Tendências

Poucos trejeitos de linguagem são tão expressivos de modos de ser como a propensão para o uso de determinantes possessivos.

The Prestige



No seu mais recente filme, The Prestige, Christopher Nolan entretece a trama em torno de uma épica rivalidade entre dois ilusionistas. Impedido de trazer aqui alguns elementos que por efeito de antecipação narrativa estragariam o vosso filme (dos que ainda contam ir ver), irei cingir-me a imagem que ressalta icónica da dedicação obsessiva que ali se trata: o mágico chinês que há anos finge uma deficiência para poder encenar no seu espectáculo, de forma convincente, um truque particular envolvendo um aquário e um peixe cor-de-laranja. É esta a ideia que o filme procede: a vida como uma encenação em nome de um momento cénico, em nome de uma persuasão performativa de monta. Na imagem acima, despudoradamente roubada ao rebelde de Nicholas Ray, vemos Natalie Wood abraçar um James Dean cuja cara dá testemunho de sério esmurramento. No olhar dela representa-se a afectação lírica em termos só concedidos aos sovados da vida. Há ali uma espécie de charme, talvez uma forma de irónica sedução, devida, pois claro, à sistemática incorporação de murros. A verdade é que um olhar daqueles merece bem uma vida cuidadosamente dedicada a apanhar porrada.

10 minutos

Não é sequer honesto eu discutir as opções de Scolari quando na verdade me estou a marimbar para a sorte da selecção de todos vós. No entanto, a selecção portuguesa interessa-me, por isto: eu gosto de futebol e o critério da nacionalidade tem o sortilégio de reunir dois jogadores que nos dias que correm são motivo do mais sério alumbramento: Quaresma e Ronaldo. Dois jogadores que, ironicamente, pelas suas posições em campo, praticamente só comunicam entre si através de centros. Faz lembrar a lenda que se recupera naquele filme com a Michele Pfeifer sobre o lobo e o falcão -- passou seguramente umas 10 vezes na "Sessão da Tarde". Agora até podia dissertar sobre o momento do eclipse forçando a linha poética a propósito golo que Quaresma deu a Ronaldo passado Sábado, mas não. Sou sério.

Quaresma jogou 10 minutos. Não sei se isso é bom ou não para Portugal. Tanto se me dá. Eu, como muitos de vós, apreciadores do jogo, só queria ver o Quaresma e o Ronaldo a jogar. Era o meu programa para hora e meia. O Simão, que é um enorme jogador, podia fazer 10 golos que eu dava o programa por estragado à mesma. Note-se a sinceridade. Interessam-me coisas da ordem do genial e o Simão é apenas muitíssimo bom. Não mais desmentirei todos quantos vêem no Scolari um visionário, nem mais procurarei beliscá-lo como insigne treinador por respeito à vossa sensibilidade e à gratidão que lhe têm os demais portugueses, naturalmente orgulhosos por façanhas recentes. (É pouco provável que eu cumpra). Curvo-me ante tamanho reconhecimento. (Minto). Mas pensem nisto: um gajo que vos dá 10 minutos de Quaresma-Ronaldo não pode ser assim tão boa pessoa.

Outros votos

"Prezado doutor Salazar se você estivesse e vivo e aqui [Guerra do Ultramar/Guerra de Libertação] enfiava-lhe uma granada sem cavilha pela peida acima uma granada defensiva sem cavilha pela peida acima (..)"
Os Cus de Judas, António Lobo Antunes

Grandes Portugueses

Salazar eleito democraticamente. Não é só uma perversa ironia: o país vai nu.

