Campanha rasteira

Os rumores que dão como certa uma ligação de Laurinda Alves à revista Xis constituem uma óbvia tentativa de achincalhar a autora para o actual debate. Não se faz.

Homens que "SIM"*

José Manuel Pureza: estava de facto inspiradíssimo, nada a fazer. Duas intervenções de pura antologia.
Vital Moreira: Inteligência anciã e farta: fez de Aguiar Branco uma reles cassete. Esteve mesmo muito bem, disse tudo o que tinha a dizer (até demais: na parte do acordo pré-eleitoral, mau timing, parece-me). Manteve a calma e explicou paciente e diligentemente todo o detalhe. Brilhante sem cair na demagogia: é possível ser professoral sem abuso da posição dominante. Sim: brilhante é a palavra.
Vasco Rato Nos poucos minutos que lhe concederam pôs os dois principais contendores do Não a gaguejar ante as suas perguntas, alinhavou, sem remissão, o ascendente emocional do SIM nesses momentos. Entalou definitivamente o Aguiar Branco, mostrou-se enfim um extremoso sniper.

*Rescaldo do Prós & Contras (sim, sou faccioso)

Mulheres que "SIM"*

Ana Catarina Mendes: Puxou com insigne arte dos galões de legisladora ponderada e responsável. Nem precisou de usar o argumento que traz na barriga para dar prova daquilo que pode coexistir com um rotundo sim.
Catarina Furtado: A surpresa da noite: tenho que a reconsiderar urgentemente, não a imaginava mulher para tanto. E o bem que falou...
Fernanda Câncio: Conseguir explicar que morrem mulheres por aborto clandestino e não atirar uma cadeira à senhora de rosa bebé, que praguejava só para a irritar, é revelador de uma grandeza epistémico-moral rara. Ainda assim esperada - Já se sabe: sou fã confesso)
Lídia Jorge Excelente o seu poema inicial, crua e biograficamente inspirado (o do não contava a história de uma abortista adúltera e fútil, o costume, queriam eles dizer). Traída no debate pela passionalidade da indignação, Lídia Jorge não podia deixar de ser, para mim, por razões que passam por livros, e por mulheres, a mulher da noite)
Maria José Alves: Calma, explicativa, paciente sem nunca cair na persuasão fácil. De uma honestidade intelectual admirável. Bem tratada pelos anos, para mais não dizer.

*Rescaldo ao Prós & Contras

"Se fosse num sítio badalhoco sem condições nenhumas"


Original aqui.

Homens que "SIM"

Os Marcelos e os Césares que convictamente menorizam as mulheres, retirando-lhes a capacidade de decisão sobre uma interrupção voluntária da gravidez (ao mesmo tempo que se comprazem com a costumeira clandestinidade) como que brandem o slogan: “Mulher do meu país, eu sei o melhor para ti”. Ora, este tipo de argumentação paternalista/caridosa cumpre a função de instigar muitos homens provocando o melhor dos seus “instintos feministas”.

Vi em tempos uma T-shirt que muito me cativou. Envergava-a, justa, uma belíssima mulher. Tinha uns dizeres que não decifrei à primeira. Mas, curioso, insisti. De facto, é interessante notar como surgiu há uns anos a moda de se exibirem frases junto ao peito. Essa moda merece-me algumas reflexões. Primeiro, as frases escritas no algodão (ou Lycra) como que convidam o olhar a demorar-se nos contornos do corpo, uma espécie de dois em um, uma deliciosa forma mostrar, literalmente, como é possível dar corpo ao texto. Em segundo lugar, sugere-se a ideia de que as palavras que nos são queridas podem caminhar junto ao coração, sede simbólica dos afectos (lamechas as it might be). Finalmente, somos brindados com pretextos para conversas, alguém que assim “veste” determinadas afirmações acicata, frequentemente, a curiosidade de quem as lê, seja na rua, seja nos espaços de proximidade. Uma vez interpelei um tipo cuja T-shirt dizia solene: “Eu Acredito”. Adivinhei-o um místico. Enganei-me. Revelou-me a sua convicção de que o Benfica seria campeão naquela mesma época. Mau exemplo. Mas voltemos à tal T-shirt que tanto me fascinou.

