Sexismo

Hipotecando o meu sucesso reprodutivo para as próximas décadas, já aqui sustentei a minha leitura sobre o assunto : a ética do cavalheirismo nutre-se da (e nutre a) definição da mulher como o sexo fraco. Isto nada obsta a que eu tenha práticas de gentileza e delicodoçura em contextos de particular afeição ou sequer que recuse a adaptar-me a algumas das práticas de prestígio definidas pela grelha patriarcal (como se vê não quero arriscar tanto assim).

Sendo algo chocante e porventura desproporcionado denunciar as práticas cavalheiras como sexismo (apenas porque sou um relativista muitíssimo compreensivo de como as pessoas habitam as estruturas de sentido em que se criaram), surgiu-me há momentos, enquanto fazia aqui gelo, uma formulação que me agrada.

Não me refiro já ao cavalheirismo no sentido lato de uma ars masculina sumamente valorizada na nossa cultura. Refiro-me mais estritamente ao uso das práticas cavalheiras num sentido táctico: aquela gala cheia de adornos e delicadezas pela qual o homem constrói um itinerário que lhe permita levar a mulher para a cama no curto-prazo. Ou seja, nesta lógica a delicadeza do cavalheirismo é menos uma forma de estar do que um património oportunistamente empregue com sinceros fins de colheita sexual.

Pois bem, vamos à vaca fria. Do mesmo modo que o amiguismo tem sido depreciativamente empregue para definir acções cuja lógica é fortemente marcado pelo valor da amizade, daí resultando um viés em que os elogios e outros favores públicos são postos sob suspeita, penso que o cavalheirismo predador pode ser definido nesta analogia como "sexismo": práticas de favor, delicadeza ou galanteio - mais ou menos públicas - que têm como valor de referência o sexo. Do mesmo modo que o amiguismo cuida e acarinha a amizade, assim o sexismo cuida e acarinha a proficiência sexual do cavalheiro de oportunidade.
E era mais ou menos isto.



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