Les Amants réguliers (act.)


Três horas com poucos momentos de enredo propriamente dito perigavam criar uma obra que fosse ora exigente à entrega do espectador, ora cortejada pelo enfado. E é mesmo esse o caso de Les Amants Réguliers: um filme cujo exercício de retrato às vezes exaspera (retrato de um tempo, retrato de um olhar orgulhosamente cinemático).

O realizador Philippe Garrel revisita as suas memórias do Maio de 68 entregando ao filho a missão de o corporizar (sim, o novo ícone do mulherio). Estamos na ressaca do momento pós-revolucionário e uma comunidade de jovens assume o ideário pessoal (e missionário) de continuar o espírito de subversão à sociedade burguesa.

Naquilo que é um déjà vu sempre irresistível, e, acrescento, inteiramente apetecível, as revoluções da intimidade são chamadas à liça, não só pelo meneio biográfico das personagens mas também, e até sobretudo, pela empatia sofrida do espectador. Isto sucede em termos deveras interessantes, ao contrário de outras recapitulações afins (The Dreamers, por exemplo), "Les Amants" despreza a experiência dos limites da revolução sexual centrando-se num tema mais clássico (por assim dizer): a sobrevivência do amor face aos ataques que cada tempo e lugar lhe investe. Amor e contingência são, a meu ver, as duas âncoras da narrativa. Se hoje uma relação pode ter que enfrentar coisas como a simulação do crédito para a casa ou a alergia ao látex, ali é a ambição artística e a ética da liberdade que ameaçam o porvir de um je t'aime abundantemente correspondido.

Reparem, quando Lilie pede a François para ter sexo com um amigo deles porque o acha atraente, eu fico assim meio para o lancinado ("diz que não, não há poder de encaixe para isso, pá!); triste facto: só prova que ainda não houve revolução que me chegasse; claro, podem-me chamar conservador ou romântico bacoco (no que respeita a amor monogâmico vai dar um pouco ou mesmo).

Mas o que resolutamente salvou esta "quase estopada" de três horas é o travo que fica. Um intenso travo a cinema e ao Maio 68. Fica também a coreografia incompleta de uma relação de absoluta entrega que nos é trazida sem densidade da partilha. O olhar perdido de Louis Garrel, já não o poeta mas o amante temeroso, é provavelmente o único testemunho do tanto que está em causa quando por ali se fala de amor. Não sei como muito bem como explicar isto. A verdade é que não gostei assim tanto do filme, mas fiquei completamente assoberbado pelo travo.



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