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Prisioneiro



Robert Doisneau
Barbarian prisoner and Callipygian Venus, Versailles
1966

Marcelo e a Clandestinidade

Marcelo Rebelo de Sousa até sabe que o aborto clandestino seguiria a sua próspera senda se, como militantemente deseja, o Não vingasse. Mas, conforme se percebe no meio da salsa a que solenemente chama Não Heterodoxo (sic), nada o move contra o fervilhante mercado informal de aborto, nada o move contra um quadro que potencia os perigos da clandestinidade ─ confrangedoramente segurados pelas urgências dos hospitais públicos ou pelas mezinhas caseiras ─, nada o move contra a incontinência abortiva que vai de par com um eloquente desvio do olhar (segundo dados de um inquérito encomendado pela Associação para o Planeamento Familiar 350 mil mulheres portuguesas terão abortado).
A salvo da treinada bonomia com que Marcelo tenta disfarçar um fervoroso apego ao status quo, jaz um mundo social, largamente sinistro, que pouco se comove com o alardear oportunista e falacioso de um magnânimo perdão às mulheres. Marcelo não reconhece direito de escolha às mulheres, isso é que era bom, mas fala à boca cheia de extremosas indulgências por que nunca se bateu ─ fazer lei de uma hipotética excepção à lei é uma bizarra concepção do Estado de Direito, acrescente-se. Temos Marcelo Rebelo de Sousa feito enfim triste herói da clandestinidade.

Originalmente publicado no Sim no Referendo

Lançamento




Lisboa: 26 de Janeiro, 18 horas, Livraria Bulhosa, Campo Grande, 10B.

Apresentação de Fernanda Henriques e Duarte Vilar.

Breaking and Entering



Um filme precioso que, a meu ver, falha em dois momentos.
Primeiro é simplista a construção da alteridade em tempo de porosidades transnacionais (aqui sim, colhe a crítica que me parece gratuita para o Babel) . A tentativa de apanhar o ar do tempo por via da imigração e da geografia da exclusão numa grande metrópole é traída pelo "excesso arquetípico" no desenho biográfico de Amira (Juliette Binoche): Bósnia Muçulmana, fugida da guerra, em tempos casada com um Sérvio, tem a seu cargo um filho que, afastado da origem (renega o seu nome bósnio), sem referências na sociedade de acolhimento, envereda pelo crime. Todas as alusões a Sarajevo, à guerra e ao jogo de identidades na ex-Jugoslávia e na Londres cosmopolita são óbvias, preguiçosas e, o que é pior, mostram uma sofreguidão para capturar traços do mundo contemporâneo que só poderia cair na na biografia paradigmática.

Em segundo lugar, a parte final do enredo padece daquilo que é, na minha opinião, um equívoco narrativo. Falha que é em verosimilhança, sai forçadíssima. A resistência de Will (Jude Law) em comparecer à reunião judicial para evitar dar conta da sua proximidade com Amira não tem cabimento. Resulta claro ao mais crédulo seguidor do plot que uma coisa não implicaria a outra.

Feita a justiça ao que não gostei o que fica é uma magistral afeição de Minghella para frequentar o desafio quotidiano de partilhas que teimam resistir. Apesar, claro, de maceradas pelas investidas do desamor: por um lado, a permeabilidade às tensões de todos os dias (a solidão mártir de Amira (há muito que nenhum homem lhe toca), o flagelo trazido por dois filhos problemáticos, a depressão de Liv (Robin Wright Penn); do outro lado, a vaga de fundo de uma exclusão ontológica: Will padece por se sentir excluído do eixo formado pela mulher e pela enteada ao mesmo tempo que reconhece temer, inconscientemente, ver-se fechado nele: o seu lado negro, diz noutras palavras, é o instinto egoísta de não se diluir completamente nas dificuldades que lhe são íntimas.

