A nossa vidinha


Situada na Alemanha de Leste, ano de 1984, a trama d'A Vida dos Outros revolve em torno dos expedientes securitários da STASI (polícia secreta e central de inteligência com que o regime se protegia).

Não li o alardeado texto com que Pulido Valente achincalhou o filme, mas se calhar em pôr-lhe os olhos talvez cá volte para me deter nele por inteiro (no filme, entenda-se). Por ora, um detalhe.

Há uma cena passada na cantina da polícia que corteja com requintada delicodoçura a nossa vida política recente. Um funcionário da secreta, desatento à presença de um superior, chega à mesa do almoço, tabuleiro na mão, em pulgas para contar aos colegas uma anedota fresquinha sobre Erich Mielke -- nada mais nada menos do que o big boss da Stasi até 1989. Quando após a declaração de intenções se apercebe da presença do superior, o pobre funcionário tenta mudar da assunto cada vez mais embrulhado em manifesta escalada de desespero. Não lhe permitem, é obrigado a contar a anedota até ao fim. Ora o peso do condenado, ora a confiança do comediante, obedece. Depois de uma gargalhada que parecia trazer a bonança, o chefe assume um tom grave e pergunta com severidade "tem consciência do que acabou de fazer à sua carreira?".

O gelo é interrompido por nova gargalhada do chefe que enfim se desfaz para alívio derradeiro do funcionário (o poder quase absoluto sobre a vida de outrem dá para estas brincadeiras). Para que a vira-volta seja total é o superior hierárquico quem conta a todos uma piada, da sua própria lavra, sobre o mesmo todo-poderoso Erich. Venceu o communitas entre os súbditos de Erich. Afinal até o totalitarismo tem as suas catarses, insurrectas por princípio, mas consentidas na pequena escala.

O paralelismo parece disparatado, infelizmente não é. Lembram-se de um senhor chamado Charrua? Não teve tanta sorte.



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