¿Por qué te callas?

Caro Luís, recebo com sincera lisonja a tua valorização do meu silêncio e o modo paciente com o terás coleccionado. Longe de me sentir "patrulhado", dou-me a explicar esse silêncio por duas razões: porque leio na tua nota uma atenção genealógica vinda de momentos políticos em que, debatendo, discordámos; porque gosto de ti e ficaria triste se desistisses de mim. Haveria aqui um outro debate sobre o excesso messiânico com que eventualmente nos vemos a postar (contra mim falo), fica para outra altura.

Como a escrita que aqui me apetece não tem uma uma compleição primordialmente política, tendo a falar de temas políticos apenas quando sou incandescido por alguma indignação forte ou quando acho que tenho algo a acrescentar (coisa rara). Portanto, mais depressa me debruço sobre o teclado quando tenho uma opinião contra-corrente; do mesmo modo me refastelo quando vejo que alguém já fez o trabalho, dizendo mais ou menos o que eu diria e melhor que eu.

Falemos nós da proto-ditadura chavista, falemos nós da vinda de ditadores sanguinários a Lisboa, temos toda uma blogosfera, à direita e à esquerda, a apontar teclados na justa denúncia de regimes tutelados ora pela avidez autoritária (caso de Chavez), ora pela cleptocracia, autocracia e completo desprezo pelas populações que servem (caso de muitos dos líderes reunidos na cimeira).

E porque a blogosfera política tem agendas muito próprias, refractando quer a opinião pública mais ampla, quer a importância relativa dos temas na realidade social (não podia ser de outra maneira), a verdade é que as questões a que aludes têm sido até das mais exaustivamente tratadas no espaço da bloga. Isto mesmo lembrava o Pacheco Pereira quando no comparativo entre a atenção dada a Chavez e Putin falava de uma "cultura blogue". Se me permites uma coruptela de Malinowski/Lévi-Straus, diria que, de facto, "Chavez é bom para postar".

Chavez é muito "postogénico" na medida em que a denúncia das suas ambições autoritárias recolhe de um património cultural amplamente crítico das experiências socialistas do século XX (sinceramente tenho encontrado pouco quem lhe delegue a nostalgia marxista). Por isso ele é amaldiçoado à exaustão num flagrante contraste com a atenção dada a outros líderes anti-democráticos que exercem o poder olimpicamente alheados do bem-estar das populações e de qualquer desígnio de distribuição da riqueza (o que para certa direita até lhe agrava as culpas, não para mim). Isto dito, que fique claro que o meu porto de chegada não é o habitual movimento cínico (que, aliás, horripilo): "preocupas-te com isto, mas do Tajiquistão não falas tu". A atenção vigilante com que se segue a tentação totalitária de Chavez tranquiliza-me, a denúncia dos feitos domésticos de actores políticos aparece-me como uma vital desconstrução da solenidade cimeiresca.

Mas vamos ao que, adivinho, te terá inspirado o post. É verdade, Luís, que não me revejo na "esquerda civilizacional", essa esquerda tão completamente deleitada com as conquistas do Ocidente. É verdade que percebo nessa esquerda uma insuportável arrogância e uma amnésia atroz em relação ao que poderíamos sintetizar como o lado sombrio do Renascimento. Mas porque entendo que a história em nada iliba as responsabilidades dos líderes do mundo pós-colonial -- embora ajude a reconstituir a linhagem do continuado desespero dos povos -- do que aí fui lendo à esquerda só mudaria o tom de uma ou outra frase para poder assinar por baixo. Não é por aí.



<< Home