo no espaço público que a reprova. Vejo-a como um espectáculo cultural de alguma beleza cénica onde a demonstração da virilidade cultivada numa sociedade pastorícia se joga contra o espectáculo do sofrimento de um animal. É este último elemento que me é decisivo. Contento-me, portanto, em ser parte de um espaço público que repudia a tourada pelo penoso sofrimento imposto ao touro e que procura isolar essa prática fazendo-a regredir. A regressão far-se-ia quer pela pela má consciência eventualmente gerada nalguns aficionados, quer por um bloqueio na adesão das novas gerações (mais ou menos isto), até à altura em que o tal decreto proibicionista se tornasse pensável porque menos acintoso às práticas e às identidades que se ligam à tourada (o relativismo leva-me a ser muito cauteloso com o evangelismo violento do progresso e com as identidades feridas) . Ora, este meu plano maquiavélico intui que já há na sociedade portuguesa oposição apaixonada às touradas com suficiente abrangência para comprometer as "marcas" que se lhe associem, por exemplo RTP ou TVI. Por isso, as corridas apoiadas pelas televisões são os meus alvos predilectos. As audiências contrárias à exibição de touradas têm o poder de penalizar os canais, canais esses que, chegará o dia, perceberão que é contraproducente para a imagem estarem a associar-se a um espectáculo enfaticamente repudiado por tanta gente. Portanto, confirmo as tuas suspeitas de que post abaixo seria (e é) todo um programa. Vemo-nos em Évora, mas numa qualquer outra praça, daquelas com esplanadas e , já agora, sem touros a verter sangue.

Casa de Pessoal da RTP


A Casa de Pessoal da RTP leva a efeito no dia 28 de Junho a tradicional "CORRIDA TV", na Praça de Toiros Amadeu Augusto dos Santos, no Montijo.
Eu pensava que as "Casa de Pessoal" serviam para assegurar infantários e organizar quermesses. Está bom de ver que o pessoal da RTP é assim mais para o reteso.

Bodies that Matter*

"O corpo é o veículo do ser no mundo, e ter um corpo é, para um ser vivo, juntar-se a um meio definido, confundir-se com certos projectos e empenhar-se continuamente neles." Merleau-Ponty, Fenomenologia da Percepção.
P.S1. Declaração de interesses: a ser alguma coisa, antes de construtivista seria fenomenologista. Não concebo Foucault sem Merleau-Ponty: o corpo por que nos ata ao mundo precede qualquer possibilidade de pensar esse mesmo mundo. Ademais, nas infinitas versões possíveis para descrever, perceber e construir o real, a existência corpórea (não há outra) impõe as suas formas ao pensamento, ela forja as metáforas de que dependem as mais básicas operações intelectuais: "Mas que sentido poderia ter a palavra “sobre” para um sujeito que não estivesse situado por seu corpo ante o mundo?" (M-Ponty).
P.S2. Além da contagem de indivíduos envolvidos, uma das distinções possíveis entre a masturbação e a relação sexual poderá bem estar nesta singela asserção "duas mãos [do mesmo sujeito] nunca são ao mesmo tempo tocadas ou tocantes uma em relação à outra" (M-Ponty). Ou seja, sempre que tocamos outra parte do nosso corpo, sempre que nos tocamos, há a parte que toca e a parte que é tocada. Os papéis podem reverter-se, mas a simultaneidade é impossível para a consciência. Já o sexo, por envolver mais que um corpo -- ao que consta -- permite essa simultaneidade: tocar e ser tocado numa mesma fracção de tempo.

*Título roubado a Judith Butler.

Democracia orçamental

Pedro Magalhães, hoje no Público
Já tivemos um investimento público estratégico aparentemente decidido na calma e na ponderação dos gabinetes, por pessoas repletas de "competência técnica" e insensíveis às pressões da opinião pública ou às "politiquices". Chamou-se porto de Sines. E também já tivemos outros - CCB, Casa da Música, Alqueva ou estádios do Euro 2004 - que foram transformados em inquestionáveis "desígnios nacionais" pela passividade da opinião pública e pela colusão entre partidos e interesses. O descontrolo dos gastos nuns casos e as expectativas frustradas noutros estão aí para mostrar aquilo em que dá o "consenso". Que venha então o barulho sobre o aeroporto, o TGV e tudo o resto. Chama-se democracia. Habituem-se.