Quaresma



Scolari bem pode festejar agora os golos de Quaresma. Pode até um encenar um abraço emocionado no fim do jogo que o bom do Quaresma, na sua aparente negligência afectiva, tudo consente a um pateta armado em pai pródigo. Mas nós não esquecemos que foi graças a um déspota iluminado que há 9 meses Quaresma pôde ver o mundial pela televisão (não me refiro obviamente ao técnico da TV Cabo). Portugal, pejado de jogadores muito bons, a que se juntam dois geniais (que colosso de extremos, meu Deus!), um guarda-redes e um ponta-de-lança, segue vencendo apesar de Scolari. Mas, o castigo pela estupidez de Scolari - um mínimo de uma estupidez sonante por competição -, qual sentença de recorte divino, tem chegado sempre, justíssimo: numa final, numa meia-final, no chuveiro. Os treinadores inteligentes e justamente amados são aqueles que sabem impor a sua maestria vergando o adversário tanto quanto se vergam aos óbvios ditames do futebol, numa lógica que poderíamos designar user friendly: os adeptos, utilizadores primeiros do futebol e seus sintomas vivos, nunca são tão estúpidos como Scolari gostaria de pensar. Ele sim. O golo de Quaresma não foi marcado por um jogador da equipa de Scolari. Foi marcado por um jogador que que só Scolari conseguiu tirar da equipa. No entanto, a devoção nacional a Scolari subsiste, ela deve a estes sucessivos momentos de "não inscrição" (José Gil)* tanto como a uma perene ânsia pela tutela.

*A não-inscrição é outro traço dominante na psicologia nacional. As coisas passam mas não mexem verdadeiramente com as pessoas, não se inscrevem, resultando daí uma inacção, uma falta de afirmação e também de responsabilização. A não-inscrição explicará também a falta de debate no espaço público ou até de verdadeiras críticas de arte, a livros, a espectáculos. As discussões são muito pobres, nunca se vai ao âmago das coisas e dos problemas, fica-se sempre pela superfície. Os portugueses não sabem falar uns com os outros, nem dialogar, nem debater, nem conversar. Duas razões concorrem para que tal aconteça: o movimento saltitante com que passam de um assunto a outro e a incapacidade de ouvir. Também o medo, fruto dos anos de ditadura, impede que se assuma a liberdade plena, que se diga o que se pensa. Um certo culto do “sôtor” e a reverencia a quem tem poder são ainda peias que tolhem o pensamento e a acção livres. Por outro lado, pensamos que nunca estamos à altura, que não somos suficientemente bons, anulando-se assim todas as potencialidades criativas. É a famosa falta de auto-estima a que a tão badalada teoria da inveja promove. Ou seja, numa sociedade em que o imobilismo grassa quem quer fazer é, inevitavelmente, mal-visto, alvo de intriga e de maledicência. Quem se destaca será, portanto, excluído do grupo.

Um equinócio português

REUTERS/Jose Manuel Ribeiro



"People watch sunrise in front of a pre-historic stone shrine at Chas during the vernal equinox in north-east Portugal March 21, 2007. During an equinox, locals and foreigners celebrate the end of winter around the astrologic stone monolith." Reuters

10

Anderson treinou ontem com bola. Mais: distribuiu os coletes como quem escolhe a sua equipa para a peladinha. Mas a actualidade continua preocupada com o regresso trauliteiro de Paulo Portas e ainda não li um artigo decente sobre a cor dos mamilos da Kate Winslet ou sobre a inerente a bondade das cenas de sexo nos
Pecados Íntimos. Perante esta distopia informativa resta-me esperar pelo dia em que eu possa ir ao google imagens sem que a Pamela Anderson não atrapalhe os meus nobres desígnios

Perguntas simples

Facto. Se uma cidade como Londres tem 5 aeroportos, porque raio é que a Portela teria que desaparecer no caso de se construir um novo aeroporto na periferia de Lisboa?

O regresso



Anderson está a caminho, não só para gáudio dos portistas mas para deleite de todos quantos apreciam futebol com um toque de realismo mágico. Não há que duvidar: por esta ordem de projecção futura, Anderson, Quaresma e Simão, constituem a preciosa trindade artística da Liga Bwin (Nani tem talento, mas ainda não me convenceu cabalmente).

