Avulsos (act.)

---"O SMS iria vingar sempre porque agora podemos comunicar de forma barbaramente simples aquilo que, dantes, só conseguíamos dizer ao fim do quinto gin." Falar para dentro

5 gins: é mesmo isso. Eu diria que as sms nos fazem mais directos e despudorados por 3 razões:

1-
Um efeito sniper: A não presença física do remetente (de corpo ou voz) permite que nos sintamos menos expostos quando aquilo que expomos segue por mensagem de texto. Por outro lado, ainda que viaje em segundos, há sempre um descompasso (grande ou pequeno) entre o momento em que se envia a mensagem e o momento em que a destinatária a lê. Há como que um sentimento de protecção pelos intervalos de tempo que separam o envio da sms da leitura -- e a leitura de uma (eventual) resposta.

2-
Um efeito literário: As sms permitem uma metódica escolha das palavras, pelo que, mais do que num diálogo sem rede, é possível dizer com disciplinado rigor o que se quer dizer. Antes de enviar podemos ensaiar o tom que dali resulta, podemos adivinhar a experiência interpretativa de quem a vai ler. Mas a ponderação das palavras mais que uma possibilidade das mensagens de texto é uma condição se tivermos em conta o constrangimento de caracteres.

3-
Um efeito de sortilégio: ao contrário do e-mail cuja leitura normalmente implica uma relação de leitura mais ou menos estabilizada -- na secretária à frente do computador -- as sms oferecem-se à boa ventura de visitarem com propósito a intimidade itinerante da destinatária. O simples facto de alguém tirar o telemóvel da carteira o do bolso para nos ler favorece uma recepção que venha a ser abençoada pelo nexo entre o imprevisto e a intimidade.



<< Home