Pecados Íntimos [Little Children]

"In the love relationship the tendency to break the object down into discrete detais in accordance with a perverse autoerotic system is slowed by the living unity of the other person." Jean Baudrillard

O desejo como fardo que dilacera o carácter [Brad] e a confiança social [Ronnie]
O desejo aponta o justo caminho da auto-determinação romântica [Sarah]
O curso do desejo é apenas um caso particular de uma gramática narcisista de sobrevivência do ego pela infusão de novidade [Brad]
O desejo resistente e paciente que dá [demasiada] vez à voracidade dos dias [kathy]
O mal-dirigido desejo de uma causa redentora [Larry, Brad]
O desejo estético-panteísta sofre com a beleza [e outros atributos sociais] de quem já pouco lhe diz [Brad]

Babel

Como prometido volto ao tema. Este é o segundo de três textos sobre o assunto. No último, em que tentarei escapar aos termos fechados da/pela polémica, virá a minha leitura do filme.

O processo segue já com afloramentos de um estudo de caso. Depois de Babel ter sido inicialmente esmagado pela crítica pátria, denoto a emergência de dois tipos de reacção que me parecem igualmente pavlovianos. A primeira reacção, sobre a qual já aqui dissertei, refere-se à necessidade de maldizer a crítica para afirmar uma opinião favorável em relação a Babel. Uma espécie de limpar o terreno.

Reparem, eu de facto acho que a unanimidade da crítica padece de uma refracção “ideológica”, refracção que funcionou como uma barreira prévia a uma apreensão mais subjectiva e diversa de um filme que ─ parece-me ─ só com algum “ardor clubístico” se chuta para canto em duas penadas (a bem da sua leitura Luís Miguel Oliveira diz que a haver alguma ideologia a operar é a "ideologia cinematográfica" de Iñaritu). No entanto, discordo da necessidade de maldizer a crítica para afirmar um gosto diverso: leio, valorizo a crítica e continuarei a valorizar. Não me deixo castrar pelas sentenças autoritárias, por mais unânimes que sejam, tampouco preciso de castrar a crítica num processo agonístico de afirmação que mais não faz do que sacralizar a autoridade da dita.

A segunda vaga de reacção, mais recente, deferida no tempo, vem situar-se por referência às linhas de cisão já criadas. E aí reparamos duas coisas.
Quem tem do filme uma opinião positiva ou que não se esgota no catálogo crítico do “folclore global” ou “politicamente correcto” aparece a falar um pouco a medo, ciente do descrédito intelectual que resulta de um campo minado pelas prerrogativas da opinião prestigiada. Por outro lado, quem tem do filme uma opinião negativa – não me lembro de nenhum caso de elaboração criativa neste sentido ─ recita os soundbytes que mais não são do que palavras passe para uma óbvia pertença: uma identificação com um certo espírito de elite que se criou à volta do “não gostar do Babel”. Ou seja, as próprias possibilidades para não gostar ficaram estreitadas; expressão de uma questão mais vasta: só se tem escrito sobre Babel por referência aos termos lançados pela crítica, contra ou a favor. O que, independente do juízo gosto/qualidade que se tenha sobre o filme, me parece uma lástima e uma exuberante demonstração de que a autoridade dos críticos, porventura justamente, não se descarta com a mesma facilidade com que eles descartaram o filme. Continua.

Cheerleaders

O Rui Branco desafia-me a comentar estes interessantes dados sobre o recrutamento de cheerleaders para o Sporting. Reparo que entre os requisitos não consta a devoção pelo clube. Faz sentido. Aliás, o mais coerente seria que esta função nobre fosse vedada a sportinguistas.

Podemos reconhecer-lhes a fé que a tudo resiste. Mas pedir-lhes que andem aos saltos a animar vitórias que no fundo sabem impossíveis seria exigir um extenuante distanciamento cínico, um servilismo trágico só possível a eunucos num harém.