A importância dramática de um ressurgimento de Anderson-pós-carrinho-de-Katsouranis prende-se naturalmente com as suas indesmentíveis virtudes individuais. Mas é mais que isso. Anderson vai permitir resolver um problema táctico que, para minha confessa surpresa, o Porto conseguiu mais do que disfarçar até Dezembro. Eis o problema: Ante equipas de calibre similar e, portanto, com um meio campo forte e virtuoso, o 4-3-3 é uma estratégia de óbvio risco: a miséria da perda de domínio acossa. Pior se torna se algum dos elementos de meio-campo estiver fisicamente fragilizado (é o caso de Lucho). No plantel do Porto há três opções para reforçar o meio-campo nos ditos jogos grandes numa passagem a 4-4-2: Ibson, Jorginho e Cheh. Nenhuma solução se tem revelado boa. Jorginho sem continuidade é um jogador completamente atado de confiança, Ibson além das lesões que o assolam dá amiúde provas de insuportável imaturidade (não prescinde em circunstância alguma do seu gesto técnico preferido: o drible), e Cheh é pior médio do que lateral esquerdo. Ainda assim Cheh foi uma solução que se revelou assaz satisfatória, por exemplo, em Stanford Bridge, situação em que, dada a lesão de Bosingwa e a migração de Fucile para a direira, Ricardo Costa pôde regressar a defesa esquerdo, um lugar onde foi muito feliz no tempo de Mourinho. No Jogo do Sporting, dadas as lesões de Ibson e Bosingwa, talvez não tivesse sido má ideia repetir a fórmula usada contra o Chelsea, assim evitando o embate desigual de Moutinho, Veloso, Nani e Romagnoli ante Assunção, Meireles e Lucho. Em todo o caso, qualquer solução que Jesualdo buscasse seria sempre da ordem do precário. Imaginem pois o consolo que não será quando aparecer um número 10 que, além de distribuir jogo sumptuosamente, sabe jogar nas costas do ponta de lança e faz a pressão alta sempre ao sprint. O futuro campeão nacional discute-se no perónio de Anderson.

Solidões a montante

"Não tenho nenhum poder para apanhar mulher"

Excerto de uma história de vida que recolhi em Moçambique, província de Tete, distrito de Changara, e que agora recuperava. Fixei-a por interesse lateral. É provável que algo se tenha perdido desde o ciniyungwe do "biografado" até ao português do tradutor. Mas gosto da frase tal como se cristalizou em português. A solidão de um homem sentenciada por ausência de expedientes pessoais que garantam meios de subsistência (ou por falta de artes que façam essa ausência desimportante).

Estou habituado a reconhecer por estas bandas declarações análogas, normalmente como estratégias de engate: a asserção de infortúnio mais ou menos falaciosa que possa comover mulheres ou deuses em busca de uma reversão dramática. No caso tratou tão só de uma constatação em que a estrutura de adversidade se desenha contra um património pessoal que a pouco consegue aspirar. Não é uma frase que procure seduzir a boa graça dos deuses e assim alcançar um twist narrativo. É uma daquelas certezas tão sábias como onerosas: naquela frase jaz uma sensibilidade social que deve a uma vida de trabalho empírico.

0-1

Com a vitória do Sporting o Benfica passa a "depender de si próprio" para chegar ao título. Sem paradoxo, fico sinceramente mais tranquilo quando o Benfica "depende de si próprio" para o que quer que seja. Estou, portanto, mais confiante.

Pressão

Aprendi há dias a trabalhar com a panela de pressão. Está pois cumprida uma das derradeiras ordálias no meu convívio com a cozinha .

Vai um link?

Cito Baudrillard: morre dias depois. Cito Lobo Antunes: recebe o Prémio Camões. Chamem-me místico, mas dá para preocupar: vai ver que por estes dias sou eu o senhor da roleta? Vamos lá ver no que dá a próxima citação.


Marie Antoinette


Chego tarde ao filme e à substância de uma ida polémica entre o Paulo varela Gomes e o Luís Miguel Oliveira. Pouco se me oferece a dizer: um filme chato com algumas composições imagéticas interessantes (as sonoras, ligadas ao gosto da realizadora, não fazem o "meu tempo") numa investida em que a reconstrução histórica assume as suas liberdades com uma boa dose de auto-ironia. Nada de novo. Valha-nos que o filme é suficientemente despretensioso para cumprir a sua agenda modesta .

Mourinho

José Mourinho [antecipando o jogo dos quartos de final da Liga dos Campeões]:
"O que eu mais temo no Valência é a velocidade de David Navarro".
Vale a pena perceber porquê:

Jean Baudrillard

Não assinalei a morte de Jean Baudrillard, figura que me é particularmente cara e cujos ditos sempre foram visitando as linhas que vou largando. Os blogs são demasiado temperamentais para poderem acompanhar os rigores da agenda, mesmo quando querem. Tento redimir-me a destempo.

