Quaresma (act.)

Há alguma lei que impeça o Quaresma de jogar mais de 20 minutos na assim designada selecção nacional portuguesa?
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Post ampliado a partir do diálogo levado a cabo nos comentários:
Resposta ao Júlio e ao :
Este resultado foi menos culpa de Scolari do que o do jogo da Arménia, por exemplo. A equipa da Arménia foi um triste arremendo de pré-época onde Scolari em vez de olhar para as imensas diferenças no momento de forma de cada jogador, próprias da estação, olhou para os nomes dos habitués, chegando inclusive inominável ao absurdo de deixar Bosingwa na bancada quando, como se percebeu, Miguel, titular de de então, traz o corpo num estado de pujança atlética que nem ao Mantorras se recomenda.

Pelo empate da Polónia não assaco a Scolari excessivas culpas, portanto -- apenas muitíssimas. Na mesma linha anti-necrófaga, considero que o segundo golo da Arménia é mais culpa de Deco (que se abstém de fazer oposição quando Lewandowski apronta o remate) do que de Ricardo (não sou portanto o abutre-reflexo que muitos esperariam).

Que fazia eu ao 11.

Tirava o Simão e punha o Quaresma de início, naturalmente. O Simão, sendo um excelente jogador (que o é), se vê uma nesga criada por uma finta ou por uma mudança de velocidade para centrar não hesita, independentemente do que se passe dentro da área (se acaso decorresse um beberete na área, em franco convívio luso-polaco, com embaixadores e tudo, o Simão centrava à mesma).

O Quaresma oferece outro tipo de soluções arrancadas à sua criatividade colossal -- só não se confrange de o ver no banco quem não gosta de futebol -,- como é capaz de se dar ao trabalho de fintar um jogador três vezes ou inventar soluções alternativas (pé esquerdo, trivela, you name it) para dar tempo aos jogadores da área de se porem nos seus lugares. Um pormenor que, dada a qualidade posicional dos "pontas-de-lança" de Portugal, faz muita diferença. Toda.

Quaresma não é, como ainda gostam de crer, negando as evidências da liga Bwin, um brinca na areia que faz umas fintas inconsequentes (esse argumento vai sendo esgotado pela sua titularidade continuada no clube sempre com assistências que até o Adriano se vê na contingência de concretizar);

Tampouco é inepto diletante a defender, no Porto joga com o estatuto: sendo o reconhecido pai-de-todos deve defender o mínimo para não perder frescura física para assim poder decidir no ataque. O estatuto de "decisor supremo" leva a que no Porto se apresente a defender com postura vagamente négligée, mas não chega a ser negligência, é isso exactamente o que Jesualdo deve ter trabalhado nas nas notas de preparação para os jogos: "Raul está mais nas dobras à esquerda enquanto o Quaresma lá estiver, e vira a bitola para a direita se ele for para lá" .

Ora, na selecção, por onde se movem outros criativos, Quaresma tem naturalmente que defender mais e já provou que cumpre (lembrem-se os jogos da champions, ou a posição menos livre na curta coabitação com Anderson). Agora, não se tome aquilo que é uma opção inteligente do Porto (libertar o esforço físico de quaresma apenas para o jogo de ataque) como uma fatalidade (o Quaresma não sabe defender).

Mais, Quaresma executa as bolas paradas como ninguém, pelo que, mesmo quando menos explosivo, resolve jogos a partir desses lances anti-líricos. Para tal faz a bola tabelar nalgum jogador da sua equipa que esteja disposto a tocar-lhe com alguma parte do corpo (ainda estou por perceber porque é que o Deco marca os cantos com o quaresma em campo -- sem desprimor, claro).

Para ser curto, o que o Simão tem de jogador mais completo (que não tem, é apenas mais conservador no estilo- ou seja, boring), não elide o facto de que o Quaresma habita outro cosmos de possibilidades.

O que já devia ter sido feito há muito.

Acho surpreendente que, depois da partida de Pauleta, Scolari como recentemente confessou, não tenha usado os jogos de preparação ou os treinos para rotinar a possibilidade de jogar com o Ronaldo a ponta de lança. Algo que seria esperável or várias razões:

a) Porque Ronaldo seria o ponta de lança titular sem espinhas, não fosse o extremo que se sabe. Até melhor jogo de cabeça tem do que Postiga, Nuno Gomes, Hugo Almeidsa, João Tomás ou Makukula.
b) Porque, sendo um excelente extremo, caso migre para ponta-de-lança, há excelentes soluções para mitigar a perda (Simão e Nani -- não estou certo que para o Quaresma haja qualquer perda se falamos de extremo em sentido estrito).
c) Porque é estúpido ter extremos que cruzam com requinte e facilidade, e um sistema de jogo fortemente apoiado nas asas, se temos um Nuno Gomes para concretizar. Isto mais parece a tragédia das nozes e dos dentes.
d) Mesmo que não equacionasse colocar o Ronaldo como titular, concedo que não o fizesse de início contra a Polónia, há situações do jogo que obrigam a situações de recurso e convém tê-las minimamente treinadas.
e) Quando vemos Quaresma e Nani no banco e o Nuno Gomes a jogar ficamos com a sensação de que há algo de muito estranho nas lógicas que estruturam o sucesso em futebol. Essa estranheza, que decerto o Joaquim partilhará é, nalgum sentido, a singela revelação de que algo não bate bem no que seja o futebol -- ou o Scolari por ele.



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