Vassalos fidalgos

Estou com os abandonados, aqueles que, requinte de desespero, ainda concedem cair de joelhos em nome de uma última oportunidade. Humilhação suprema? talvez. Tenho para mim que o futuro é mais importante que a sobrevivência imediata às maleitas do abandono. E por honra a esse futuro, pesemos ponderosos, não deixa de haver funda sabedoria nos que assim se prostram: muitas vezes só de joelhos se arranca um mandato claro para seguir com a vida na lucidez de uma causa perdida.

4 anos de avatares


Bresson
Obrigado a todos que aqui vão passando. Obrigado por me justificarem o gosto.

Rui Rio meets Margarida Moreira

Junto-me à indignação. Se esta passa temos mais sérias razões para duvidar da saúde da liberdade de expressão enquanto fundamento estimável da democracia portuguesa. Afinal, quem nos protege destes despotismos que se trivializam ora no governo ora nas autarquias? Uma coisa é certa, não sem fundamento está-se a instalar uma séria cultura de medo na nossa democracia. Independentemente das suas causas e agentes, a propalada claustrofobia democrática está-se a tornar real nas suas consequências. E aqui estamos, provavelmente a ladrar uns para os outros, enquanto a caravana passa com o perfume retro do poder musculado de outros tempos. Este caso e o da DREN merecem ser paradigmáticos (são emblemáticos de mil outros atropelos que passam calados), seria bom que não lhes déssemos paz. Como se sabe a perfídia do poder aloja-se na máxima "vamos até onde podemos", por isso atente-se no sintomático despudor: já nem se dão ao cuidado de reprimir pela calada.

Salman Rushdie

Concordo com quase tudo que o Eduardo Pitta escreve sobre a recente sagração de Salman Rushdie como Cavaleiro de Sua Majestade. Apenas a conclusão me parece tardia: há muito que estamos conversados sobre quem se dobra às sentenças de Khomeini. No entanto há uma parte no texto que me deixa com mixed feelings: "A fatwa destroçou a sua vida pessoal, obrigando-o a viver escondido durante nove anos, entre 1989 e 1998, sob protecção dos serviços secretos britânicos. Uma das consequências dessa reclusão foi ter sido abandonado pela segunda mulher, a escritora Marianne Wiggins." Não brinco com o horror de ter a vida a soldo. Apenas tenho dificuldade em acompanhar a compaixão solidária naquela parte em que o Eduardo Pitta lembra que Rushdie foi abandonado pela segunda mulher. Veja-se Padma Lakshmi, a 4ª esposa do Cavaleiro:

Gaza

Tudo o que temos são variações de uma desgraça há muito muralhada. Naturalmente os profetas enamoram-se da sua assombrosa pontaria. Que lhes sobrem as noites de certeza porque poucos no extremo desespero entranhado de ódio ancestral se fizeram moderados e aos sábios vedores do fundamentalismo, a esses, nem extremo que lhes justifique a esperada miséria senão o ódio semeado nas finas estantes da cidade ou o deleite na fácil arte da presciência palestina. "Gaza, eu não vos disse?". Por certo.
[ler: Robert Fisk: Welcome to 'Palestine']

REUTERS/Mohammed Salem

Levantar voo

Quando a mulher ao meu lado se benzeu era como se já estivesse em Portugal.

Começar de novo

Informações altamente privilegiadas (FM e assim) garantem-me centelha de génio com hipóteses de compromisso sério para o futuro. Chama-se Leandro Lima e é a nova contratação do Porto. Uma coisa resulta indesmentível: o futebol é uma escola fantástica, transitamos a uma velocidade estonteante entre valas e salões de palácio. Entre a queda amarga e orações carregadas de esperança. E assim seguimos em novo quadro ontológico: apesar de Anderson.

Da compulsão

O verdadeiro alcoólatra não bebe para aliviar problemas ou a angústia que sente; ao invés, embora muitas vezes inconscientemente, ele próprio cria esses dilemas para justificar a bebida (Robert Murphy, The Body Silent).
De repente fez-se-me luz sobre uma pletora de compulsões.

Correia de Campos: autor moral?

