Ferro

Não raro dou por mim a pensar que uma das coisinhas mais deprimentes que aconteceu na vida política portuguesa foi o facto de Ferro Rodrigues se ter demitido de secretário-geral do PS. Não é que acorde a meio da noite a gritar "Ferro!", mas ocorre-me quando, por algum estranho acaso, me dou conta de viver em Portugal. Não sei se terá sido excessivamente passional após a decisão de Sampaio (repare-se que acabei de colocar passional e Sampaio na mesma frase), não sei se as manigâncias do aparelho já lhe estavam a fazer a cama sem remissão. Mas, bruto e trapalhão que fosse, sempre representava um PS que francamente cortejava o nome de baptismo. Quase diria que me pareceu um excelente ministro. Já como líder da oposição foi por demais truculento e teve essa grande nódoa: lamentável falta de têmpera para pôr o PS a marchar contra a invasão do Iraque. Mas o passar do tempo produz sempre um efeito, já dizia o Proust. Agora percebo que gostava muitíssimo do homem. Talvez tenha sido o último líder político (no sentido ideológico do termo) dos crónicos partidos que nos governam.



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