Por outro lado, qualquer miúda com mais de 1,60 entre os 16 e os 28 anos que ali venha a ingressar sem renegar o seu sportinguismo fica numa posição privilegiada para um dia escrever algo parecido com as cartas de Iwo Jima.

Beijo


"I have to thank my incredible wife Tammy and our four children, Beckett and Bailey and Johnnie Rose and Miller."

O beijo que Melissa Etheridge -- Óscar para o melhor tema musical -- deu à sua mulher antes de subir para o palco corresponde a um momento raro e paradoxalmente provocatório na visibilidade contemporânea. Nas mediascapes contemporâneas o beijo lésbico vem ganhando acrescida visibilidade, no entanto tudo se passa no âmbito uma visibilidade ancorada nos seus termos: uma transgressão encenada que passa uma imagem de ousadia e sofisticação ao mesmo tempo que corresponde ao lugar que o erotismo lésbico detém no imaginário masculino/falocêntrico. O beijo entre Melissa e "Tammy" não foi assim, não queria ser provocativo ou insinuante para gáudio de outrem. Foi uma expressão do amor e da cumplicidade erótica que pode unir duas mulheres. Só. Que nessa coragem social não houvesse deliberada provocação - apenas a ternura das coisas simples num momento memorável - consistirá para muitos a suprema provocação.

O que não implica que goste da música.

O momento da noite


Ennio Morricone e Clint Eastwood, os justos senhores da noite.

Tapete

Na ausência daqueles momentos libidinalmente substantivos reconheçamos a mais conseguida incorporação dessa frivolidade a que chamam estilo.


p.s. Quer-me parecer que Nicole já deu um infeliz retoque nos lábios.

A1

Depois de Borges o espelho deixou de ser o mero duplo de faces realmente existentes. Tudo se diluiu para o leitor investido de fé poética. Descrê no reflexo do espelho, no reflexo das montras, no reflexo do retrovisor. Em plena autoestrada nenhum sinal de luzes o arreda. A A1, por exemplo, cheia desses místicos.


O predilecto de Sócrates

Duvido que o dinheiro poupado por Correia de Campos com lustrosas medidas economicistas (fecho de maternidades, pagamento dos internamentos hospitalares, requalificação das urgências) valha o presente processo de des-identificação entre as populações e o Estado. Digo alheamento entre as populações e o Estado (e não governo PS), porque a coisa me parece bem mais estruturante na construção de uma trincheira simbólica:
1) No nosso quadro democrático estas comezinhas medidas de poupança tendem à irreversibilidade (não será o PSD a repor aquilo que o dito PS tirou)
2) As transformação encetadas e anunciadas na saúde atingem mais fortemente as populações que, no seio de um Estado provedor fraco, já se sentem suficientemente despeitadas por uma estrutura de privilégio marcadamente centralista e classista.
3) Porque Sócrates, justamente arvorado em reformador, vem permitindo que Correia de Campos surja como a face mais marcante do que aí vem para muitos. Desgraçadamente, pessoas imunes ao efeito alucinogéno do choque tecnológico, Ota e o TGV.

Não me peçam para elaborar

Desde o dia 11 passeio pelas urbes portuguesas mais falho de misantropia para com o transeunte desconhecido.

Laurinda Alves

Leio no público de ontem: terminada que foi a revista Xis, Laurinda Alves voltará a ter um espaço de escrita, no P2 às sextas-feiras. No fundo, não é a opção editorial do Público que me assombra, é a possibilidade, que assumo verosímil, de haver um publico-alvo para a pena de L.A.

m

A migração para o blogger beta fez desaparecer uma letra que há muito encimava a marginália deste blog. Reinscrita, ali ficará sem outras perturbações à parte as iguarias do amor.

Teleologia

Jorge Costa já é treinador principal do Braga. Já faltou mais.

