Corruptela

Por muito que gostássemos de pensar o contrário, a corrupção punível por lei só tenuemente se aparta do um fenómeno mais amplo em que germina: o clientelismo, a troca de influências, a "lealdade" para com as amizades de outro tempo. Os impolutos, uma vez no poder, apenas se distinguem dos demais por olharem para o lado escusando-se a ser parte activa nos cambalachos instituídos.

Por isso, infelizmente, mais determinante que a ética pessoal de determinado político será o hábito instalado nos tentáculos do poder, será a lógica imposta pelo sistema de financiamento, será o jogo de favores de que depende uma eleição. E nisso nada distingue o PS do outro partido de poder: muitas bocas para sobrealimentar esperam pela benemérita teta do camarada. O caso de José Júdice mal e porcamente justificado é cintilante. Acredito que o despudor não seja o mesmo de Carmona, acredito num acréscimo de competência trazido por António Costa, mas, enquanto coisas como o regime de financiamento das autarquias deixarem a política pública vulnerável ao capital privado, enquanto codificarmos como bonomia o favor ao próximo, enquanto houver quem compense em votos os arguidos como vítimas, continuaremos a ter nas autarquias uma sórdida corruptela da democracia. O discurso contra os partidos dispensa os slogans de uma recém-enjeitada pela casa-mãe, sinceramente, e por mim falo, soa à mais pura hipocrisia. Mas precisa desesperadamente de manifestos, manifestos genuínos pela transparência e pelo serviço público. Venham de onde vierem.

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