"O Ministério da Saúde ordenou ontem uma averiguação às circunstâncias da morte de uma mulher de Vendas Novas, que faleceu terça-feira durante o transporte para o Hospital de Évora. (...) A mulher residia próximo do centro de saúde de Vendas Novas, cujo Serviço de Atendimento Permanente (SAP) fechou no passado dia 28 de Maio no âmbito da requalificação geográfica dos centros de saúde."
O fraco eco que o fecho de serviços de saúde tem tido na opinião nos media de referência não é alheio a este singelo facto: quase todos os opinion makers residem nas cidades onde podem escolher entre vários serviços de urgência. Portanto, estão-se marimbando. Em Portugal só os problemas urbano-burgueses parecem comover a referência. É pena. Tanto mais que o impacto desta gestão dos serviços de saúde, um convite deferido a migrações concentracionárias nas sub-urbes, atenta olimpicamente contra qualquer ideia de ordenamento territorial. Se a solidariedade pouco vale, talvez um mínimo sentido pro-activo de ordenamento fosse relevante para não cairmos na fácil tentação de isolarmos tanta indignação por aí em meras expressões de bairrismo.

P.S. Que as averiguações sejam feitas pelo Ministério da Saúde é uma coisa a dar para o risível. Tudo é casuísta. Consequências (nas) políticas: nenhuma.

Ilha de Moçambique


Foto via Ma-schamba.

As cores da MCel invadem a Ilha de Moçambique (Património Mundial da Humanidade desde 1991). O JPT tem denunciado a situação e já houve um comunicado da MCel com o compromisso de reverter o deprimente aparato publicitário. É de estar atento.

Assisadas

Partiriam, todas as mulheres assisadas.

Richard Rorty (1931-2007)

"A tarefa genérica do ironista é a que Coleridge recomenda ao poeta grandioso e original: criar o gosto pelo qual será julgado (R. Rorty, 1989)"


Para Rorty a criação do gosto que nos julga só pode ser pensável numa relação de agonismo com o que presentemente nos "julga", ou seja, aquilo que nos constitui como sujeitos, as regras presentes na linguagem disponível para tentar a verdade: "só as frases podem ser verdadeiras e os seres humanos fazem verdades ao fazerem linguagens nas quais formulam frases".

Numa óbvia filiação intelectual com a linhagem de Nietzsche, Foucault e Heidegger, o combate primeiro encetou-o Rorty contra a presunção fundadora da filosofia moderna em Filosofia e o Espelho da Mente (1979). Na verdade, a filosofia aparece-lhe na mira tanto como alicerce como epifenómeno do quanto a epistemologia moderna se estabeleceu na fé de fielmente representarmos o real. Tratava-se para Rorty de perscrutar a filosofia do século XX para nela denunciar a continuada influência das construções cartesianas, em particular, a centralidade da metáfora ocular onde se ancora a ideia do "olho da mente", no fundo a ideia que uma mente disciplinada pelos rigores do método científico está treinada para ver o real como ele é: "Na concepção de Descartes -- aquela que se tornou a base da epistemologia «moderna» -- o que está na «mente» são as representações. O olho interno vigia estas representações, esperando encontrar uma qualquer marca que testemunhe a sua fidelidade". Rorty erige-se contra a indisputada persuasão da "mente humana como um espelho onde é possível as imagens do mundo serem reflectidas".
Um dos aspectos mais provocativos nesse bem ensaiado ataque à durabilidade da hegemonia positivista é o modo como Rorty vê a ciência moderna como herdeira daquilo que procurou contrapor na metafísica, ou seja, um mundo que só se poderia perceber por apelo aos insondáveis mistérios do seu autor, Deus. Como argumenta Rorty, a ideia de que existe no mundo uma natureza intrínseca à qual seria possível aceder é, em certa medida, um remanescente da ideia do mundo como um projecto coerente divinamente elaborado. Assim, a ciência moderna labora na ideia de um mundo ordenado por regularidades perfeitas, ora, este é ainda o mundo feito por Deus. Esta leitura leva Rorty a dizer sem pudores que a maior parte dos intelectuais continua ligada a alguma forma de fé religiosa ou de racionalismo iluminista.

Em Contingência Ironia e Solidariedade (1989) Rorty é mais propositivo, digamos que ousa afirmar o gosto por que gostaria de ser julgado. Para tanto cruza as mesmas ideias sobre a verdade e o saber que já aventara n'A Filosofia e o Espelho da Mente com a sua concepção política da vida em sociedade. E assim cria a figura do Ironista liberal. Os liberais: "são as pessoas que pensam que a crueldade é a pior coisa que podemos praticar". Os ironistas: "tipo de pessoas que encara frontalmente a contingência das sua próprias crenças e dos seus próprios desejos mais centrais – alguém suficiente historicista e nominalista para ter abandonado a ideia que essas crenças e desejos centrais estão relacionados com algo para além do tempo e do acaso".