Ao contrário das tantas coisas de cuja evidência Baudrillard escarnecia (e como o espectro é amplo!), a morte de um homem, de um homem que aprendemos a admirar e seguir, desenha-se como uma fatalidade. Uma fatalidade que pouco se dá a devaneios discursivos que desdigam a morte ou que a resgatem para a apoteose de um qualquer simulacro. Morreu. Fim. Não há simulação. Mas o carácter elusivo do real, fugidio e intratável, não soçobra: nem perante a voluptuosidade fenomenológica da morte.

A escrita, meio por que Bradrillard se nos revela, é uma tecnologia de memória e posteridade tanto quanto de viagem; o corpo de quem escreve, na maior parte das vezes, é-nos tão distante ou intangível como as ideias que vai deixando em lastro. Por isso, a morte de Baudrillard cumpre o paradoxo de um fim apenas tentado. Sabemos que não haverá textos novos. Mas sigamo-lo de perto: num mundo de cópias sem origem a criação prolifera sem matriz precisa, sem viagem de sentido único, num mundo de dispersão e apropriação sem freio os criadores são nodos numa intertextualidade que os precede e lhes sobrevive.

Ainda assim, apesar da celebrada diluição e para gáudio de rara singularidade, Baudrillard é exactamente um Autor -- um autor, num tempo em que tudo a que podemos aspirar são ficções da origem. Um autor que escapa à morte sentenciada na ficção narrativa que melhor capta alguns dos traços da cultura contemporânea: um mundo de simulacros e simulação, uma ficção que a um tempo intuiu e criou.

Saber que Baudrillard morreu traz um inelutável peso de fim, um temeroso embate metafísico, uma insuportável entrega aos balanços póstumos, uma dor que (donde a percebo) vem despida de angústia.

Mas, é-me mais sedutor (a sedução era-lhe cara) pensar na morte de Baudrillard como um aparato mediático que, por hábito mitopoético, de quando em quando trafica com as sentenças biológicas e com a fantasmagoria dos fins. Baudrillard morreu para os gatos lá de casa, se os tinha. Os seus leitores mais fiéis, guardados pela distância devota, estão condenados a um exercício de incredulidade sintomática, alucinando -- agora mais do que antes -- com a existência do autor: Jean Baudrillard.

Falar nisto

"Porque camandro é que não se fala nisto? Começo a pensar que o milhão e quinhentos mil homens que passaram por África não existiram e lhe estou contando uma espécie de romance de mau gosto impossível de acreditar, uma história inventada com que a comovo a fim de conseguir mais depressa (um terço de paleio, um terço de álcool, um terço de ternura, sabe como é?) que você veja nascer comigo a manhã na claridade azul pálida que fura as persianas e sobe dos lençóis, revela a curva adormecida de uma nádega, um perfil de bruços no colchão, os nossos corpos confundidos num torpor sem mistério." Lobo Antunes, Os Cus de Judas

Coerência

Não valorizo a coerência em si da mesma. Por isso mesmo tendo a condescender nalguma medida de incoerência: ela pode resultar de produtivas transformações de mundividência, pode resultar de alguma passionalidade desestruturante que aparta o pregado do vivido, pode resultar de voluntarismo excessivo para julgar as circunstâncias dos outros, pode resultar de um juízo pouco informado pelo espelho. Faz parte. Para mal e para bem. A única forma de incoerência que de facto me repugna é a daqueles que se sabem incapazes de sobreviver aos princípios a que gostariam de ver os outros conformados. E por isso os advogam com tanto fervor.

Crime de importunação sexual

Por obra e graça de um excelente texto da Fernanda Câncio, fico a conhecer a posição do Vice-Presidente do Conselho Superior de Magistratura, Santos Bernardino, no debate em torno de um quadro penal que consagre a criminalização daquilo que na linguagem corrente se chama apalpão. Um sublime estudo de caso, que até dispensa uma referência mais extensa ao corporativismo pavloviano que assoma sempre que alguém ousa ver os juízes como mortais inscritos num mundo conflitual de valores.

