"Música para o meu funeral"

Apesar de ser pouco usual à indústria funerária indígena a música no funeral-- quero supor -- é uma ideia bem incrustada do nosso imaginário, talvez porque esse mesmo imaginário esteja sintonizado com os enterros dos célebres, talvez porque esteja acostumado às coreografias cinemáticas vindas de outras paragens. E é claro que a força dessa representação basta para remeter à pequenez minudências logísticas, sobretudo quando estamos perante um ritual maior, um ritual que na escatologia de muitos evoca o transcendente ― por motivos propriamente teológicos ou simplesmente pelo que de transcendente existe no confronto com o fim, mesmo na mais ateia das mentes. Divago.

Não surpreende pois que já tenha recebido mais do que uma encomenda nesse sentido: "a música para o dia do meu funeral". Não há nada de mórbido nisto, até porque os momentos que enquadram esses pedidos têm muito mais a ver com certa devoção musical do que propriamente com o agonizante espectro do fim. No entanto, algo airosamente, sempre fujo à promessa.

O que me detém não é tanto o receio de que as funerárias estejam desprovidas de aparelhagem de som e, por conseguinte, a imagem tétrica da alternativa que então me restaria: seguir na marcha com um daqueles grandes rádios que se usavam em cima do ombro nos anos 80 (a emitir sabe-se lá que sons, imaginem que me pediam Roberto Carlos? - não aconteceu). O que me detém, primeiro, é cristalizar em promessa a eventualidade de ver partir algum cromo da minha estimada colecção de amados. Em segundo, a possibilidade sempre verosímil de eu partir primeiro e falhar os enterros vindouros falta de comparência mais que justificada. Bem, mas nessa altura ficam à vontade de acompanhar o meu funeral com um medley das músicas que vos fiquei a dever.



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