Quaresma

Gosto demasiado do Quaresma para querer que ele fique no Porto a jogar com medíocres não vendáveis. A opção de Quaresma deve desprezar um futuro que o consagre como o Simão do Porto: o aclamado herói numa equipa que nos sonhos mais molhados aspira à glória do campeonato nacional. Saindo Baía, Ricardo Costa e Lucho é natural que a liderança simbólica tenda a recair em Quaresma: pela virtude futebolística, pela antiguidade e pela adaptação à mitologia do clube (os festejos no colo de Baía foram disso expressão singular). Quaresma não nasceu para símbolo nem para carregar a equipa às costas, mas neste contexto de orfandade somos acometidos pela tentação de entronização simbólica. Que fazer? Ponderar sem que o amor atrapalhe (também útil na vida social). Quaresma nutre-se da irreverência de um estrangeiro, ele é um inadaptado, um rebelde sem outra causa que não o deslumbre capaz de nos fazer questionar os objectivos do jogo (sim, o existencialismo de Camus perpassa nestas linhas) . Passar a vida a fazer trivelas para o Adriano não é futuro para ninguém. Quaresma deve desprezar um clube que o imagina como capitão. Quaresma deve desprezar aquilo que para mim já significa. Prefiro a fragilidade identitária, deixando vago um vazio, à violência do remorso. Não o queiramos para além do razoável.



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