Festa da Família II

Caro Tiago, tudo por boas razões, é-me sempre muito complicado debater contigo. Sobretudo porque a distância de opiniões (discordamos em relação a quase tudo) concerta-se em mim com uma admiração que transvasa a tua escrita e mete ao barulho a tua pessoa. És uma espécie de pimentos grelhados temperados com molho de manga (não um tempero no sentido de que algum sabor seja amenizado por outro, apenas que combinam e dão, ainda, o gosto extra de nos sentirmos a saborear o exótico -- não da manga, mas da mistura). O curioso é que na componente pessoal disto participa um interessante subtexto: apesar de tranquilamente distanciado, tenho gosto em invejar a tua dedicação duradoura à comunidade de fé de que fazes parte e onde um dia nos "cruzámos". Ou seja, pelas mais laudatórias das razões, ainda que falássemos do tempo, debater contigo seria sempre algo ad hominem.

Em segundo lugar, há uma questão de estilo: o teu ratio de ideias por linha, a que se soma o sábio uso da ironia, cria a ilusão de que há voluntarismo e gravidade a mais em quem te replica. Por isso sempre que me atiro a ti ou te respondo fico logo em cuidados; no entanto estou certo que, malgrado estas provações, no longo curso te converterei. Estas linhas não foram um preâmbulo para o que aí vem -- não haveria necessidade --, lê-as como floreado de um admirador.

Falemos então do meu post sobre o Natal. De facto, como bem referes, sou obrigado a reconhecer que tenho extrema razão. Não só na leitura que faço sobre uma disjunção radical entre o relato histórico do evento e o ritual que o celebra, mas também porque, ao contrário do que possa parecer, o culto da família tem resistido grandemente incólume aos "movimentos anti-natal". Ainda que atentar contra a festa da família seja um gesto previsível de arregimentação negativa (e é), ele tem sido obscurecido pelo protagonismo da crítica à mercadorização dos afectos por alturas do Natal.

Como a imagem que referes (da Maria-mãe-solteira) bem o ilustra, é no mínimo irónico que o relato bíblico do nascimento de Jesus seja resgatado das garras do consumismo natalício pelo retorno à pureza da família, como se a celebração da família (tradicional, entenda-se) estivesse mais inscrita no "texto original" sobre o nascimento de Jesus do que, por exemplo, a bondade/hospitalidade de estranhos (coisa que me envia para a belíssima passagem em Hebreus 13:2). Isto é tão mais saliente quando hoje ateus e agnósticos massivamente recorrem à festa da família como âncora possível para explicarem a sua imersão nas celebrações de Natal.

No entanto, acho que tu tens toda a razão e és inteiramente pertinente na tua interpelação. Acho mesmo. Muito ao encontro do que escreves, percebi algum tempo após escrever aquele post que havia nele algo que me desconfortava: uma secura. Naquele textito vai bem a náusea que o Natal às vezes nos provoca (essa é a parte que gosto), mas reconheço que o enfoque na genealogia histórica (e ideológica) do ritual se mostra excessivamente frio e insensível a um outro tipo de história: a história das apropriações subjectivas e intersubjectivas do Natal, a experiência do Natal como momento singular de encontro e de celebração de afectos. Não acredito que seja possível sermos cínicos perante isso; nem eu desejaria ser capaz de exercer esse cinismo cabalmente: naturalmente que também suspendo a dúvida; tudo faço para me adaptar aos rituais locais; a ideia de um pretexto para a partilha com os outros significativos compraz-me inteiramente. Eu critico, isso sim, o ambiente compulsório que reúne pessoas que nada se dizem apenas porque o sangue e espírito do Natal assim o obrigam. Critico também o modo como a perda do objecto original não é assumida, mas é, ao invés, camuflada na sacralização laica da família (com o presumido beneplácito dos Evangelhos).

No fundo, a minha linha de devastação iria no sentido de que se mudasse a data de celebração do nascimento de Jesus, por exemplo, para dar algumas hipóteses ao cristianismo de inspiração bíblica. No Natal, por más e boas razões, há muito que a agenda está ocupada.



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