Campanha rasteira
Homens que "SIM"*
Vital Moreira: Inteligência anciã e farta: fez de Aguiar Branco uma reles cassete. Esteve mesmo muito bem, disse tudo o que tinha a dizer (até demais: na parte do acordo pré-eleitoral, mau timing, parece-me). Manteve a calma e explicou paciente e diligentemente todo o detalhe. Brilhante sem cair na demagogia: é possível ser professoral sem abuso da posição dominante. Sim: brilhante é a palavra.
Vasco Rato Nos poucos minutos que lhe concederam pôs os dois principais contendores do Não a gaguejar ante as suas perguntas, alinhavou, sem remissão, o ascendente emocional do SIM nesses momentos. Entalou definitivamente o Aguiar Branco, mostrou-se enfim um extremoso sniper.
*Rescaldo do Prós & Contras (sim, sou faccioso)
Mulheres que "SIM"*
Catarina Furtado: A surpresa da noite: tenho que a reconsiderar urgentemente, não a imaginava mulher para tanto. E o bem que falou...
Fernanda Câncio: Conseguir explicar que morrem mulheres por aborto clandestino e não atirar uma cadeira à senhora de rosa bebé, que praguejava só para a irritar, é revelador de uma grandeza epistémico-moral rara. Ainda assim esperada - Já se sabe: sou fã confesso)
Lídia Jorge Excelente o seu poema inicial, crua e biograficamente inspirado (o do não contava a história de uma abortista adúltera e fútil, o costume, queriam eles dizer). Traída no debate pela passionalidade da indignação, Lídia Jorge não podia deixar de ser, para mim, por razões que passam por livros, e por mulheres, a mulher da noite)
Maria José Alves: Calma, explicativa, paciente sem nunca cair na persuasão fácil. De uma honestidade intelectual admirável. Bem tratada pelos anos, para mais não dizer.
*Rescaldo ao Prós & Contras
"Se fosse num sítio badalhoco sem condições nenhumas"
Homens que "SIM"
Vi em tempos uma T-shirt que muito me cativou. Envergava-a, justa, uma belíssima mulher. Tinha uns dizeres que não decifrei à primeira. Mas, curioso, insisti. De facto, é interessante notar como surgiu há uns anos a moda de se exibirem frases junto ao peito. Essa moda merece-me algumas reflexões. Primeiro, as frases escritas no algodão (ou Lycra) como que convidam o olhar a demorar-se nos contornos do corpo, uma espécie de dois em um, uma deliciosa forma mostrar, literalmente, como é possível dar corpo ao texto. Em segundo lugar, sugere-se a ideia de que as palavras que nos são queridas podem caminhar junto ao coração, sede simbólica dos afectos (lamechas as it might be). Finalmente, somos brindados com pretextos para conversas, alguém que assim “veste” determinadas afirmações acicata, frequentemente, a curiosidade de quem as lê, seja na rua, seja nos espaços de proximidade. Uma vez interpelei um tipo cuja T-shirt dizia solene: “Eu Acredito”. Adivinhei-o um místico. Enganei-me. Revelou-me a sua convicção de que o Benfica seria campeão naquela mesma época. Mau exemplo. Mas voltemos à tal T-shirt que tanto me fascinou.
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Prisioneiro

Robert Doisneau
Barbarian prisoner and Callipygian Venus, Versailles
1966
Marcelo e a Clandestinidade
A salvo da treinada bonomia com que Marcelo tenta disfarçar um fervoroso apego ao status quo, jaz um mundo social, largamente sinistro, que pouco se comove com o alardear oportunista e falacioso de um magnânimo perdão às mulheres. Marcelo não reconhece direito de escolha às mulheres, isso é que era bom, mas fala à boca cheia de extremosas indulgências por que nunca se bateu ─ fazer lei de uma hipotética excepção à lei é uma bizarra concepção do Estado de Direito, acrescente-se. Temos Marcelo Rebelo de Sousa feito enfim triste herói da clandestinidade.
Originalmente publicado no Sim no Referendo
Lançamento
Lisboa: 26 de Janeiro, 18 horas, Livraria Bulhosa, Campo Grande, 10B.
