5 Leituras recentes (parte I)

Macau-Pequim-Coimbra-Maputo. Vou responder por partes. Começo pelo mais recente:





O'Connor, Flannery, 2007 [1949], Sangue Sábio, traduzido por Nuno Batalha, Lisboa: Cavalo de Ferro.




Flannery O'Connor segue a história de Hazel Motes, um desmobilizado do exército americano investido no projecto de criar a sua igreja: a igreja sem-Cristo. A cidade de Taulkinham acolhe-o com indiferença, nada que lhe detenha o afã "evangélico". Ao mesmo tempo que se integra na tradição fanático-panfletária dos pregadores evangélicos do Sul do Estados Unidos, contexto marcado da narrativa, Hazel confere à sua revelação profética termos despudoradamente heréticos. Prega-os a toda a hora não olhando a lugares, senão, talvez, uma curiosa predilecção pelos ajuntamentos criados à porta do cinema.

Num ambiente dado a fanatismos de toda a sorte que em comum reivindicam a herança do sacrifício da cruz, Hazel Motes é o original portador de uma de meia blasfémia -- que só contribui para que a blasfémia seja mais completa. Hazel não nega Jesus, antes celebra um Jesus sem sangue, um jesus mundano sem sacrifício que se lhe visse. Celebra, no fundo, o advento do homem sem dívida, o homem que ao negar o sangue de Jesus nega a possibilidade de juízo. Num mesmo momento, Hazel apregoa a inexistência e a salvação da alma. Portanto, recusando o sangue que o "persegue", Hazel Motes espalha a única verdade por que se pode "salvar".

Ao contrário do outro, lembramos, do laborioso Santo Agostinho, para Hazel já não há redenção (ou Cidade de Deus à vista) por via do fundo arrependimento ou de "Salmos" compungidos. Para ele só há salvação num mundo liberto de Cristo (havia que negar Jesus como o duplo ungido, nem óleo entronizador, nem sangue purificador).

O elemento que assola todo o enredo envia-nos para o facto de que Hazel Motes não é mero um ex-militar, alguém que "fez a tropa", ele é um ex-combatente -- supomos que -- da Segunda Guerra Mundial. E como tantos outros ex-combatentes, Hazel é um perpétuo deslocado de Guerra, alguém que regressa às origens para perceber que elas já não existem em lugar nenhum. Quando lhe perguntam "Dond'é a sua gente, senhor Motes?", ele responde a muito mais: "A minha gente 'tá toda morta".

Da guerra traz uma imagem da (sua) crueldade que não sobrevive ao espelho do juízo cristão, o lugar de partida só se poderia reconstituir em termos suportáveis pela extirpação radical da moral cristã. (A moral que o julga, a moral por que Hazel Motes se julga).

Em Sangue Sábio, este confronto etéreo (uma espetada mista de juízo, moral e castigo) em que dificilmente largamos as ressonâncias de um tal Roda Raskolnikov, recapitula-se no embate entre Hazel e o Pastor cego. Insinua-se uma ideia que nos encosta à almofada: momentos de transgressão moral extrema, como o desvario da guerra, superam as possibilidades do perdão, mesmo que esse perdão seja oferecido sem limite - caso da mensagem cristã. A questão é que o perdão se si mesmo tem limites mais modestos. Sublime paradoxo: a mensagem cristã oferece ao mesmo tempo a) o perdão e b) a moral carrasca de quem não se consegue perdoar.

Hazel tem o seu primeiro embate vitorioso sobre a igreja ao revelar o pastor cego como fraude (comendo-lhe, algo a contragosto, a filha de caminho). Mas a igreja de Cristo não é o pastor fraudulento ou a filha lasciva, ela habita dentro de Hazel, a igreja de Cristo está viva dentro de dele como vivos estão os morticínios da Guerra. Trata-se de uma coabitação dilacerante: não podendo esquecer a guerra trata de negar o Cristo. Precisa de pregar, precisa de uma comunidade de fé onde sustentar esta revelação demasiado pesada para um só homem. A crueldade só se percebe num código moral - religioso ou não. Ser profeta da igreja sem Cristo seria para Hazel a possível fuga para a frente: na memória lateja o que não consegue esquecer, mas lateja também o código de sentido que torna a memória insuportável.

A tradução é bem conseguida, a escrita da autora chega-nos ainda belíssima e o linguajar do white trash é captado em termos bastantes aceitáveis. Não sei como faria o Nuno Batalha para repassar o falar dos negros do Sul, espero que nunca repita o estranho efeito que me chegou em certa tradução de Faulkner: negros do Sul dos Estados Unidos corridos aos trejeitos dos "palops" segundo as anedotas.



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