Estou com ele no ironista, abjuro o seu liberal que, como veremos, é bem mais "ideológico" do que a definição poderia deixar entender. Começo pelo que me enfaticamente me liga à obra de Rorty: o ironista. O ironista é uma espécie de radical que se percebe dentro dos limites das referência por que se fez gente: "a ironista passa o seu tempo a preocupar-se com a possibilidade de ter sido ensinada na tribo errada, de ter sido ensinada a jogar o jogo de linguagem errado". Por aqui perpassa o Dasein de Heidegger: as pessoas que não são capazes de suportar o pensamento de que não são as suas próprias criações. Por aqui perpassa também o génio (daimon) que Freud libertou para a cultura ocidental: "Freud democratizou o génio ao atribuir a todos um inconsciente criativo". Rorty visita também as paragens Harold Bloom ao falar da angústia do sujeito contra a história (os predecessores literários para Bloom, para Rorty o presente sociocultural legado pela história): "os seres humanos não podem escapar à sua historicidade: "o máximo que podem fazer é manipular as tensões dentro da sua própria época a fim de produzir os começos da época seguinte ".

A pujança desconstrutiva com que Rorty carrega o ironista, bem como a ideia de que todas as tribos se fecham nas suas convicções, concilia-se, não sem desconcerto, numa leitura do liberal como alguém que percebe ter chegado ao fim da história política: "Na verdade a minha sugestão é a de que o pensamento social e político ocidental poderá ter tido a última revolução intelectual que necessitava". Ou seja, Rorty, numa proposta com óbvios laivos de evolucionismo social, considera que todas as possibilidades presentes e futuras se contemplam no modelo de democracia liberal. [Aparte: Nada diz sobre o sistema económico que se vem confundindo e engolindo a democracia liberal e, nesse sentido, parece ignorar como a sua definição de liberal (alguém que julga que a crueldade é a pior coisa que podemos praticar) é afrontada pelas formas de crueldade impostas pela voracidade capitalista, a mesma que segue de mão dada com as democracias liberais.] Valha-nos que a proposta de Rorty não exige o pack todo, como ele próprio lembra: "Michel Foucault é um ironista que não está disposto a ser um liberal, enquanto Habbermas é um liberal que não está disposto a ser um ironista".

Só o talento e a marca que Rorty deixou permitem explicar que, antes de qualquer piropo de engate, eu aspire a que me segredem ao ouvido "meu ironista não liberal".
"Fracassar como poeta—e portanto, para Nietzsche fracassar como humano – é aceitar as descrições que outra pessoa faça de nós, executar um programa previamente preparado, escrever quando muito, variações elegantes de poemas anteriormente escritos. Assim, a única maneira de identificar as causas de sermos como somos seria contar um história sobre as nossas causas numa nova linguagem."

Beckham

Quem conhece o Beckham socialite, homem de imagem rentável e mulher lamentável, poderá bem passar ao lado de um facto essencial: o jogador. Se é verdade que a certa altura o mediatismo colocou Beckham num patamar que futebolisticamente não era o seu, não deixa de desconcertar como sempre se pontuou por um absoluto low profile em tudo que respeita à ritualidade desportiva: foi sempre dos primeiros a chegar ao treino, poucos superam a média de quilómetros que faz em campo, os livres devem-lhe muitas horas extraordinárias. Se a isto juntarmos o facto de que a sua mais valia -- colocação estupidamente exacta de bola no espaço -- deve mais ao labor operário do que ao talento puro, bem como a insólita circunstância de que pura e simplesmente não sabe fintar, gesto técnico que classicamente sinaliza o talento em futebol, podemos dizer que estamos perante um jogador que se configura no jogo, sentido estrito, como a antítese daquilo que representa socialmente. Depois de Fabio Capello ter dito que não contava com ele, depois de Steve Mclaren o ter descartado das convocatórias, depois de um contrato milionário assinado com os LA Galaxy, era justo supor o ajustamento a um programa de baixo dispêndio de energia. Mas Beckham nunca foi um Dani, um deslumbrado com os privilégios da fama e da beleza, Beckham optou por penar aquele mínimo que permite durante uns curtos anos, afeitos à posteridade, colher do futebol o doce fruito.
Continuou a treinar afincadamente como se nada fosse. Ao que Capello, conhecido como o sabotador pelo modo como cirurgicamente estilhaça os clubes antes de os deixar, decidiu suspender a sabotagem com que já se despedia do Real Madrid, talvez para ainda tentar ganhar o campeonato, só naquela. Para a logística desse devaneio não teve outro remédio senão puxar da celebridade e deixá-la jogar à bola. Também Steve McLaren não teve outra saída senão seguir-lhe o caminho (depois do jogo contra a Estónia percebe-se a bondade do seu aventado despedimento caso ousasse não convocar o Beckham). Após uma reversão dramática de expectativas, este fim de semana o Real Madrid poderá sagrar-se campeão muita a expensas do regresso de Beckham. Eu, anti-madrileno convicto, vejo-me na inédita posição de querer que assim seja por absoluto interesse em acompanhar a resiliência de Beckham às notícias do seu desaparecimento.