Outro aspecto que me suscitou assinalável interesse: a forma como se desloca a identificação empática com que sigo o filme da figura masculina para as mulheres ─ particularmente para Amira. O facto de eu ser homem condiciona inevitavelmente ─ constrange constitutivamente - a minha recepção de uma história fixando-me com maior facilidade na pele da personagem masculina. Ademais, como na maior das vezes, em Breaking and Entering a câmara acompanha as interacções da personagem masculina, são as suas itinerâncias que iluminam as demais existências (p. ex. as mamas de Vera Farmiga são mediadas pelo pelo seu olhar). E, no entanto, aqui queria chegar, o filme é infinitamente mais rico e complexo quando seguido na pele de Amira (excepção às cenas de cama em que vale mais a pensa ser Jude Law, as leitoras discordarão…).

A cena final é paradigmática. O significado fundo da violação de intimidade jaz na escolha empática de quem mal aparece na tela. A furtiva Amira. Como tantas outras coisas, as possibilidades de remissão perante um arrombo estão injustamente distribuídas.

Sim

Após sem sequer pestanejar ter respondido "sim" ao convite, junto-me pelas próximas semanas à malta do Sim no Referendo. O sim no referendo é um sim sensível que no passado muito me fez pestanejar e pensar, tanto - e aqui vai confissão - que em 98 não votei. Desde então, cumulei certezas e indignações; resenhas de hipocrisia, clandestinidade e despotismo patriarcal. Adensou-se uma funda convicção a que se mistura há muito uma boa dose de revolta. Este é dos casos (raros, para ser cínico) em que a mudança de uma lei pode ter implicações sociais imediatas de assinalável envergadura. Para atalhar o prefácio: sim aos abortos seguros, dignos e raros.

Também publicado no Sim no Referendo.

Violência simbólica

"Nada justificaria tamanha pegada de seio"

Como se percebe, o lamechoso suspiro em epígrafe nada se demora no que sejam as medidas de um soutien. O assombro deve-se ao tamanho da "pegada" por oposição ao elemento de passagem. Refere, portanto, a imanente disjunção entre a circunscrição material do mundo tangível e a acintosa desmedida do intangível. Estamos no domínio da cirurgia reconstitutiva em corpos marcados, especialidade que sendo estética o é apenas numa segunda ordem de urgência.

Fragrâncias

O cheiro do ferro de engomar.

A estupidez da prova de acesso à nacionalidade

"pode-se ser português e analfabeto mas não se pode passar a ser português se se for analfabeto?"

Há continuidades históricas que deviam fazer pensar:

"Mas, enquanto em Portugal, em 1930, 70 em cada 100 em portugueses eram analfabetos, aos indígenas exigia-se que soubessem ler, escrever e falar com correcção a língua portuguesa para serem considerados assimilados." in Serra (org.), 2000, História de Moçambique

SIM

Paulo Portas pensava muito bem na época.

Parece mentira

As notícias que só agora nos chegam sobre o rapto de Rute Monteiro.

Babel e os críticos

Vejo algo estupefacto que as apreciações do Y (onde sempre busco com especial afinco a hábil pena do Luís Miguel Oliveira) foram moderadamente simpáticas com o Scoop (provavelmente o pior filme que vi em 2006, e deus sabe como me esforcei). Apreensões subjectivas, claro está. Não vou nessa de desqualificar os críticos no mesmo movimento que afirmo o meu gosto diverso, uma leviandade que se tornou moda, parece-me.