Abuso da posição dominante


Lara

Transida de calores suburbanos, percorria a lista de links passeando o rapto óptico pelo corpo até encontrar um blog que lhe merecesse clic.

Etiquetas:


Talvez não se perdesse muito

"Se todos os autarcas que estão arguidos fossem suspender o mandato de certeza que o país não estava a funcionar neste momento." Carmona Rodrigues

O'Neill

Fico a saber por literatura recentemente chegada às bancas (apetitzer para breve) que Alexandre O'Neill tinha um plano B para a encomenda do Instituto de Socorros a Náufragos. Junto com o seu célebre slogan "Há mar e mar, há ir e voltar" lá ia outro delicioso preventivo: "Passe um Verão desafogado".

"Aí é que está!"

Sempre que alguém, em conversa, sublinha uma menção minha com a expressão "Aí é que está!" -- um clássico na persuasão consentida -- encho-me de ancestral pavor. Às vezes sou acometido pelo medo de ter razão, às vezes pelo medo de ser levado a sério, às vezes pelo medo de estar a ser usado para confirmar certezas que me são estranhas. O problema não é concordarem comigo (a afinidade "escolhe" os dialogantes e potencia a possibilidade de concordarem): acontece. O problema é a operação de enxerto implícita no "aí".

Profissões de espera

Da janela de uma pensão debruçada para a Praça da Figueira observo a prostituta envelhecida; ali está, sentada, a aguardar cliente, pelo menos há uma hora. Quieta. Sem um entretém, ali a apanhar seca. O que mais lhe custará a passar, pergunto. Se a monotonia das horas pacientes, se o momento da entrega às torpes cópulas e aos fellatios expresso.
Na verdade a prostituta partilha com os lojistas e outras profissões de expectativa a capacidade de espera: a capacidade de resistir ao tempo vago que vai de um negócio ao outro. Lojistas, prostitutas e outras profissões de espera têm um parentesco. Para esse parentesco pouco interessa com quem fodem e se o fazem durante ou depois do trabalho. A subjectividade tanto de lojistas como de prostitutas, percebida a partir de circunstâncias rotineiras de paciência, pouco se define pelo nome dado à profissão, depende sim, dramaticamente, das cogitações, lembranças e ensejos: dos murmúrios que lhes ocupam a espera.

BI

Para efeito de renovação do BI, são exigidas fotos que não tenham mais de 1 ano. Vou tentar dar o golpe: vou experimentar com umas fotografias de há 8 anos. O funcionário do arquivo de identificação dirá de sua justiça. Insistirei de toda a forma. A palavra dele contra a minha. No limite só me pode acusar de abatimento precoce.

Um grande dia

Calhou. Aqui há uns anos, aquando da viagem do famoso barco do aborto até às proximidades da nossa costa, apareci na televisão a dar a cara para defender a despenalização. Essa passagem televisiva, ainda que efémera, operou um efeito interessante no meu círculo de relações: uma espécie de mediatismo de proximidade. Dei por mim a ser abordado por pessoas amigas, conhecidas e vagamente conhecidas: queriam-me contar as suas experiências com a questão do aborto (clandestino, entenda-se). O mais curioso, sem dúvida, foram os testemunhos de mulheres mais velhas -- aquelas figuras maternais que orlam à minha volta desde a infância --, mulheres que, por qualquer preconceito, imaginava biograficamente afastadas destas questões.

Saber que nas suas juventudes ou em algum momento das suas vidas tinham recorrido ao aborto foi para mim chapada sociológica: tal é a dimensão do fenómeno do aborto clandestino que necessariamente toca pessoas que nos são próximas.
Imaginem então, por ter aparecido uns segundos na televisão a brandir a mudança da lei, fui feito confidente de histórias raramente contadas. Qual inesperada elicitação antropológica, foi o insólito meio para aceder a algo dos dramas por que passaram gerações e gerações de mulheres em Portugal. São mulheres que amiúde ficam caladas quando se fala publicamente em aborto, talvez querendo afastar das bocas de todos a má memória de uma dor tão privada. Para elas, este dia, onze de Fevereiro de dois mil e sete, chega tarde, mas chega. As memórias de sofrimento são mais suportáveis quando socialmente as podemos partilhar como injustas. A minha homenagem a todas essas mulheres, para as que doravante não mais terão que passar pelo aborto clandestino. Parabéns a todos nós.