De facto, o termo apalpão tem uma sonoridade leve e lúdica. Mas nenhuma bonomia fonética deve dar cobro a que se desconsidere o quanto de invasivo e traumático pode haver nesse arrombo à auto-determinação sexual (a situação mais recorrente, a de uma mulher apalpada por um homem é, pela vulnerabilidade em que se inscreve, a que melhor exprime o despotismo na impunidade do apalpão). Para os gajos que porventura sigam estas linhas com um sorriso de "não é caso para tanto", talvez por não incorporarem os termos de poder nessa invasão física, recorro a um velho truque patriarcal: pensem que eram as vossas mulheres, namoradas, irmãs ou mães. Já incomoda, não é? Aconselho, pois, enfaticamente, o texto da Fernanda Câncio, absolutamente instrutivo de como cultura jurídica é, obviamente, permeável a valores culturais tacitamente cúmplices com o crime instituído nas relações sociais de poder (a trivialização pela recorrência é uma das "tecnologias desse poder").
Deixo-vos com a trivialização do dito juiz:
"...Parece-nos, porém, excessiva e criticável a consagração de um crime de importunação sexual nos termos amplos constantes do art. 170º da proposta de lei. Substitui o crime de actos exibicionistas do actual art. 171º – mas alarga o âmbito deste, incriminando também a conduta de quem constranger outra pessoa a “contacto de natureza sexual”.
O princípio que deve orientar a intervenção do direito penal na sociedade, segundo o qual este só deve intervir em situações de ultima ratio, parece ter sido aqui ultrapassado, com a consequência de virem a cair no âmbito do preceito e punidas com prisão até 1 ano ou multa até 120 dias, situações desagradáveis, constrangedoras, mas não tão graves que reclamem protecção penal – como sejam os “encostos” nos transportes públicos."
Vamos ver como isto acaba.

Alexandre O'Neill: uma biografia literária

Movido pelo mais extremoso serviço público, deixo-vos por aperitivo algumas citações avulsas.


Para escapar essa «invenção atroz a que se chama o dia-a-dia», viveu intensamente, desregradamente, até ao osso. «Fiz do corpo alavanca sem pensar no futuro», disse pouco antes de fazer sessenta e um anos, e de morrer, quando já se sentia doente.

Respondendo ao celebra questionário de Proust, o poeta viria a designar como ocupação favorita a «conversa amena».

A poesia é a vida?
Pois claro!
Embora custe caro, muito caro,
E a morte se meta de permeio.


É que havia entretanto escritores e artistas que, gravitando embora na orla do Partido Comunista, ou fazendo parte dele, não se reconheciam esteticamente no neo-realismo. Foi sobre esta recusa primordial que se fundou o grupo surrealista de Lisboa, durante o ano de 1947.

O surrealismo começou com a amizade entre O’Neill e Mário Cesariny.

O caso é que, em finais de 49, chegara a Lisboa Nora Mitrani, tinha 28 anos.

«Sem pieguice, digo-lhe que sempre “sofro” Portugal, tanto no sentido de não o suportar (como todos nós, aliás), como no sentido de o amar-sem-esperança (como disse uma parnasiano qualquer: amar sem esperança é o verdadeiro amor…)»

«E tinha nisso uma camaradagem facílima com as pessoas, toda a gente gostava muito dele, entrava numa camaradagem fácil mas superficial. No fundo, ele não se dava a ninguém. Era uma pessoa recolhida, muito distante. Perfeitamente nos copos e na sardinha assada, mas quase que aristocraticamente distante»

«Ele era virado para o elemento feminino, mas elas também se deixavam encantar… rosto magro, bastante moreno, sobrancelhas espessas figura seca. Mas era mais o tratar…»

Viu a sua fama crescer. A aura de poeta tornou-o ainda mais atraente aos olhos das mulheres e começou a ser muito assediado. Utilizando uma expressão bem portuguesa sobre a qual viria a dissertar posteriormente, pode dizer-se que O’neill estava na mó de cima. «A seguir ao livro as mulheres andavam todas de volta dele. Eram muitas… tantas. Sempre foram.» Uns tempos mais tarde Alexandre confessaria à Pamela, sua apaixonada da década de 60: «os poetas neste país têm muita saída».

« “Libertino” não o define completamente. No sentido do Laclos, não. O libertino é um tipo que tem mais gosto na conquista do que no acto em si. O libertino é um estratega. E a estratégia, conquistar a praça forte, é que dá gozo. O Alexandre tinha uma sexualidade viva, gostava da mulher como animal.»

