Lavatório

Uma tendinite contraída no squash numa série de bolares quase perfeitos obrigou-me a radical reformulação dos gestos diários. Coisas prosaicas como fazer uma concha com a mão para levar água à boca enquanto lavava os dentes revelaram-se assaz complexas. A mão esquerda teve que ser ensinada a fazer uma concha que, ainda assim, fica longe dos fartos centímetros cúbicos alcançados pela experiência da mão direita. Aprendi a sentar-me no chão e a levantar-me da cama invertendo todo o movimento dos membros para sustentar o peso do corpo na mão esquerda. Quando acaso encontrava alguém tentava fugir àqueles passou-bens viris que tão mal podem fazer ao meu frágil tendãozinho.

Mas, como decerto imaginam, o aspecto que mais me apoquentou foi a condução. Não que pegue muito no carro. A questão é que pôr a marcha atrás numa 4L obriga a um movimento com o pulso que tem tanto de expedito como de sinuoso, caso contrário estamos sempre a ir parar à 4ª: o ideal, portanto, para estiolar um tendão vagamente ferido, ou, pior, demorar a estacionar mais 5 segundos do que aquilo que o condutor de trás está programado para suportar. Eis senão quando, num gesto que reputo de revolucionário, aprendi a meter a marcha atrás com a mão esquerda. Suponho que isto seja inédito na Europa continental. Peço que não divulguem demasiado por aí, mais, que sustenham a vontade de me parabenizar, coroas de flores, Moët & Chandon e assim.

A minha tendinite está vagamente debelada, não tarda volto ao squash, não tarda volto a pôr a mudança com a direita. Quanto à conchinha à esquerda, acho que já me afeiçoei.

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