Sim


Estamos de parabéns. Portugal.

Cartão de eleitor

Os distraídos que não sabem onde meteram o cartão podem pesquisar aqui o número de eleitor. Basta. Façam-se à urna sem mais delongas.

Intermezzo


Sábado

Temo que o (quase) fim da experiência do Sim no Referendo me comova mais do que aquilo que seria justificável. Sou cronicamente dado a lamechices, facto. Mesmo assim é absurdo, convenhamos.
A circunstância de partilhar ideais advogando-os em insólito colectivo, numa gramática de lealdade -- que se sabe circunscrita no tempo --, alimenta uma espécie de fé nas pessoas (que ao limite poderia independer da causa em questão, bem sei). No entanto, tudo se conjuga sem assombro: causa e forma.
Não somos melhores por aquilo que defendemos. A recursividade é outra: defendemos leis e estruturas que, acreditamos, nos ajudam a ser mais justos e melhores enquanto sociedade. E isso permanece na serenidade de um regresso.
As convicções inabaláveis, pessoal ou colectivamente defendidas, são as frágeis certezas da democracia .
É assim que é justo. Até Domingo.

Não há provação

Tiago, a única teimosia é a que seguirá resistindo a toda a dissensão: a amizade e admiração que te tenho (também há a inveja). Claro, por amor. Um dia desistes de me tentar desiludir e vamos distribuir panfletos juntos.

A saber

Vital Moreira no Causa Nossa
Qual é o efeito jurídico e político do referendo?

1. Ganhando o sim, o legislador parlamentar fica obrigado ou autorizado (conforme o referendo seja vinculativo ou não) a legislar no sentido proposto, ou seja, despenalizando o aborto, mediante a alteração do Código Penal, no prazo de 90 dias.
Caso vença o não, parece evidente que os votantes recusam a despenalização, ou seja, rejeitam pelo menos que o aborto deixe de ser penalmente punido. Pode eventualmente alterar-se a moldura penal, por exemplo reduzindo a pena prevista para o crime, mas mesmo aí pode entender-se que isso defrauda a vontade daqueles que votaram contra a despenalização justamente por apoiarem a punição que está em vigor. Seja como for, não se pode eliminar a punição penal nem adoptar uma medida de efeito equivalente, pois tal seria desrespeitar a vontade expressa no referendo.
Por isso, não faz o mínimo sentido político nem constitucional o apelo ao voto contra a despenalização do aborto para depois fazer o contrário, como sucede com a proposta feita à última da hora por alguns movimentos e personalidades antidespenalização, através de uma solução legislativa destinada a "despenalizar" na prática o aborto, afastando à partida qualquer punição, ainda que mantendo o crime no Código Penal ("despenalização" sem descriminalização)!
O essencial na pergunta do referendo é a despenalização, e não as suas circunstâncias adjectivas. Logo, se o não vencesse, não se poderia depois tentar conseguir um resultado similar, embora de diferente maneira.
Ler mais.

João César das Neves

Alguns excertos do livro que Marcelo Rebelo de Sousa apresentou.

Sérgio Godinho


Diz de sua justiça aqui.




