Touros e touradas

A propósito do último post, o caríssimo Luís Carmelo provoca-me com graça: "também alinhas nesse movimento anti-touradas? (ou tudo não passou de um toque irónico nessa res chamada "Casa do Pessoal da RTP")?" Por fim, qual ordália endossa-me um convite: "Eu, pelo meu lado, vou tentar, este ano, finalmente, ver o concurso de ganadarias na nova Arena de Évora. Queres vir comigo?"

Quanto ao convite resolve-se bem. Caro Luís, enquanto dura o concurso eu fico à tua espera na tasca mais próxima a emborcar vinho da casa (em Évora o risco é baixo) enquanto pico chouriço (confirma-se, não sou vegan) e azeitonas temperadas com alho e azeite. É provável que na tasca contígua a praça me façam companhia algumas mulheres de toureiros que, como eu, tenham estômago fraco para o toureio mas não para a vinhaça (repare-se como desmonto a história do copo de leite insinuando a minha extrema masculinidade - tasca, vinho - ao mesmo tempo que ameaço a dos toureiros).

Mais a sério: sim, Luís, pode-se dizer que alinho no movimento anti-touradas. Vou explicar a minha posição como se fosse um plano para duas ou três gerações. Os meus termos são estes: tendo a plena noção do papel cultural e identitário que a tourada ocupa não prevejo que seja erradicada por decreto. Mais, se por absurdo me fosse dado esse poder não o utilizaria qual força repressora que impõe os seus valores evagelicamente cortando a direito. Mas, como membro de uma sociedade nacional que pratica a tourada, participo no espaço público que a reprova. Vejo-a como um espectáculo cultural de alguma beleza cénica onde a demonstração da virilidade cultivada numa sociedade pastorícia se joga contra o espectáculo do sofrimento de um animal. É este último elemento que me é decisivo. Contento-me, portanto, em ser parte de um espaço público que repudia a tourada pelo penoso sofrimento imposto ao touro e que procura isolar essa prática fazendo-a regredir. A regressão far-se-ia quer pela pela má consciência eventualmente gerada nalguns aficionados, quer por um bloqueio na adesão das novas gerações (mais ou menos isto), até à altura em que o tal decreto proibicionista se tornasse pensável porque menos acintoso às práticas e às identidades que se ligam à tourada (o relativismo leva-me a ser muito cauteloso com o evangelismo violento do progresso e com as identidades feridas) . Ora, este meu plano maquiavélico intui que já há na sociedade portuguesa oposição apaixonada às touradas com suficiente abrangência para comprometer as "marcas" que se lhe associem, por exemplo RTP ou TVI. Por isso, as corridas apoiadas pelas televisões são os meus alvos predilectos. As audiências contrárias à exibição de touradas têm o poder de penalizar os canais, canais esses que, chegará o dia, perceberão que é contraproducente para a imagem estarem a associar-se a um espectáculo enfaticamente repudiado por tanta gente. Portanto, confirmo as tuas suspeitas de que post abaixo seria (e é) todo um programa. Vemo-nos em Évora, mas numa qualquer outra praça, daquelas com esplanadas e , já agora, sem touros a verter sangue.



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