Touros e Touradas II

Amigo Luís, repescando alguns elementos que lanças em novo post, assim como algumas questões debatidas nos comentários, atiro-me a mais umas notas:

1- Por muito sedutor que possa ser um arquétipo mais ao menos caricatural do "anti-touradas", haverá certamente todo um amplo espectro de motivações e argumentos que se conciliam entre os que, como eu, repudiam as touradas.

2- Pessoalmente, talvez por viés de formação, ligo pouquíssimo ao discurso da superioridade civilizacional contra a barbárie (esse mundo do arcaico e primitivo). Não por acaso os gregos inventaram a palavra na origem do nossa "bárbaro" a partir dos sons que com que jocosamente imitavam todos que falavam outra língua que não grego (em vez de blá-blá seria uma espécie de brá-brá). O discurso da civilização carrega arrogância na maioria das vezes, surge, quase sempre, não como argumento, mas como forma de fuga aos argumentos de quem espera que o prestígio cultural da civilização fale por si (seja o prestígio cultural do Ocidente, da Europa ou da Europa não atrasada).

3- A minha desconfiança de princípio face à dicotomia civilizado vs bárbaro não me impede de perceber uma curiosa sobreposição. É naqueles que têm por hábito puxar dos galões da "civilização" para outras questões que leio a alegada barbárie da tourada ser prontamente descartada por apelo a um surpreendente relativismo que valoriza a tradição nacional e o hábito patusco de se apunhalarem touros a trote. Sempre há relativismo, afinal.

4- Parece-me apenas burlesco o argumento segundo o qual quem come carne fica automaticamente cúmplice das touradas ou impedido de se lhes opor. Mais, ao contrário do que o Luís supõe, as associações que se se manifestam contra as touradas também têm uma posição activa face as condições de transporte e abate dos animais que chegam às nossas mesas.

5- Diferentemente de uma tourada, em que o sofrimento até à morte demora o tempo exigido pelo espectáculo, aí se decalcando os termos da exposição ao sofrimento do touro, a legislação nacional regula as circunstâncias da morte nos matadouros: estabelece como um dos primeiros imperativos que se evite todo o sofrimento desnecessário. Naturalmente isso não nos descarta: a massificação e os prospectos de lucro constituem uma forte pressão sobre as condições impostas aos animais que fazem parte da nossa cadeia alimentar. Em todo o caso, a minha medida de "sofrimento aceitável" não será certamente a tourada.

6- Não é essa a minha linha. Mas parece-me legítimo que se possa questionar o próprio "espectáculo do sofrimento" sem ser apontado como hipócrita sob silogismos tortuosos do género: "se não gostas do espectáculo do sofrimento é porque preferes que o sofrimento exista longe da vista". Entendamo-nos. Primeiro, a tourada não expõe algo que lhe exista previamente: o calvário do touro resulta do espectáculo que foi montado em seu nome (por assim dizer), a tourada. Segundo, a socialização na tourada leva a uma trivialização do sofrimento que ali perpassa nas vestes bovinas, banaliza-o. Isto mesmo referia vagamente o Luís, no seu primeiro post, autobiografando-se. Também o Rogério toca no assunto: "durante a infância, o espectáculo assumiu a banalidade do que é familiar (e poucas coisas são mais banais para uma criança do que aquilo que os avós gostam de ver na televisão)".

Luís, fixando este efeito de banalização, deixa-me que te pergunte: tu que cresceste entre touros e toureiros, não estarias à partida fortemente condicionado para não perceber ali a violência que eu e outros vemos latejante? É que ao ler-te o que percebo, longe de sincera convicção pró-touradas, é apenas uma nostálgica solidariedade com as origens. Algo que naturalmente valorizo.

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