Coisas simples: para eventuais indecisos

1 – Creio que todos concordamos: em Portugal há demasiadas gravidezes indesejadas. Estando elas, como sabemos, na origem das práticas abortivas, deveriam ser estreitadas a um mínimo. Tal estreitamento, parece consensual, passa por coisas como a promoção da educação sexual, pelo acesso aos contraceptivos e por apoios vários que ajudem a tornar a maternidade não esperada uma possibilidade tendencialmente mais acalentada (isto implica confrontar carências económicas, a pressão do mercado de trabalho, o estigma da maternidade independente e a uma série de condições que hoje fazem da maternidade/paternidade um desafio tantas vezes heróico).
2- A diminuição do fenómeno da gravidez indesejada, assim sendo, não depende tanto de um um certo assistencialismo voluntário ─ sem dúvida, uma salutar expressão da vitalidade sociedade civil. Requerem-se sobretudo transformações sociopolíticas que façam cerco às condições que, antes e depois da concepção, concorrem para a existência de gravidezes não desejadas.

Ler Mais

On Ronaldo

José Carlos Henriques, nos comentários do post anterior:

"juro que não me lembro de um jogador com tantas competências diferentes juntas... o moço pode jogar a ponta de lança, tem um jogo de cabeça impressionante, um remate potente e colocado, marca livres que é qualquer coisa, joga a extremo direito ou esquerdo (aquela velocidade, meu deus, aquela velocidade), hoje já defende e ataca, finta que nem um brasileiro, sabe jogar com o corpo que nem um alemão e tem cultura táctica que nem um italiano. Ah... e é tabloidizável que nem um inglês. Joga a 7, 8, 9, 10, 11... e a 4 ou 6 se for preciso. E, graças ao Queirós possivelmente, começa a paulatinamente resolver quase todos os pontos menos fortes (a colocação defensiva, a tendência exibicionista, a precisão do passe longo, etc.). Da-se...

Não é, ainda, "o" homem... e o risco de se consumir feito fogo fátuo e enveredar por curvas descendentes preocupa (veja-se o fenómeno, veja-se Owen, vejam-se os dois ou três putos argentinos comparados a Maradona todos os anos, etc.). Mas, com honestidade, não me lembro jamais de ver tanto potencial. Isto de ser tuga leva-nos ao sebastianismo, mas pelo moço até vale a pena um tipo deixar-se ir..."

Les beaux esprits se rencontrent.

Boloni desperdiçou o mais que pôde, Scolari procrastinou mais do que a estupidez habitualmente lhe permite. Dois extremos como Quaresma e Ronaldo, na mesma equipa, constituem uma obscena simetria de esplendoroso futebol. Não separe o homem o que um dia o Sporting juntou.

Crime sem Castigo



Também publicado no Sim no Referendo

Dos "orgulhosamente sós" aos "pioneiros": questões de terminologia

Assunção Cristas: “temos que ser pioneiros nalguma coisa.” (Prós&Contras, pelo Não)
Cara doutora Cristas, permita que a corrija: se vamos manter uma lei que os outros mudaram não estamos a ser pioneiros. Estamos, quando muito, a ser singulares. Mas, sendo singulares, só o estamos a ser por apego a um passado que se tornou remoto para a demais Europa. Logo estamos do lado contrário dos pioneiros. Entendeu esta parte? Não tenho dúvidas que se o Não ganhar, como pretende, Portugal terá em breve a melhor indústria de aborto clandestino da Europa, algo de que certamente muito se orgulhará. Mas entenda, ainda assim não seria pioneira. Seria uma indústria singular.

Também publicado no Sim no Referendo

Perdão às mulheres

Há dentro do Não quem defenda intransigentemente a sua posição e, para isso, não se perturbe em amesquinhar as (demais) mulheres, ora sugerindo-as fúteis ora destituindo-as do arbítrio para decisões ponderadas. Mas, tal é a deriva, que começo a pensar que também haverá quem esteja a usar a discussão do aborto para, a reboque do Não, poder dar livre curso à expressão da mais entranhada misoginia. Para estes últimos a ideia de que a mulher deva fazer trabalho comunitário ou pedir perdão à sociedade (possivelmente de joelhos) é infinitamente mais aliciante do que a cadeia: a bondosa indulgência cristaliza o poder de quem perdoa revestindo-o do divina complacência da boa sociedade.
Não tenho por certa a linha divisória destas duas vontades que militantemente vêm menorizando as mulheres ─ as que falam pelo não entronizam-se sempre como a excepção iluminada entre as outras, coitadas. Assisto contudo algo estarrecido ao modo como estas duas pulsões se diluem no Não e crescentemente dominam as possibilidades discursivas na defesa da lei vigente.