Democracia musculada

"Associação de Matemática convidada a deixar comissão após criticar a ministra"
Acho que me escapou o exacto momento em que o Ministério da Educação passou a responder como Ministério da Reeducação.

Of Human Bondage (act.)

Um dos temas que na ficção me cativa pela perturbação remete para narrativa de um homem enleado por um amor obsessivo, um homem que, em nome dessa obsessão, aceita todas as formas de humilhação. No impacto de tais enredos não deixa de haver um forte viés de género. O espectáculo da subjugação masculina interpela-me mais, talvez pelo vínculo empático que estabeleço pelo facto de ser homem. Mas também, e sobretudo, pela violência acrescida da humilhação enquanto emasculação, ou seja, por contraponto aos exigentes valores culturais que vigiam os termos da dignidade masculina. Alguns dos meus exemplos:











Of Human Bondage (servidão Humana), Somerset Maugham (a The Painted Veil falta a pura obsessão)












Bitter Moon (Lua de mel, lua de fel), Roman Polanski (a coisa dá para os dois lados)












Boxing Helena, Jennifer Lynch.












L aTeta y la Luna, Bigas Luna












The Hand, Wong Kar Wai

Humor e humilhação II

Deste absoluto vintage, lembrar-me-ia um tal João Sedas Nunes.

Talvez que a minha identificação visceral com a situação de Paris Hilton (eu sei, eu sei) se deva, mais do que gostaria, às minhas próprias memórias da humilhação pública, e, nelas, à minha evidente falta de arcabouço para o embate. Nada de princípios, claro. Sensibilidades. Constrangimentos. Constrangimentos constitutivos. Basicamente a adolescência pode dar cabo de um gajo.

P.S. Como se esta pérola do João não bastasse (nem ao diabo lembraria tal), já fui ouvir, instigado por um comentário do Rogério Casanova, a música 11 do novo álbum: Paris Hilton canta Rod Stewart
P.S. Já era altura de dizer que o Tiago Oliveira Cavaco nos seus 18 anos tinha impressionantes semelhanças físicas com o Robin Gibb.
P.S. Este tipo, nome solene, é, imaginam, uma óbvia causa perdida para qualquer esforço de reeducação.

Um gajo que detesto vagamente: Correia de Campos

É absolutamente desconcertante o silêncio de fundo ao modo como Correia de Campos vai desmontando o Sistema Nacional de Saúde. Curiosa vileza em como se faz economia com populações já deserdadas do Estado, mulheres grávidas, pessoas precisadas de cirurgia e afligidas por vulnerabilidades de toda a sorte. Opções políticas, dirão os mais "pragmáticos". De Correia de Campos nunca esperei outra coisa, facto. Mas faz-me confusão como é que Portugal, tendo conseguido, na sua crónica debilidade, construir, em tão pouco tempo de Estado Social, um notável Sistema de Saúde, esse sim, um assinalável património nacional, faz-me confusão, dizia, que tão poucos lhe chorem o "fim tendencial". Que outra coisa pode dizer António Arnaut senão lamentar a sorte da obra? E isto, meus amigos, isto não é só ideologia político-económica. Veja-se o amor com que os ingleses falam do seu National Health Service, e ai de quem lhe mexesse. Sei do que falo, soube-me bem, longe de casa, a um pequeno susto, poder ser consultado e medicado em vinte minutos sem pagar tusto ou dar outra referência que não o meu primeiro e último nome.

Nem só de "políticas fracturantes" vive um tipo da esquerda erótica (delicioso insulto recentemente chegado à caixa de comentários deste blog no meio de outros impropérios). Quando chegar a Portugal vou-me fazer membro de alguma bolorenta comissão de utentes que tenha por fito pôr o Correia dali para fora. Falo sério.

De ler (act.)


A colherada de Rogério Casanova sobre a piada de Sarah Silverman (post em baixo).

P.S. A discussão segue nos subterrâneos: vide 1 vide 2 vide 3.

