Marion Jones

Confissão: o pedido desculpa de Marion Jones perturbou-me. Sim, bem sei que se dopou com estudada premeditação anos a fio. Também não me custa imaginar que o pedido de perdão tenha resultado de uma contrapartida forjada para atenuar a sanção e assim livrar a beliziana de uma sentença de prisão. O que me comove então? O facto de vermos soçobrar às lágrimas o sorriso mais bonito que já se passeou na história do atletismo? Sou vulnerável à beleza, mas não abusemos.

O que me desarranja os neurónios é não saber o que fazer às alegrias que tive com as medalhas que agora lhe são retiradas (estão proibidos de me chamar anti-americano nos próximos dois meses).

No fundo o que está aqui em causa é o estatuto emocional de experiências passadas agora vistas à luz de uma fraude e, mais contundente, à luz de uma sanção com feitos retroactivos. Isto é tudo muito estranho. Exageramos o poder dos efeitos retroactivos. Nem as segundas classificadas vão agora gritar hosanas pelo ouro que lhes chega tardio e sem glória, após terem chorado baba e ranho, nem a alegria com que Marion subiu ao podium lhe poderá ser alguma vez assacada. Fico com a sensação que há aqui alguma merda que prescreve sem remissão e que estas decisões (justíssimas) instituem momentos de absurdo na vida desportiva. Posto que a consciência é um fantasma de envergadura muito variável, quando Marion pede perdão será que está a desculpar-se pelas alegrias que a seu tempo pôs ao bolso?



<< Home