Foucault meets Borges

Os homens aparentemente infames, devido às memórias abomináveis que deixaram, aos delitos que cometeram, ao venerável horror que inspiraram, são, na verdade, homens de lenda gloriosa, mesmo se as razões dessa notoriedade são contrárias às que constituem ou deveriam constituir a grandeza dos homens. A sua infâmia é apenas uma modalidade da fama universal. (...)
[Já] a infâmia em sentido estrito é aquela que, não se confundindo com o escândalo ambivalente ou com a admiração inconfessável, nada tem a ver com qualquer espécie de glória. Michel Foucault (minha tradução)
As personagens da Historia Universal de la Infamia que Jorge Luis Borges "coligiu" são, na verdade, representantes da fama universal, conforme formula Foucault. Neles se poderia contar Sade, para entrar no cosmos do francês, um infame glorificável, ao contrário, por exemplo, do herói impossível de Foucault, Piérre Rivière (consta que degolou a família). Este jogo tenso entre o delito capaz de merecer admiração e aquele que, como o de Rivière, arredado está da história universal da fama, aponta para uma sensibilidade cultural que zurze fronteiras já bem dentro dos territórios do ilícito. Aquele espectro variável de eventos que dentro da ilicitude, da ilegalidade ou da imoralidade nos pode ainda fascinar não se resume à lei que nos rege ou àquilo politica e eticamente acreditamos. A experimentação infantil dos limites, a celebração da rebeldia, ou a pura dúvida de que poderemos ter nascido na tribo errada são, sob a forma de fascínio, constantemente convocados para a história universal de Borges, a infâmia no sentido de fama. Fora dessa possibilidade de encanto fica aquilo que a nossa tribo nos convenceu com sucesso ser universalmente inominável: a infâmia em sentido estrito.



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