Apresentação de Fernanda Henriques e Duarte Vilar.
Breaking and Entering

Um filme precioso que, a meu ver, falha em dois momentos.
Primeiro é simplista a construção da alteridade em tempo de porosidades transnacionais (aqui sim, colhe a crítica que me parece gratuita para o Babel) . A tentativa de apanhar o ar do tempo por via da imigração e da geografia da exclusão numa grande metrópole é traída pelo "excesso arquetípico" no desenho biográfico de Amira (Juliette Binoche): Bósnia Muçulmana, fugida da guerra, em tempos casada com um Sérvio, tem a seu cargo um filho que, afastado da origem (renega o seu nome bósnio), sem referências na sociedade de acolhimento, envereda pelo crime. Todas as alusões a Sarajevo, à guerra e ao jogo de identidades na ex-Jugoslávia e na Londres cosmopolita são óbvias, preguiçosas e, o que é pior, mostram uma sofreguidão para capturar traços do mundo contemporâneo que só poderia cair na na biografia paradigmática.
Em segundo lugar, a parte final do enredo padece daquilo que é, na minha opinião, um equívoco narrativo. Falha que é em verosimilhança, sai forçadíssima. A resistência de Will (Jude Law) em comparecer à reunião judicial para evitar dar conta da sua proximidade com Amira não tem cabimento. Resulta claro ao mais crédulo seguidor do plot que uma coisa não implicaria a outra.
Feita a justiça ao que não gostei o que fica é uma magistral afeição de Minghella para frequentar o desafio quotidiano de partilhas que teimam resistir. Apesar, claro, de maceradas pelas investidas do desamor: por um lado, a permeabilidade às tensões de todos os dias (a solidão mártir de Amira (há muito que nenhum homem lhe toca), o flagelo trazido por dois filhos problemáticos, a depressão de Liv (Robin Wright Penn); do outro lado, a vaga de fundo de uma exclusão ontológica: Will padece por se sentir excluído do eixo formado pela mulher e pela enteada ao mesmo tempo que reconhece temer, inconscientemente, ver-se fechado nele: o seu lado negro, diz noutras palavras, é o instinto egoísta de não se diluir completamente nas dificuldades que lhe são íntimas.
Outro aspecto que me suscitou assinalável interesse: a forma como se desloca a identificação empática com que sigo o filme da figura masculina para as mulheres ─ particularmente para Amira. O facto de eu ser homem condiciona inevitavelmente ─ constrange constitutivamente - a minha recepção de uma história fixando-me com maior facilidade na pele da personagem masculina. Ademais, como na maior das vezes, em Breaking and Entering a câmara acompanha as interacções da personagem masculina, são as suas itinerâncias que iluminam as demais existências (p. ex. as mamas de Vera Farmiga são mediadas pelo pelo seu olhar). E, no entanto, aqui queria chegar, o filme é infinitamente mais rico e complexo quando seguido na pele de Amira (excepção às cenas de cama em que vale mais a pensa ser Jude Law, as leitoras discordarão…).
A cena final é paradigmática. O significado fundo da violação de intimidade jaz na escolha empática de quem mal aparece na tela. A furtiva Amira. Como tantas outras coisas, as possibilidades de remissão perante um arrombo estão injustamente distribuídas.
Sim
Também publicado no Sim no Referendo.
Violência simbólica
Como se percebe, o lamechoso suspiro em epígrafe nada se demora no que sejam as medidas de um soutien. O assombro deve-se ao tamanho da "pegada" por oposição ao elemento de passagem. Refere, portanto, a imanente disjunção entre a circunscrição material do mundo tangível e a acintosa desmedida do intangível. Estamos no domínio da cirurgia reconstitutiva em corpos marcados, especialidade que sendo estética o é apenas numa segunda ordem de urgência.
