Vegansexuais

Leio e soçobro: "Os vegansexuais são pessoas que não comem carne nem produtos animais e que recusam ter proximidade sexual como parceiros não-vegans, cujos corpos, dizem eles, são feitos de animais mortos [como disse?]".

Como já aqui defendi, entendo ser salutar uma ética de consumo que penalize a crueldade desnecessária para com os animais (na criação, no transporte e no abate). Mas, não querendo ser um contra-fundamentalista (imagino situações que me fariam tornar um vegansexual em segundos), esta reactualização de preceitos religiosos de pureza (é ler o Levítico, Deuteronómio e Mary Douglas) causa-me alguma consternação. Trata-se de sacralizar como puros os corpos que comem saladas face aos corpos contaminados pelo bife da vazia. Nem vale a pena ridicularizar muito mais. Da forma que eu leio a questão, inaugura-se aqui a possibilidade de sermos sexualmente rejeitados por razões injustas. O que, diga-se, pode quebrar o elo de harmonia social que classicamente une o enjeitado às razões da sua detractora (componham o género da frase a vosso contento). Quanto ao mais, aspergir sexo com pureza e preceitos de superioridade moral é coisa que não se segura (milénios de história deviam servir para alguma coisa). Sem o perceberem, os vegansexuais entronizam qualquer carnívoro com o charme de um interdito. Ao mesmo tempo, fomentam o sexo não endogâmico como uma arena de tentação e conquista de onde saem sempre a perder.



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