Post-mortem

Um dos inevitáveis problemas da rotatividade democrática é o facto dos poderes eleitos se porem a gerir o governo do Estado em função dos ciclos eleitorais. Ora, a necessidade de ganhar eleições é adversa de transformações estruturais, pelo que se revelam praticamente inviáveis decisões que sendo amigas do longo prazo ameacem vir a ter repercussão negativa nas urnas.

Mas, curiosamente, esse até nem é um problema do governo de Sócrates, é que o príncipe do governo, além de uma maioria absoluta, dispõe de um franco clima de consenso nacional sobre a necessidade de reformas (até à linguagem sacrificial do Velho Testamento ele se permite). A tentação dele é outra.

O tempo curto de que se fazem as lógicas de exercício de poder convida, muitas vezes, a outro tipo de leviandade, esta já não por omissão. Refiro-me à facilidade com que se tomam medidas de consequências irreversíveis para maquilhar e facilitar as situações políticas do momento (passos de dança indecentes como a venda da rede fixa à PT por meia tuta são disso cintilantes -- agradecei a Ferreira Leite).

Quando Sócrates adjudica às Estradas de Portugal a concessão da rede rodoviária nacional por 92 anos, não assistimos, infelizmente, ao privilégio do longo tempo sobre o imediatismo eleitoralista. Como é bom de ver, situamo-nos no campo das decisões levianas. No caso, não sendo irreversível, trata-se de uma decisão que sobreviverá quase um século. Quando um governo que foi eleito por 4 anos toma uma decisão para 92 anos deve estar muito seguro de que defende intransigentemente os direitos do Estado que lhe foi temporária e parcialmente confiado. Quando não, ficamos com a vaga sensação que alguém se arrogou a brincar aos deuses contando, ao contrário destes, com a estudada bênção da mortalidade -- responsabilidade póstuma é o conceito. Isto já não é o uso leviano da rotatividade democrática, é o abuso aritmético da rotatividade das gerações: a tranquila segurança de que qualquer prestar de contas se fará post-mortem.



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