Confissões sazonais

Habitar pleno Agosto uma cidade desocupada, exposto ao silêncio, à solidão e à ausência dos que amamos, não é, ao contrário do que poderíamos supor, um límpido somatório de vantagens. Explico: com as migrações sazonais vai-se também o quorum que durante o ano garante a cadência bi-semanal de jogos de futebol de 5 (versão relva sintética e versão tacos madeira); eventos dramáticos mais marcados pelo sentido épico com que os contendores o vivem do que pela voluptuosidade da arte, objectivamente explanada. Isto em localidades munidas de equipamentos desportivos ancoradas a uma toponímia tão deprimente como "Pé de Cão". Estão a ver o filme decadente: 10 gajos que um dia sonharam sustentar luxos de fama a jogar à bola -- alguns deles meus ex-companheiros de Académica e Montemorense (sim, eu sei) -- remetidos a sustentar o aluguer semanal dos pavilhões de província (também jogo num pavilhão no centro da cidade, mas isso não é tão cinemático para o efeito que aqui procuro).

Mas, ainda mais deprimente que esse devir é ficar privado dele. Que fazer? Busco saídas airosas. O Jogging aborrece-me de morte. Se ainda é suportável em cidades calafetadas contra a modernidade suja por parques e espaços aprazíveis, bem à mão de semear, em Coimbra qualquer passadeira rolante com ventoinha e vista para a tv-cabo ganha vantagem. Impasse total. Primeiro ainda tentei natação, excelente opção aqui mesmo ao pé de casa com excelentes condições: piscina olímpica, balneário de luxo, horário flexível, 2 euros por utilização. Só que aquilo de andar para a frente e para trás, ou seja, fazer piscinas, entedia-me ao absurdo (quer dizer três pistas seguidas de crawl e fico para morrer, de modo que para descansar nos intervalos, eu é mais bruços). Ademais não dá para ir nadar com auriculares a ouvir música, seria talvez a única forma de mitigar o enfado de andar ali em constante suplício físico, enquanto na pista ao lado um gajo qualquer com calções ridículos pela virilha se diverte a ultrapassar-me. Para cúmulo, nem o jogging nem a natação exercem um apelo mínimo de competitividade que permita diluir o esforço físico no gozo de um golo ou de uma finta bonita.

Parti para ao jorky ball, uma espécie de futebol em miniatura, um jogo de dois para dois praticado num cubículo. Na verdade o jorky ball é um desporto estúpido cheio de regras chatíssimas, feiíssimo de ver. Mas é possível alugar o espaço e usar a bola para fazer algo que mais se pareça com futebol. Não desgosto, e o ritmo que a coisa atinge, assim despido da ganga das regras, puxa que não é brinquedo. Mas a gerência do Jorky Ball fechou para férias. Atingido pelo desespero cheguei equacionar ir jogar ténis. Mas ao contrário de outros desportos de raquete (sou vagamente competente no ping-pong e no badminton), o ténis não é praticável quando os jogadores são desprovidos de um nível mais elevado (é o caso). Portanto, para o espectáculo triste de ases seguidos de duplas-faltas, não estou. Eis quando surge a ideia de squash. Squash? Hesitei, afinal são quase três décadas a conceber o squash apenas como um dispositivo narrativo usado na ficção para dar moldura a diálogos ofegantes, quase três décadas a ver um squash como um desporto jogado por executivos de meia-idade, quase três décadas orgulhosamente a celebrar os desportos populares escarnecendo o lazer estereotipado das elites. Naturalmente entrei no ginásio grã-fino alugado à hora (onde mais se podia jogar squash?) sem dar conversa, respeitando as distâncias (houve só aquele momento em que tive que perguntar as regras, todas) . Experimentei e a verdade é que já comprei uma raquete de squash. Não levo elegância ao desporto, mas, estranhamenente, há ali uma dimensão física que vai bem com uma ética de generosidade proletária. O esforço perde-se no desejo de ganhar e a técnica aprimora-se numa resistência contra a humilhação a que um principiante se sujeita.

No fundo precisei desta longa contextualização para, sem sombra de mal entendido sobre os traços fundamentais da minha identidade, poder confessar: joguei squash e gostei.



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