As time goes by

Via Spectrum


Este vídeo é uma preciosidade pelo modo como nos põe a pensar sobre a biografia. O fascínio revolucionário que o estudante exerce naquelas vestes prosaicas, carregado de raiva e convicção, é certamente um dado não despiciendo. Mas esqueçam a política, um mero pretexto formal para a questão substantiva. Que eu tenha muito pouco respeito pelas "convicções políticas" da figura pública que dá pelo nome de Durão Barroso pouco importa. Repito. Sobre a biografia.

A perturbação é-nos trazida pela ficção da pessoa (Durão Barroso) como se de alguma unidade de sentido se tratasse. O assombro de sermos isto e de nos transformarmos no seu radical contrário é compreensível, no entanto tal metamorfose, explica-a a força do tempo que corre, explica-a efeito das circunstâncias que nos constituem (ou contra as quais nos constituímos). A mudança acontece e, em si, não me merece juízo de carácter por aí além. (Por exemplo, talvez mais no amor do que na política, respeito muitos românticos que se tornaram cínicos).

O que aqui se destapa de mais fundo é a ideia de que numa pessoa convivem muitas, a ideia de que somos vários e prolixos num mesmo tempo, ao longo do tempo. As "grelhas de eu" são estereótipos parciais e situados tão dependentes do contexto social como do contexto temporal. Performamos esses estereótipos de forma estabilizada pelo hábito, pela experiência processada, pela crença, pela expectativa e pela memória do nome. Que nos tornemos noutro estereótipo definido pela ideologia política é obviamente possível. Um militante da esquerda revolucionária é o mero estereótipo; já ali havia muitos Durão Barroso. Não necessariamente pistas ou sinais que nos levassem ao que se tornou. Apenas essa coisa simples das muitas vidas que ora se abraçam ora se acotovelam dentro de um corpo que pouco define



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