Humor e humilhação



Em termos mediáticos as modalidade de dominação mais exploradas no humor são a sátira ao poder (e aos poderosos) e a implosão pelo riso dos que se levam demasiado a sério (p.ex. o ataque ao propalado politicamente correcto das minorias). Tal como o sexo se alimenta das fantasias de dominação (com as duas perspectivas que isso comporta), o humor não passa sem o exercício da humilhação, ainda que essa humilhação se possa ficar pelo calibrar de outrem à capacidade de auto-ironia ou à domesticação de um poder arbitrário. Tudo se decide no que há de real nessas fantasias: 1) pela sagacidade com que o humor usa a posição dominante (a audiência e o talento são o poder do humorista); 2) pela permeabilidade/fragilidade de quem é visado. Na verdade, não sei como reagir a este momento de humor (em cima), francamente "ácido", não tanto pelo tema da prisão iminente, mas pela co-presença da visada (visilvelmente em busca de um buraco). Saber que Paris Hilton é uma ricaça mimada, que nunca fez nada na vida, dada a exibicionismos sexuais e outros, confere à plateia um momento de justiça/vingança (a ética do trabalho junta-se a algum moralismo sexual). Hesitamos, entre o constrangimento e o riso: entre o talento humorístico e a fantasia da humilhação, por um lado, e, por outro, o que pode haver de real nas consequências pessoais dessa fantasia motriz.

Masculinidade prévia

A Fernanda Câncio tem razão, mas que me perdoe: ao pé dos festejos os adereços nem dão para aquecer o tema.

Jogos de influência

Daniel M.: " Mas o que fez desse encontro de futebol - digamos assim - um episódio histórico foi o seguinte acontecimento, decorria o minuto setenta e pico de jogo. Depois de uma falta assinalada junto à grande área do Red Star, um dos nossos defesas, visivelmente irritado com a decisão do árbitro, aproxima-se deste e profere a magnífica frase - nunca antes escutada em nenhum relvado de aquém e além mar - e que aqui reproduzo:
«I didn't touch him, believe me, I'm a lawyer.». Assim mesmo. Na Sportmans Sunday League este episódio tem o mesmo peso simbólico, arredondando às décimas, que a cabeçada do Zidane no peito do Materazzi."

Mais trágico do que invocar a profissão em vão é desconhecer o capital de confiança social que ela detém. Os homens do apito também têm preconceitos e quase adivinho expulsão -- por palavras ao árbitro, claro.

Qualia

Com novo template, mais solta e saudavelmente mundana, parece-me que a pena de Luís Quintais encontrou o registo certo para nos cativar para as discussões que o apaixonam.
Vai sem ser dito, não o posso recomendar o suficiente*.

*Atente o leitor no luxurioso anglicismo encoberto da frase. Sim, eu sei, eu sei.

Susto

"E parece que algumas crianças se assustaram com o que viram"
Adianta o João Golçaves a propósito do filme de educação sexual transmitido pela RTP. Ora, eu estou interessadíssimo em saber mais sobre este "parece". Houve por aí pranto e ranger de dentes e ninguém me avisava? Um afluxo às urgências pedo-psiquiátricas? É que de repente fiquei preocupado. Mas está tudo bem agora? Mas assustaram-se com o quê exactamente? E os telejornais, mantêm nas notícias as imagens serenas do costume?

Pois claro, imagino o susto que a educação sexual em canal público possa produzir -- só duvido que nas crianças. Mas terá o João Gonçalves alguma informação classificada, fala do seu próprio lar, de filhos de amigos? Ouviu dizer? É esta a sua maneira de dizer que está contra? As pessoas com influência de que discorda tornam-se automaticamente os ___________ (preencher com profissão) do regime? Ou muito me engano já tínhamos visto esse automatismo retórico funcionar a propósito da paródia ao cartaz do PNR.

A pedi-las

Claro. Pela lógica instalada mulher que lubrifique na violação consente um tanto, infante que tenha erecção mitiga a gravidade do abuso. Se as respostas dos genitais assumem tamanha monta, talvez uma monitorização das pilas dos juízes fosse útil para aferir da suas capacidades de arbitragem. Será que têm erecções quando lêem detalhadas descrições de situações de abuso ou violação sexual?

Évora


bsm, 2007

O Fernando Venâncio explica.

Adeus ao futebol português



Pinto da Costa: "Não prevemos o abandono de mais nenhum dos jogadores que queremos que permaneçam. A nossa intenção é mantê-los a todos"

Tradução: "Vendemos o futuro melhor jogador do mundo mas de resto ficam todos."