Presunção

Em circunstâncias normais não publicitaria um blog destes. É um blog anónimo que especula sobre um tema muitíssimo sério: a investigação em torno do desaparecimento de Madeleine McCann. No entanto, faço-o. O que se passa no blog supra-linkado é uma especulação - um exercício precário desde logo nas premissas de que se abastece -, mas trata-se uma especulação informada e exaustiva no detalhe e, segundo, parte das informações que circulam no tribunal público para contrapor o veredicto aí tomado: a sentença de filicídio involuntário.

O autor colheu uma série de dados e hipóteses com os quais defende inocência do casal MacCann. Eu não defendo tese nenhuma nem me sinto habilitado para tanto. Mais: duvido que alguém fora do meio judicial possa tirar grandes conclusões sobre a matéria. No entanto, insisto, acho que aquele blog presta um serviço fundamental:
1- É importante que a serenidade da opinião se alimente da ideia que todas as hipóteses estão em aberto;
2- A unanimidade acusatória sustenta-se, nas palavras da própria PJ, em provas de extrema fragilidade;
3- A tese do homicídio por negligência, quer porque é um dado novo que reverte hipóteses prévias, quer porque aponta para uma teoria da conspiração, é a mais espectacular e vendável do ponto de vista mediático. Portanto, dada a improbabilidade de se encontrar o raptor ou o corpo de Madeleine (mesmo que fosse esse o caso), a necessidade de alimentar as audiências fará sempre pender a balança mediática para a presunção de culpa.
4- Dado o manancial de informação (sustentada ou não) que pertence ao domínio público, o princípio da presunção de inocência (o segundo desaparecido deste processo) já só se pode repor num jogo argumentativo que, imiscuindo-se nos factos conhecidos, aponte para o carácter precário e provisório das hipóteses em cima da mesa.



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