Penso que essa pulsão de maldizer os críticos expressa sobretudo uma ansiedade de influência (apropriação manhosa de Harold Bloom). Explico. A necessidade de vilipendiar "os críticos", para daí afirmar uma leitura diferente sobre a qualidade de um filme, deve a uma tácita atribuição de autoridade. Ou seja, "porque se me torna insustentável divergir de quem tem influência, a minha opinião só sobrevive se fizer ruir os fundamentos dessa mesma influência: não consigo aguentar o mano-a-mano".
Portanto, nesta perspectiva, se eu preciso maldizer a "crítica" de cada vez que dou opinião oposta da que ganhou hegemonia na crítica influente (para um determinado contexto) é porque lhe confiro uma autoridade a que ela, feita como é de olhares pessoais, jamais se arroga.

Dito isto, não deixa de causar estranheza o consenso com que os críticos do Y peroram sobre a nulidade do Babel. Intuo estarmos perante um daqueles casos em que a saudável recursividade entre o gosto e a ideologia se cristalizou tornado-se numa via de sentido único. Eu cá gostei muitíssimo e talvez tenha a dignidade de explicar porquê em post ulterior (agora estou com pressa).

Scoop

Tive oportunidade de ver há uns meses, numa rigorosa "ante-estreia", este retorno ingês da dupla Allen-Johansson. Scoop, está agora em cartaz pelo que me cumpre uma nobre missão de serviço público em vésperas de fim de semana. Para quem possa querer investir o seu tempo e dinheiro, talvez lembrado do efeito Match Point... Não.

Scoop até para dizer mal é fraco. Podem enviar os 5 euros que pouparam para a minha conta, o NIB é do domínio público (queria eu...).

Cunhal

Caríssimo Tiago, também a mim desconcertou a ausência de Mário Soares da lista dos 10 portugueses mais votados. Creio que tal se deve a duas circunstâncias que pouco se comprazem com a mitificação, processo que infelizmente se mostra necessário ao recorte épico destas consagrações: 1- Está vivo; 2- Esteve envolvido recentemente num processo eleitoral, elemento que amplia a noção da sua intimidade com o mundo dos mortais.
Todos sabemos o quanto a democracia lhe deve, mas nada disso retira ao estatuto histórico de Cunhal enquanto alguém a quem o 25 de Abril tanto deve (isto a despeito do que fossem os seus desígnios pós-revolucionários ou de revolução permanente). Aliás essa asserção encontra-se celebrizada num comício em que o mesmíssimo Soares se dirige a Cunhal exaltando o papel do partido por este liderado na luta contra a ditadura. E é exactamente numa leitura estrita, por isso enviesada, em que guardo a acção histórica e negligencio os sonhos não cumpridos, é nessa leitura particular, dizia, que reitero a ideia de Cunhal como um combatente pela liberdade. É isto que é real nas suas consequências.

Conforme alegava, instigado pelo Eduardo nos comentários do post anterior, considero que a luta empreendida contra a ditadura visava em última instância a liberdade... A liberdade de construir algo radicalmente diferente, e - friso - não necessariamente a liberdade democrática como regra pós-revolucionária (daí as semelhanças autoritárias que podemos adivinhar virem a resultar dos sonhos cumpridos de Cunhal).

Mas esse momento de "pura liberdade", de indomesticável possibilidade, existiu na manhã limpa, e a prova de que o fermento da liberdade lá estava, quiçá fugindo a muitos dos seus mais heróicos criadores, foi o surgimento da democracia (Avé Soares).


História nacional da infâmia

Não compro de jeito nenhum o exercício por tentado a propósito da eleição dos grandes portugueses. Refiro-me ao intuito de estabelecer uma simetria entre Salazar e Álvaro Cunhal (uma importação atabalhoada do binómio Hitler/Estaline). Bem podem brandir o porvir anti-democrático que Álvaro Cunhal visionou para o Portugal após 25 de Abril (ainda bem que falhou). Se a história prática do comunismo fez duvidar dolorosamente os proventos humanos da sociedade socialista vagamente inspirada em Marx, aproximada que foi dos fascismos nas suas consequência totalitárias, a verdade é que Álvaro Cunhal foi obrigado a ajustar as suas intenções à democracia. Dele, da sua prática política, fica a resistência à ditadura. De duvidosas intenções a soldo de sonhos perigosos todos somos guardados pelas densidades da vida. E isso, bênção ou desgraça, faz toda a diferença: "se és bem casado agradece à poderosa vizinha que não te passa cartão".
Quis a história que Álvaro Cunhal fosse, sobre tudo o mais, um extraordinário combatente pela liberdade. Salazar um ditador anacrónico. É a vida.

