À espera de Menezes

Leitor atento das dinâmicas recentes da política portuguesa, Marques Mendes convenceu-se de que poderia chegar ao governo com uma ponderosa disciplina de paciência. Na verdade, tudo conspirava para essa atitude de espera: low profile, total abstinência do culto da personalidade, postura conservadora de respeito institucional, postura anti-populista (a proximidade a Alberto João e a invocada necessidade de descida dos impostos são excepções), forte convergência com a política neoliberalizante do Sócrates e, a partir de certa altura, a tutela de Cavaco Silva que veio veio reforçar o "interesse nacional" e a legitimidade de Sócrates nos terrenos ideológicos do PSD.

A espera. Marques Mendes tinha razões para achar que essa poderia bem ser a sua via para a cadeira de Sócrates. Afinal Durão Barroso foi um lendário molusco como líder da oposição e chegou lá. Afinal Sócrates não precisou de se mexer e chegou lá. A questão é que Marques Mendes terá fracassado em perceber que esse modo de ascensão ao poder, trilhado por Durão e Sócrates, foi, apesar de tudo, excepcional. O desgaste limiano de governar sem maioria absoluta desgastou mais Guterres do que a sua própria imagem: saiu antes do tempo e deixou caminho aberto a Durão. A saída cobarde de Durão e o desastre Santana (alguém a quem nunca de deveria entregar sequer a administração do condomínio) consentiu amplo tapete vermelho a Sócrates.

Seguindo os passos dos seus predecessores, Marques Mendes deixou-se ficar à espera que as maçãs apodrecessem e pecou por defeito de acção, defeito de carisma (esse já lá estava), mas também porque leu mal as circunstâncias diversas da sua oposição: Sócrates, além de ter maioria absoluta, tem a seu favor um eleitorado carente, disposto a dar carta branca ao primeiro líder autoritário e reformista que lhe apareça.

Se algum sentido político é possível extrair do que sejam os sufrágios partidários (tal é a teia que se mexe à frente do multibanco) talvez as directas do PSD queiram dizer que uma performance de oposição minimamente convincente ainda importa. Alguém capaz disto ou daquilo, sempre, claro, com ar indignado. Não tinham grande escolha no PSD, escolheram algo diferente, no caso um populista tão vácuo como o seu herói: Santana Lopes.

Para Marques Mendes fica a lição, ser líder da oposição ainda não é tão radicalmente uma profissão de espera.



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