Fragrâncias
A estupidez da prova de acesso à nacionalidade
Há continuidades históricas que deviam fazer pensar:
"Mas, enquanto em Portugal, em 1930, 70 em cada 100 em portugueses eram analfabetos, aos indígenas exigia-se que soubessem ler, escrever e falar com correcção a língua portuguesa para serem considerados assimilados." in Serra (org.), 2000, História de Moçambique
SIM
Parece mentira
Babel e os críticos
Penso que essa pulsão de maldizer os críticos expressa sobretudo uma ansiedade de influência (apropriação manhosa de Harold Bloom). Explico. A necessidade de vilipendiar "os críticos", para daí afirmar uma leitura diferente sobre a qualidade de um filme, deve a uma tácita atribuição de autoridade. Ou seja, "porque se me torna insustentável divergir de quem tem influência, a minha opinião só sobrevive se fizer ruir os fundamentos dessa mesma influência: não consigo aguentar o mano-a-mano".
Portanto, nesta perspectiva, se eu preciso maldizer a "crítica" de cada vez que dou opinião oposta da que ganhou hegemonia na crítica influente (para um determinado contexto) é porque lhe confiro uma autoridade a que ela, feita como é de olhares pessoais, jamais se arroga.
Dito isto, não deixa de causar estranheza o consenso com que os críticos do Y peroram sobre a nulidade do Babel. Intuo estarmos perante um daqueles casos em que a saudável recursividade entre o gosto e a ideologia se cristalizou tornado-se numa via de sentido único. Eu cá gostei muitíssimo e talvez tenha a dignidade de explicar porquê em post ulterior (agora estou com pressa).Scoop
Tive oportunidade de ver há uns meses, numa rigorosa "ante-estreia", este retorno ingês da dupla Allen-Johansson. Scoop, está agora em cartaz pelo que me cumpre uma nobre missão de serviço público em vésperas de fim de semana. Para quem possa querer investir o seu tempo e dinheiro, talvez lembrado do efeito Match Point... Não.Scoop até para dizer mal é fraco. Podem enviar os 5 euros que pouparam para a minha conta, o NIB é do domínio público (queria eu...).
Cunhal
Caríssimo Tiago, também a mim desconcertou a ausência de Mário Soares da lista dos 10 portugueses mais votados. Creio que tal se deve a duas circunstâncias que pouco se comprazem com a mitificação, processo que infelizmente se mostra necessário ao recorte épico destas consagrações: 1- Está vivo; 2- Esteve envolvido recentemente num processo eleitoral, elemento que amplia a noção da sua intimidade com o mundo dos mortais.
Todos sabemos o quanto a democracia lhe deve, mas nada disso retira ao estatuto histórico de Cunhal enquanto alguém a quem o 25 de Abril tanto deve (isto a despeito do que fossem os seus desígnios pós-revolucionários ou de revolução permanente). Aliás essa asserção encontra-se celebrizada num comício em que o mesmíssimo Soares se dirige a Cunhal exaltando o papel do partido por este liderado na luta contra a ditadura. E é exactamente numa leitura estrita, por isso enviesada, em que guardo a acção histórica e negligencio os sonhos não cumpridos, é nessa leitura particular, dizia, que reitero a ideia de Cunhal como um combatente pela liberdade. É isto que é real nas suas consequências.
Conforme alegava, instigado pelo Eduardo nos comentários do post anterior, considero que a luta empreendida contra a ditadura visava em última instância a liberdade... A liberdade de construir algo radicalmente diferente, e - friso - não necessariamente a liberdade democrática como regra pós-revolucionária (daí as semelhanças autoritárias que podemos adivinhar virem a resultar dos sonhos cumpridos de Cunhal).
Mas esse momento de "pura liberdade", de indomesticável possibilidade, existiu na manhã limpa, e a prova de que o fermento da liberdade lá estava, quiçá fugindo a muitos dos seus mais heróicos criadores, foi o surgimento da democracia (Avé Soares).
História nacional da infâmia
Quis a história que Álvaro Cunhal fosse, sobre tudo o mais, um extraordinário combatente pela liberdade. Salazar um ditador anacrónico. É a vida.
Cobardia ontológica
"Tem que reiniciar o computador para que as actualizações surtam efeito."É aqui que eu hesito. Sou, nalguma medida, um irredimível conservador.
Grandes Portugueses
Escusado
P.s. É profundamente injusto que aqui refira pela primeira vez um programa que tanto aprecio exactamente para expressar desapontamento (é disso que se trata). Vale a ressalva: não por acaso tinha a televisão ligada àquela hora.