Também publicado no Sim no Referendo.

Tomara que caia



Fico a saber que do outro lado do atlântico existe uma peça de roupa chamada "tomara que caia". Não sei o que me comove mais, se a despudorada honestidade dos brasileiros, se a beleza duma indumentária cujo nome corteja o seu próprio desaparecimento.

FCP: O - Estrela da Amadora: 1

Foi o grande enigma da primeira volta da Liga: o Porto de Jesualdo praticamente não se ressentiu na lesão de Anderson. Com suprema arrogância a equipa continuou a jogar como se a lesão do puto prodígio não fosse tema de hecatombe, continuou a jogar como se a dependência até aí patenteada nada significasse, virou-se para Quaresma, acertou com Lucho e Meireles subidos no miolo, e seguiu esmagando. Por muito que tenha agradado às hostes portistas tamanha prova de resiliência, podemos supor o abalo moral e epistemológico que Anderson não terá vivenciado ao perceber-se mais prescindível do que alguém ousaria supor. É como uma ex que continua feliz com outro sem abalo ontológico que se veja: esfrangalha a a auto-estima.

Não tenhamos dúvidas, o maior capital que o Porto tem é o jogo de Anderson e a sua auto-consciência da sua genialidade: é essa auto-consciência, essa auto-estima ao divino futebolístico nele guardado que lhe permite explanar-se como o futuro melhor jogador do mundo. Agora que ele está aí a estourar em adivinhado regresso épico, a equipa esforça-se na mensagem: "Anderson, precisamos de ti". Pelo que daí pode vir, o clamor simbólico deste apelo vale bem a eliminação na taça ou os pontos doados. Que o Porto tenha aderido à semiótica de longo tempo, perdendo aqui e ali, a bem do porvir Anderseniano é algo que muitos fracassarão perceber. Talvez uma economia ampla do signo os possa esclarecer em breve, basta para tal que o simbolismo do divino regresso venha vivificar nos pés de Anderson.

O príncipe do NÃO

As reacções ao debate com o Daniel Oliveira na TSF permitiram perceber o enorme desconforto que César das Neves causa ao NÃO. César das Neves reiterou altissonante que defenderia uma legislação mais restritiva que a actual por forma a permitir, por exemplo, que uma mulher violada seja obrigada a levar a gravidez até ao fim. Fica a sensação que esta posição será tudo menos marginal dentro do Não, estará , isso sim, estrategicamente calada. Por outro lado, sejamos justos, haverá pessoas contrárias à despenalização que não se sentem representadas pelo NÃO de César das Neves. Até aqui ainda conseguimos entender. O que baralha um pouco qualquer genuína tentativa de destrinça é abrir o Público e ler que o livro de César das Neves Aborto, Uma abordagem Serena (imagino) será hoje apresentado por... Marcelo Rebelo de Sousa.

O professor anda numa fase confusa.
Também Publicado no Sim no Referendo

Semiótica Radical

Ilsa: When I said I would never leave you.
Rick: And you never will.

Semiótica Radical

O golo que Simão marcou contra o Belenenses, passado fim de semana, figurará nas estatísticas como um remate fora da área.

Flanar-te

"na memória que arrasto pelas ruas. "
Pedro Tamen

Nenhum apego às palavras conjura a prioridade de dois corpos que ritualmente levamos a esquecer, ruas afora.