Em cartaz

É bem verdade que num outro festival o cartaz teria passado provavelmente sem menção. Também é límpido que o cartaz pode ser criticado (não venha a liberdade de expressão fazer-se de coitadinha que já não há paciência).

Por exemplo, eu critico-o. Critico-o pela imponderação. Ficamos a saber que a imagem remete para um momento fílmico (Eyes Wide Shut), por acaso carregado de significado, mas o facto é que a riqueza dessa citação passaria despercebida à esmagadora maioria das pessoas que se deparasse com o cartaz.

O que ressalta na linguagem visual é a imagem de uma criança com um termómetro na boca a anunciar o festival gay e lésbico de Barcelona. Não é preciso muita semiótica para perceber que o contexto potencia as leituras sexuais da fotografia. E nesse sentido a questão nem é (ou não devia ser) o facto de se tratar de um festival homo, mas sim de um festival que, tematizando a orientação sexual, tematiza a sexualidade.

A mim, com assumido sentido táctico nestas coisas da mensagem política, este cartaz parece-me imprudente, mesmo se a polémica que permitisse explicitar o seu significado já estivesse prevista. Mas devo reconhecer o meu viés: talvez diferentemente de Espanha, vivo num país em que é particularmente forte a associação (disparatada) que perpassa no senso comum entre homossexualidade e pedofilia. Temo que a imagem reforce essa associação. Não quer dizer que defenda que as representações culturais se devam manietar ou constranger por preconceitos pueris. Defendo a existência do cartaz, mas, vis-à-vis os preconceitos que o lêem, critico-o por aparatosa falta de tacto.



<< Home