Cobardia ontológica

"Tem que reiniciar o computador para que as actualizações surtam efeito."
É aqui que eu hesito. Sou, nalguma medida, um irredimível conservador.

Grandes Portugueses

Já estão escolhidos os 10 candidatos ao título de "maior português de sempre". Dado que a lógica deste concurso (como o prova o vocabulário "grande" "maior"), remete para a exaltação dos eleitos, -- não se tratando portanto do mero reconhecimento da sua importância histórica como acontece, por exemplo, na eleição da personalidade do ano da Time -- fico algo curioso para saber quem será nomeado o defensor de Salazar. Imagino, obviamente, alguns candidatos.

Escusado

Direi o mínimo: foi um quanto confrangedor o sketch exibido no Isto e Uma Espécie de Magazine com as imagens da execução de Saddam (ajuizai vós, ver aqui).

P.s. É profundamente injusto que aqui refira pela primeira vez um programa que tanto aprecio exactamente para expressar desapontamento (é disso que se trata). Vale a ressalva: não por acaso tinha a televisão ligada àquela hora.



Figo

"Não decidi deixar o Inter, decidi deixar o futebol de alto nível. Se tivesse decidido continuar no futebol de alto nível, não o faria nem sequer no Sporting. A última camisola que conta para mim é a do Inter." Luís Figo

Como sempre disse, os sportinguistas andaram 10 anos a mal-dirigir a mitologia do regresso. Não me ouviram. Curiosamente, o que há nisso de avassalador, ao nível identitário, não é tanto o equivocado objecto de querença, mas esse bizarro ensejo, em nós estruturalmente fundeado, de mais querer quem foi.

Sangue

Costumo dar sangue com relativa regularidade (sempre que o meu altruísmo se lembra das sandes de paio servidas nos HUC após a colheita), mas, na verdade, pouco sei sobre os mecanismos de funcionamento do Instituto Português do Sangue e da centralidade compensatória dos recursos de emergência criados na sociedade civil. Explico:

Nos últimos dias recebi duas SMS's para situações diferentes pedindo com urgência sangue B -(negativo). Duas coisas que eu não entendo nisto:
1- a precariedade das reservas de sangue chega ao ponto de deixar de haver em stock um tipo de sangue (ainda que muito raro)?
2- Porque é que nos apelos não eram referidos os dadores universais (0- (zero Rh negativo), meu caso)?

Top

dos 10 achados arqueológicos de 2006: aqui.

IVG

Ó JCD, sendo tu, como afirmas, favorável à despenalização da IVG, quero jurar que me parece algo incompreensível (note-se o eufemismo na construção frásica) que o teu voto possa ser decidido pelo economicismo dos encargos para o Serviço Nacional de Saúde. Por muito que o salivar pavloviano anti-Estado tenha sobre ti o efeito bloguístico que se conhece, desde os saudosos tempos do Janquizinhos, tem lá juízo! Até porque, economicismo por economicismo, o teu voto “não” iria continuar a carregar o Serviço Nacional de Saúde de mulheres com azar ao aborto clandestino. E tu não queres isso. Fica caríssimo.

Relativismo

Chegar tarde ao trabalho, suportar filas em dia de greve é, como outras contrariedades quotidianas, uma terrível maçada. Mas quem ouve as clássicas entrevistas aos utentes do metro, tal é o pânico que perpassa, mais pareceria que estávamos em pleno Iraque no rescaldo de mais um atentado. Anda tudo à procura de um sentido trágico para a existência. Por amor de algum santinho, enquanto não houver granadas a rebentar, vamos lá ter alguma temperança.

