Madeleine McCann

Alguém disse algo que faz todo o sentido (acontecimento que deve ocorrer umas duas vezes por ano no Prós & Contras). Henrique Monteiro dizia, e bem, que a confirmar-se a tese da culpabilidade dos pais era a nossa crença na humanidade que saía fortemente açoitada (ele não deve ter dito "açoitada"). Tem razão.
Mas vale a pena dizer mais: (também pela histeria mediática) este processo está irremediavelmente marcado pelo espectro de uma desusada crueldade. Seja qual for o desfecho já não escapamos ao confronto com uma crueldade desconcertante:

1º Hipótese
Há uma série de enredos que não afectam por aí além a nossa "crença na humanidade" (vamos manter a expressão). Ora vejamos. A funda crueldade e violência por que procede a pedofilia é-nos familiar -- talvez mais desde o caso Dutroux. O rapto para adopção ou outros cenários atribuídos à intervenção de estranhos são facilmente concebíveis -- afinal há sempre gente capaz de tudo. Também a ideia de um homicídio por negligência paterna é trivial -- acidentes terríveis acontecem. A ocultação do cadáver seria pérfida e cobarde, mas ainda assim concilia-se com os mais elementares poços da vileza humana -- salvar a pele, pois.

Agora, realmente desusado nas coreografias da crueldade, pela escala e frialidade, é imaginarmos um casal que engana meio mundo (literalmente), chama meios de comunicação social, multiplica esforços na persecução da filha, quando, na verdade, a sabem morta -- e onde a "enterraram". Teríamos, nesse caso, um logro friamente orquestrado por duas pessoas que, posto o desastre, planearam esconder-se sob a onda de humanitarismo solidário que incansavelmente ajudaram a criar. Desta crueldade, além de Maddie, seriam também "vítimas" todos quantos se solidarizaram com a dor do casal e se mobilizaram na recaptura da criança.

2ª Hipótese
Esta hipótese é, apesar de tudo, a que mais me impressiona: os pais, inocentes, depois de verem a filha partir para destino incerto e depois de terem concitado todos os esforços possíveis e imaginários, vêem-se agora abandonados pela população que passa das lágrimas solidárias aos apupos, vêem-se abandonados pelas polícias que mudam o rumo da investigação e os passam a ter primordialmente com arguídos, vêem-se abandonados pelas figuras públicas e pelo Papa que prontamente se demarcam, vêem-se abandonados pela imprensa que os retrata como monstros manipuladores. O que se passa é que paulatinamente estão a ser acusados por toda a vivalma de terem deixado a filha morrer, de a terem escondido e, finalmente, de terem montado um circo de solidariedade como manobra de dissuasão (a notícia da Sky News sobre o DNA no carro, pouco importa que seja falsa, vai-lhes cortar o elo com a solidariedade do nacionalismo inglês). Que isto possa estar a acontecer com aqueles pais, é sem dúvida, o cenário que mais me angustia. É contraditório, mas quase desejo que aqueles pais sejam culpados para não estarem inocentes a sofrer tudo isto.



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