A frase com que definiu o seu amigo Vinicius de Moaraes, tão volúvel quanto ele, assenta-lhe perfeitamente: «tinha uma sinceridade para cada momento”

Porém ele sentiu a ameaça quando, cerca de um mês depois recebeu em sua casa a intimidação da PIDE para se apresentar. «já fiz a mala, estou preparado para ficar lá», disse resignado à sua amiga Pamela. «Por isso- continuou -, uma vez que vou largar o mundo durante uns tempos , peço-te que venhas dormir comigo.» [Dormiram, a intimidação foi falso alarme: era para ir buscar a mulher ao cárcere]

[AO']: «...Aquela coisas do amor ser infinito enquanto durar só mesmo dum malandro de um génio, que era o que era o Vinicius. Dava a impressão que ele fazia poesia para engatar, para ser imediatamente útil, o que é uma excelente maneira de fazer poesias. (…) haverá coisas mais excitante do que conseguir engatar uma mulher com um soneto? Só mesmo os dois fingirem que foi por causa do soneto…»

[AO']: «O que há de mais surrealista no movimento surrealista português, é que, no fim de contas, ele nunca existiu.»

Parabéns

Ao Tiago Oliveira Cavaco: a Voz fez 4 anos.
Às meninas da Confraria do Atum: 2 anos postos.
Ao Rui Bebiano: o primeiro ano da Terceira Noite.

Para o Helton

Se vais ser o sucessor do Baía é bom que te habitues a ter quem te ame também na hora da desdita.




Momento do jogo: Quaresma mostra o emblema do Porto a Mourinho numa provocação simbólica sobre as raízes em tempo de passagens.

Fiquei na merda como há muito não me acontecia com um jogo de futebol.

Identifico Mourinho como mais fascinante ser vivo no mundo da bola, um génio superior aos dois Ronaldos juntos, não cairia na tentação fácil de o experimentar como adversário pelo menosprezo. Foi um bravo.

Caso Tópico: O discurso de irreverência de Jesualdo Ferreira, continuado em substituições arrojadas, cumulado por um 4-4-2 inicial muitíssimo inteligente.

Já se vai impondo uma estátua de Quaresma a saltar para o colo de Baía com a equipa de volta
em festejos.

Quaresma começa assumir um lugar importante na minha afectividade futebolística. Oxalá fechem as fronteiras e lhe cacem o passaporte.


Rocky

Paulie, despedido do matadouro, chega ao restaurante de Rocky disposto a embebedar-se. Debaixo do braço leva uma peça de carne e dois dos quadros que por lá pintou. Estava lá tudo.

Porto-Braga.


Como se vive este momento? perguntam-me. Porto e Baía de um lado. Jorge costa e Aloísio do outro. Facto. Pois bem, devo dizer que não me sinto fragmentado por aí além. Para mim a estratégia nestes casos é óbvia: viver o ontem como se não houvesse hoje. Assim sucessivamente, assim se vão compondo relicários deferidos.
Mas à nostalgia instruída não falta engajamento quotidiano, o presente está lá cheio de vontades e quereres. O que acontece é que o compasso de espera funciona como um relativismo radical, um relativismo que tudo vai distorcendo à maneira de um caleidoscópio mais conforme o "nosso tempo".
No que me diz respeito, Baía, Jorge Costa e Aloísio jogam na mesma equipa. Uma espécie de Aleph. Tudo o mais são onirismos dos que vivem o presente discreto.

Aniversariantes

Muitos parabéns ao Tiago Barbosa Ribeiro e aos blasfemos por mais um ano de bloga assim passado.

Palavras proscritas das sociedades agrícolas

Mamalhal.

Adenda ao post anterior

(Resposta a um parágrafo daqui:)

Avaliar um filme por apelo a elementos extra-cinematográficos (não o fazer é uma óbvia impossibilidade) é diferente daquilo que seja descartar liminarmente um filme com base em argumentos extra-cinematográficos. A questão tem menos a ver com a hipotética definição de uma linha que demarcasse a coisa extra-cimetográfica. A questão reside na prevalência de preceitos que, por serem prévios ao filme, lhe são largamente estrangeiros/insensíveis. Preconceitos, pois.

Ler

Alexandre Andrade sobre Babel -- ainda a questão da crítica. Concordo quase tudo que ele diz (apenas não consigo subscrever a saudável iconoclastia final).
Mas ainda espero por um texto que aborde o Babel, suas virtudes e fraquezas, a despeito dos soundbytes da crítica.