CP

Uma pessoa de cadeira de rodas a viajar no alfa pendular é um episódio bem menos trivial do que gostaríamos de supor. Percebi-o ao testemunhar o imenso aparato tecnológico e humano que, chegados a Coimbra, foi empregue para que uma senhora pudesse descer do comboio. A tecnologia do alfa para essas situações, supostamente mais avançada relativamente a outras composições, é afinal um obsceno remendo. É necessária imensa assistência e forja-se um espectáculo de diferença que certamente dissuade muitos dos passageiros que usam cadeira de rodas.

Mas a saga só tinha começado. Ao sair em coimbra-B a senhora foi sendo empurrada por um funcionário da CP que teve de virar a cadeira ao contrário e respirar fundo para não embalar num declive escandalosamente íngreme que desce até a travessia da linha. O momento de puro estupor aconteceu quando a passageira se prestou a embarcar no suburbano que faz a ligação de coimbra-B para coimbra-A. Dois funcionários da CP tentaram fazê-la subir na cadeira para o comboio, mas quer pelo peso, quer pela estreiteza da porta, a operação revelou-se impraticável. Foi quando perguntaram à martirizada viajante se conseguia sair da cadeira ou levantar-se de algum modo. O que vi não me podia ter enojado mais. Ante o ar de missão cumprida dos CP's e o constrangimento dos demais passageiros, a senhora subiu para o comboio, arrastando-se de joelhos.

P.S. A distinção entre Alfa-Pendular e Intercidades é um disparate porque a escala dos horários não permite efectiva opção. Não havendo nenhuma diferença tangível de tempo ou conforto (eu até prefiro as cadeiras dos intercidades) os passageiros são forçados a pagar mais para viajar no Alfa pelos constrangimentos horários que a CP sabiamente escalona. É um expediente que em vez de oferecer serviços de topo a quem os queira pagar, impõe preços de topo sem escolha possível ou qualidade que os justifique.



<< Home