Mourinho: dois perdidos

Sobre a escolha do próximo seleccionador Inglês, o Rogério Casanova recomenda um texto que nos coloca na linha de um debate fundamental para o futuro da Europa (associo-me à moratória governamental sobre o tratado de Lisboa: eles vencidos pelo medo da democracia, eu vencido pelo tédio que o tema me inspira):
Deverão os ingleses projectar um retorno nativista às origens, 'futebol in its purest, english, form', investindo na simplicidade de um 'joyous game of kick and rush', ou deverão render-se à corruptela que se globalizou"[an] ethereal, acrobatic and even artistic version of a game that was never designed to be beautiful"?

Após o jogo contra a Croácia, a literatura futebolística inglesa entrou num momento de reflexão só comparável ao tumulto que conduziu a Igreja Católica ao Tratado Trento. Li tudo.

Vários colunistas apontavam o chicote auto-flagelador à formação ministrada nos clubes. Dizia um deles que os escalões de formação deveriam procurar inspirar-se no modelo brasileiro: o mínimo de táctica para não agrilhoar o crescimento espiritual da técnica, maior estímulo do individualismo fantasista a despeito das vitórias colectivas, maior ênfase no futsal como viveiro de pés açucarados. Soa tudo lindamente.

Mas estou em crer que o tal colunista não percebeu que as razões do "sucesso brasileiro" derivam de condições estruturais algo difíceis de copiar. Permitam-me uma pequena enfiada de clichés sobre o Brasil para sinalizar distâncias: um habitus corporal que migra entre o futebol e outras práticas culturais como a dança; a potenciação técnica que resulta de um futebol praticado essencialmente como desporto de Verão (quando vemos Daniel Carvalho e Wagner Love a fazerem rodriguinhos na neve sentimos intensamente o desterro daqueles exilados) ; o lugar proeminente que o futebol ocupa numa cultura de lazer não organizada que só por acaso é desporto e que só marginalmente é competitiva; a baixa presença de playstations entre a miudagem; a menor interferência de distracções infantis alternativas (escola incluída).

Ou seja, ao não se querer ficar pela apologia de uma campanha de prevenção com spots do Ronaldinho, o tal colunista propunha a mais dramática revolução cultural desde que o Mao Tse-Tung acordou com umas ideias.

A questão é que este dilema de futuro revolve à volta de um equívoco, equívoco este que está bem expresso no título do texto que o Rogério cita. O equívoco chama-se José Mourinho, ou melhor, o equívoco é pensar que a escolha de Mourinho constitui uma clara via de fuga em relação à tradição do futebol inglês. Nada mais errado.

Primeiro, porque Mourinho é capaz de ser um camaleão táctico automatizando vários sistemas na mesma época (o Porto jogava em 4-3-3 ao fim-de-semana e 4-4-2 nos dias úteis). Segundo, e talvez mais importante, porque, como aqui disse, a evolução de Mourinho no Chelsea conduziu-o a um processo de sobreadaptação ao futebol inglês, um autêntico beco evolutivo para a criatura sobre-especializada. Resultado: um futebol penoso feito de bola para a frente (para a cabeça do Drogba) e de automatismos extenuantes, uma triste caricatura da tal pureza do futebol inglês.

Por isso, caso contratasse Mourinho, a Football Association estaria a delegar a resolução da crise existencial do futebol inglês num homem que vive a sua própria crise num jaccuzi lá para os lados de Setúbal: depois de dar guarida a fantasistas no Porto, Londres transformou-o num rolo compressor de talento capaz de ser mais anglicano que a Rainha. Os Ingleses não querem o Mourinho para que ele lhes defina o futebol do futuro desta ou daquela forma. São ajuizados. Querem ganhar a todo o custo e querem voltar a ter aquilo que só ele concede na abordagem ao jogo: "the joys of extreme emotion".



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