Jesualdo

Lembram-me que Jesualdo Ferreira já tinha sido o responsável pela eliminação do Benfica ante o Gondomar. De facto foi muito inteligente jogar só com 4 titulares (sim, a equipa base devia estar muito cansada das férias do Natal). Sr. Jesualdo Ferreira, e se em vez de pedir seriedade aos jogadores assumisse o seu orgulhoso CV de tomba-gigantes? É preciso ser grunho.

Porto: 0 Atlético: 1

O que nos distingue:

Não somos tão ubíquos na desgraça que com com ela nos confundamos, nem tão ignaros dos sortilégios que não possamos acolher a derrota com serenidade. Serenidade triste, é certo. É nisto, mais do que em qualquer fruteira perdida aos pés do Atlético, que jaz o assombro nacional. A única Selecção Nacional com espessura sociológica é a dos abutres do Porto. Clube ícone de um heroísmo consequente, mitologia imprópria para a massa onírica dessa prístina portugalidade que só Scolari concede madura: o quase lá. Pessoa falava do vindouro Portugal, dizendo: “Extraviámo-nos a tal ponto que devemos estar no caminho certo”. É uma máxima para a vida, ideal para encaixar maleitas e para uso diverso no caos pessoal (sei do que falo). No Porto, no futebol, pensa-se de outra maneira. Dizemos: "vamos voltar para trás e ver onde nos fodemos". É sempre assim. E nisto o vosso assombro diluído no compasso do "salta atlético, olé!". O medo do amanhã perpassa no eco da casa dos leitões.

587




A sérvia Jelena Dokic veio desmentir informações segundo as quais se iria submeter brevemente a uma cirurgia com vista à redução dos seios. Ficou assim descartada a intervenção anteriormente noticiada como estratégia para melhorar a performance da tenista nos courts.

A número 587 do ranking WTP mostrou ter prioridades que desconcertam o pragmatismo de muitos. No entanto, cabe assentir: ao fazer vivificar formas fadadas à sombra dos grand slam's, Dokic diz-nos algo sobre a modéstia da felicidade ao mesmo tempo que nos confronta com a exuberância de uma ética que se compraz na ficção original da beleza. A Sharapova que me perdoe, mas um mundo onde as condições de impossibilidade são tão frondosamente acolhidas comove-me bem mais do que esse outro onde habita a ficção do sucesso em toda a linha.

Mas

A 6 de Novembro de 2006, José Pacheco Pereira anunciava lapidar:
«CONTRA A PENA DE MORTE: logo contra a execução de Saddam. Sem nenhum "mas"»

Experimentem ler a crónica assinada por JPP hoje no público (link só para assinantes) (integral no abrupto). Tal é a desfaçatez do exercício de "mas" ali ensaiado que podemos questionar se a pirataria não terá chegado ao jornal. Andará algum ghost writer a brincar com os solenes princípios de JPP ou dá-se o caso de ser o próprio?

Da série:

Tu não disseste isto

"Humanismo é não ter acabado a rastejar pelas ruas de Bagdade, Mussolini style."

Ia moralizar e sentir-me-ia francamente ridículo nesse papel. Caríssimo Tiago, ainda que te perceba inebriado pelo estilo transgressivo a la Spectator, cujo fascínio não é inteiramente estranho a este esquerdalha, devo dizer que muito lamento a tua leveza. Nem tudo é uma questão de estilo, parece-me. Por outro lado, que seja essa a medida de uma sensibilidade humanista que te serve, sou obrigado a descrer. Faço-o num gesto reflexo, subjectivo, certamente patético, em que me vejo a salvar uma autoria das palavras cadentes.

Questões de partida

"Quando foi que eu me fodi?"
António Lobo Antunes, Memória de Elefante

Lâmpada mágica

Para Lara, a masturbação passou a ser a forma de chamar os seus mortos.