Antisemitismo

À complacência de alguma blogosfera com as declarações racistas de James Watson, segue-se, algumas semanas depois, uma determinada e justa condenação do antisemitismo de Pedro Arroja. Gostaria de ler nisto uma maturação intersubjectivamente criada pelo espaço do debate, mas não sou tão habermasiano, ou sequer ingénuo -- para usar um sinónimo. Há sensibilidades prévias em jogo como é bom de ler. As bravas cruzadas contra o politicamente correcto e o gosto pela provocação leviana são um fartote quando não nos tocam as feridas ou, melhor dizendo, quando não tocam as experiências históricas que viemos a acolher como as nossas feridas.

Emmanuel Lévinas, não por acaso um filósofo judeu, lembrava por isso a importância de atentarmos no outro enquanto imperativo ético: esse outro heterogéneo tem feridas e sensibilidade; mais: como o provam os revivalismos racistas, as estruturas de agressão, ao tempo guarnecidas por um mandato político-cultural, nunca chegam a desaparecer.

A questão é saber distinguir o registo provocatório (e o saudável humor rasgadinho) daquilo que é a agressão a uma identidade ferida ou a endoutrinação racista-- tanto as declarações de Watson como as de Arroja agridem e endoutrinam (o primeiro usa a autoridade de um nobelizado, o segundo usa a retórica). À liberdade de expressão deve-se apor condenação social; não silenciamentos por decreto que servem a estratégia de vitimização do agressor . Condenação social: é o que a blogosfera tem feito em relação a Pedro Arroja, é o que a comunidade científica fez a James Watson.



<< Home