Figo
"Não decidi deixar o Inter, decidi deixar o futebol de alto nível. Se tivesse decidido continuar no futebol de alto nível, não o faria nem sequer no Sporting. A última camisola que conta para mim é a do Inter." Luís Figo
Como sempre disse, os sportinguistas andaram 10 anos a mal-dirigir a mitologia do regresso. Não me ouviram. Curiosamente, o que há nisso de avassalador, ao nível identitário, não é tanto o equivocado objecto de querença, mas esse bizarro ensejo, em nós estruturalmente fundeado, de mais querer quem foi.
Sangue
Nos últimos dias recebi duas SMS's para situações diferentes pedindo com urgência sangue B -(negativo). Duas coisas que eu não entendo nisto:
1- a precariedade das reservas de sangue chega ao ponto de deixar de haver em stock um tipo de sangue (ainda que muito raro)?
2- Porque é que nos apelos não eram referidos os dadores universais (0- (zero Rh negativo), meu caso)?
Top
IVG
Relativismo
Jesualdo
Porto: 0 Atlético: 1
Não somos tão ubíquos na desgraça que com com ela nos confundamos, nem tão ignaros dos sortilégios que não possamos acolher a derrota com serenidade. Serenidade triste, é certo. É nisto, mais do que em qualquer fruteira perdida aos pés do Atlético, que jaz o assombro nacional. A única Selecção Nacional com espessura sociológica é a dos abutres do Porto. Clube ícone de um heroísmo consequente, mitologia imprópria para a massa onírica dessa prístina portugalidade que só Scolari concede madura: o quase lá. Pessoa falava do vindouro Portugal, dizendo: “Extraviámo-nos a tal ponto que devemos estar no caminho certo”. É uma máxima para a vida, ideal para encaixar maleitas e para uso diverso no caos pessoal (sei do que falo). No Porto, no futebol, pensa-se de outra maneira. Dizemos: "vamos voltar para trás e ver onde nos fodemos". É sempre assim. E nisto o vosso assombro diluído no compasso do "salta atlético, olé!". O medo do amanhã perpassa no eco da casa dos leitões.
587

A sérvia Jelena Dokic veio desmentir informações segundo as quais se iria submeter brevemente a uma cirurgia com vista à redução dos seios. Ficou assim descartada a intervenção anteriormente noticiada como estratégia para melhorar a performance da tenista nos courts.
A número 587 do ranking WTP mostrou ter prioridades que desconcertam o pragmatismo de muitos. No entanto, cabe assentir: ao fazer vivificar formas fadadas à sombra dos grand slam's, Dokic diz-nos algo sobre a modéstia da felicidade ao mesmo tempo que nos confronta com a exuberância de uma ética que se compraz na ficção original da beleza. A Sharapova que me perdoe, mas um mundo onde as condições de impossibilidade são tão frondosamente acolhidas comove-me bem mais do que esse outro onde habita a ficção do sucesso em toda a linha.
Mas
«CONTRA A PENA DE MORTE: logo contra a execução de Saddam. Sem nenhum "mas"»
Experimentem ler a crónica assinada por JPP hoje no público (link só para assinantes) (integral no abrupto). Tal é a desfaçatez do exercício de "mas" ali ensaiado que podemos questionar se a pirataria não terá chegado ao jornal. Andará algum ghost writer a brincar com os solenes princípios de JPP ou dá-se o caso de ser o próprio?
Da série:
"Humanismo é não ter acabado a rastejar pelas ruas de Bagdade, Mussolini style."
Ia moralizar e sentir-me-ia francamente ridículo nesse papel. Caríssimo Tiago, ainda que te perceba inebriado pelo estilo transgressivo a la Spectator, cujo fascínio não é inteiramente estranho a este esquerdalha, devo dizer que muito lamento a tua leveza. Nem tudo é uma questão de estilo, parece-me. Por outro lado, que seja essa a medida de uma sensibilidade humanista que te serve, sou obrigado a descrer. Faço-o num gesto reflexo, subjectivo, certamente patético, em que me vejo a salvar uma autoria das palavras cadentes.
Questões de partida
"Quando foi que eu me fodi?"
António Lobo Antunes, Memória de Elefante


